“Quando o presidente Trump diz que mudou o regime no Irão, tem razão num certo sentido – transformou-o num regime muito mais radicalizado”, assumem analistas, que avisam que a guerra deu mais poder às fações militares da linha dura dentro do regime iraniano, além de fortalecer o sentimento anti-americano
O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou esta semana que a nova liderança do Irão é “menos radical e muito mais razoável”. Trump e o Pentágono têm declarado repetidamente que houve uma mudança de regime.
“Se repararem, o regime anterior foi dizimado, destruído. Todos estão mortos. O próximo regime está praticamente morto. E o terceiro regime... estamos a lidar com pessoas diferentes de tudo o que já vimos antes. É um grupo de pessoas completamente diferente”, assegurou Trump no início desta semana. “Portanto, consideraria isso uma mudança de regime.”
Mas o que a maioria dos politólogos e analistas considera ser uma mudança de regime envolve uma potência externa a transformar a forma como um país é governado, e não meramente a substituir as pessoas no topo desse sistema.
Na verdade, a guerra deu mais poder às fações militares da linha dura dentro do complexo sistema de governo iraniano, além de fortalecer o sentimento anti-americano.
“Este regime é mais linha-dura, menos propenso a compromissos e, francamente, mais abertamente ligado à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC)”, explica Mona Yacoubian, diretora do programa para o Médio Oriente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Vimos a decapitação do líder reinante no Irão na altura, mas isso não se traduziu em mudanças drásticas em termos de quem detém o poder ou da sua posição em relação aos Estados Unidos.”
Mona Yacoubian ressalva que nenhum analista possui, neste momento, um conhecimento profundo do funcionamento interno do governo iraniano. Há muitos questões – que até alguns funcionários americanos reconheceram. Aliás, não se sabe se o novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, está de boa saúde ou se está de facto a liderar a nação, dado que não foi visto nem fotografado desde o início da guerra.
Mas os especialistas sabem que o próprio Mojtaba tem fortes laços com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que o elevou a essa posição, e por isso é mais subserviente da Guarda Revolucionária do que o seu pai.
Outros líderes, como o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, mantêm-se os mesmos, ao contrário do que afirma Trump.
Intensificar a repressão estatal
Os analistas admitem ainda que se espera que este regime intensifique a repressão contra os seus próprios cidadãos.
“Quando o presidente Trump diz que mudou o regime no Irão, tem razão num certo sentido – transformou-o num regime muito mais radicalizado”, observa Ali Vaez, diretor do Projecto Irão do International Crisis Group. “Todos estes indivíduos que estão agora no poder – o novo conselheiro de segurança nacional, o novo chefe da Guarda Revolucionária Islâmica, o presidente do parlamento, que foi ele próprio um antigo comandante da Guarda Revolucionária – todos estiveram amplamente envolvidos na repressão interna no passado.”
O regime iraniano reprimiu brutalmente os protestos que eclodiram em todo o país em janeiro, matando milhares de manifestantes. Só no último mês, há registo de pelo menos nove execuções, algumas delas ligadas aos protestos de janeiro.
As novas autoridades iranianas estarão em alerta contra qualquer forma de revolução popular, algo a que Trump incitou nos primeiros dias da guerra. O regime estará também alarmado com a recente série de falhas e fugas de informação de inteligência.
“Dado o grau de paranóia do regime, acredito que a repressão será muito mais severa do que foi no passado”, assume Ali Vaez à CNN.
Este é um regime ferido e, se sobreviver, não cederá um milímetro à sua população, pelo menos não tão cedo”, teoriza Vaez, diretor do Projeto Irão do International Crisis Group
Embora as capacidades militares e as forças navais do Irão tenham sido prejudicadas pelos ataques dos EUA e de Israel, a Guarda Revolucionária ainda mantém o controlo sobre as “armas e o dinheiro” necessários para suprimir a dissidência interna, de acordo com Mona Yacoubian.
“E mantêm a Basij, que são como os soldados rasos deste aparelho repressivo”, acrescentou Yacoubian, referindo-se às forças paramilitares subordinadas à Guarda Revolucionária, que desempenharam um papel importante na repressão da dissidência popular. “Não viram qualquer tipo de desintegração ou mesmo erosão do controlo do regime, certamente não nas áreas urbanas.”
