Força, prisão, corte de internet. Como o Irão está a tentar abafar os protestos contra a "polícia da moralidade"

5 out, 23:48
Manifestações no Irão (Associated Press)

Há duas semanas que o regime conservador iraniano é desafiado por protestos na rua. A morte de Mahsa Amini, de 22 anos, que foi torturada pela “polícia da moralidade” por usar o véu islâmico de forma errada, incendiou os ânimos. Mas o líder iraniano Ayatollah Ali Khamenei alega que a agitação foi instigada pelas potências estrangeiras e culpa os manifestantes. É sinal de mais violência a caminho? Tudo indica que sim

O The Washington Post analisou centenas de vídeos e fotografias dos protestos para perceber as táticas usadas pelas autoridades iranianas. A publicação cruzou, depois, esses registos com os relatos de manifestantes e dados de organizações de defesa dos direitos humanos. E são três as técnicas usadas para conter os tumultos: uso indiscriminado de força, detenções e perturbações no fornecimento de abastecimento.

Uso indiscriminado de força

O The Washington Post identificou vídeos de sete cidades onde as autoridades disparam contra os manifestantes. Se nos registos visuais não é possível identificar o tipo de munições usadas, é “muito provável” que sejam munições reais, atesta N.R. Jenzen-Jones, diretor da Armament Research Services.

Vídeos gravados a 17 de setembro em Saqqez, cidade natal de Mahsa Amini, corroboram este cenário. Os manifestantes são rapidamente dispersados por polícias que chegam em motos, disparando em várias direções.

Um documento do quartel-general das forças armadas iranianas, obtido pela Amnistia Internacional e verificado pelo jornal, ordena às forças de segurança que “confrontem severamente” os manifestantes. Os manifestantes ouvidos dizem que, quando a polícia chega, não há qualquer intenção de acalmar a situação. É o que se tem assistido em várias cidades, incluindo Teerão.

Prisão

Os vídeos analisados mostram as forças da autoridade a deterem, de forma agressiva, manifestantes em pelo menos cinco cidades iranianas nas últimas semanas. As detenções acontecem longe das multidões, em ruas paralelas. Como os agentes chegam de motos, têm maior rapidez de ação.

Um manifestante em Balo contou inúmeras detenções na noite de 21 de setembro, inclusive com recurso ao uso de gás lacrimogéneo. Os policias chegavam à paisana. Nessa mesma cidade, a 30 de setembro, foram detidas 50 pessoas. A maioria está sob custódia – e receia-se que sujeitos a torturas, com as famílias a terem muitas dificuldades a conseguirem informações sobre eles. Segundo o mesmo manifestante, essa ação acabou por acalmar os protestos, tendo-se instalado um clima de medo.

Perturbações na internet

O Irão tem avançado com perturbações no fornecimento da internet, tornando mais difícil o contacto entre os manifestantes e a transmissão de informação sobre o que se passa para fora do país. Ao longo das últimas semanas, os cortes parecem mais cirúrgicos, segundo a análise do The Washington Post.

A análise do tráfego mostra que os problemas mais significantes começaram a 21 de setembro, a noite mais sangrenta de confrontos. Os problemas na conexão tendem a arrancar pelas 16:00, hora a que termina o dia de trabalho e começa a maioria dos protestos. Por volta da meia-noite, a rede volta a dar sinais de maior normalidade.

A 21 de setembro, o Instagram e o Whatsapp foram abaixo no Irão, impedindo muito material de chegar ao ocidente. A análise do jornal a uma das contas de Telegram mais ativa na disseminação de informação mostra que o número diário de publicações caiu de 80 para 40. Já o grupo anti-governamental 1500 Tasvir dizia receber mais de três mil vídeos por dia; agora são 100 a 200 por dia.

Relacionados

Médio Oriente

Mais Médio Oriente

Patrocinados