Isto para não falar de que os danos sofridos não foram suficientes para os dissuadir de prosseguir a guerra e de exercer controlo sobre o Estreito de Ormuz.
Entretanto, o apertado controlo das autoridades iranianas sobre o acesso à internet mantém-se intacto. O bloqueio nacional da internet já dura há 36 dias, segundo o monitor de internet Netblocks.
O regime iraniano está a impor uma severa censura aos motores de busca no país, com palavras-chave como "guerra" a não apresentarem resultados, de acordo com um novo relatório do Grupo Miaan, uma organização sem fins lucrativos que apoia os direitos humanos no Irão. Isto acontece à medida que o governo avança na implementação de tecnologia que permite o acesso à internet internacional apenas a pessoas com autorização de segurança.
“É provável que as autoridades iranianas continuem a recorrer aos mesmos métodos básicos que têm utilizado há anos – censura, vigilância, bloqueio seletivo, pressão sobre as plataformas, prisões e encerramentos periódicos – mas a trajetória mais ampla aponta para um controlo mais rigoroso, mais centralizado e mais focado na segurança, em vez de simplesmente ‘mais do mesmo’”, afirmou Amir Rashidi, diretor de direitos digitais e segurança do Grupo Miaan.
As prisões de dissidentes também continuaram. Na noite de quarta-feira, a advogada iraniana de direitos humanos Nasrin Sotoudeh foi detida em sua casa pelas forças de segurança, segundo um comunicado divulgado pela sua filha na quinta-feira.
“Nada a perder” em relação aos objetivos nucleares
A guerra deverá também reforçar a determinação do regime em obter uma arma nuclear, assumem os especialistas. O antigo líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei, tinha emitido uma fátua, uma decisão legal ao abrigo da lei islâmica, proibindo a bomba nuclear. Mas esse decreto morreu com Khamenei, afirma Ali Vaez.
“Para qualquer força militar, ter o máximo poder de dissuasão é uma perspetiva muito atraente”, observa Vaez. “Agora são os militares que estão no comando – um exército cuja dissuasão regional foi enfraquecida, cuja dissuasão convencional será significativamente degradada no final desta guerra – e ainda assim tem um atalho para as armas nucleares”, sob a forma de mais de 400 quilos de urânio altamente enriquecido.
Os analistas entendem que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) vai observar o exemplo da Coreia do Norte, referindo que o país não foi alvo de ataques precisamente por possuir armas nucleares.
“É difícil imaginar como poderia o regime chegar a outra conclusão que não fosse a de que a sua melhor esperança de dissuasão é a posse de uma arma nuclear”, admite Yacoubian à CNN. “Neste momento, não há nada a perder.”
No seu discurso na Casa Branca, na quarta-feira, Trump reiterou que o Irão estava "à beira" de obter uma arma nuclear, o que contradiz as avaliações dos serviços de informação norte-americanos e ocidentais.
O presidente norte-americano reforçou ainda as suas alegações de mudança de regime, argumentando que os EUA estão a desmantelar a "capacidade desse mesmo regime de ameaçar a América".
"A mudança de regime não era o nosso objetivo. Nunca falámos em mudança de regime, mas a mudança de regime ocorreu devido à morte de todos os seus líderes originais", esclareceu Trump.
Outros responsáveis norte-americanos, no entanto, têm sido cautelosos ao falar sobre a nova liderança do Irão de forma menos categórica.
"Veja bem, há algumas fissuras a acontecer internamente ali [no regime iraniano]", assumiu o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em entrevista à ABC News, na segunda-feira.
"O povo do Irão é incrível. O problema são as pessoas que os lideram, este regime clerical. E se houver novas pessoas no comando que tenham uma visão mais razoável do futuro, isso seria uma boa notícia para nós, para eles e para o mundo inteiro", acrescentou Rubio. “Mas também temos de estar preparados para a possibilidade, talvez até para a probabilidade, de que não seja esse o caso.”