EUA podem decidir já hoje se atacam o Irão e uma "intervenção em grande escala" resultará em "riscos inaceitáveis"

13 jan, 07:00
Iranianos reúnem-se e bloqueiam uma rua durante um protesto em Teerão, Irão, na sexta-feira. MAHSA/Middle East Images/AFP/Getty Images

Após trocas de ameaças, e numa altura em que os protestos contra o regime dos aiatolas já se salda em pelo menos 503 mortos, o presidente norte-americano reúne-se esta terça com os principais conselheiros para decidir qual das "várias opções" seguir em relação a Teerão. No imediato, e com os iranianos muito divididos em relação a uma eventual operação militar dos EUA, "as declarações de Trump arriscam reforçar a narrativa do regime de que os manifestantes são agentes estrangeiros"

Mais de 500 mortos, mais de 80 horas sem internet, uma capital a usar os EUA como desculpa e outra a usar os protestos como pretexto. Podem sumarizar-se assim os acontecimentos dos últimos dias no Irão, que está há mais de uma semana a ser varrido por renovadas manifestações contra o regime dos aiatolas e contra a grave situação económica do país.

Esta segunda-feira de manhã, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, disse que os protestos se “tornaram violentos e sangrentos para dar uma desculpa” aos Estados Unidos para avançarem com uma intervenção militar contra o país, assegurando, ainda assim, que “a situação está sob controlo total” em todo o país. 

Um dia antes, Donald Trump tinha dito aos jornalistas que a liderança iraniana entrou em contacto com a sua administração para marcar uma reunião - um passo que contraria as garantias de Araghchi sobre o “controlo total” da situação. O presidente norte-americano também disse que esta abertura pode ter chegado demasiado tarde e que a sua administração poderá optar por agir antes de qualquer encontro.

“Parece que algumas pessoas que não deveriam ter sido mortas foram mortas”, disse Trump aos jornalistas a bordo do Air Force One na madrugada desta segunda-feira em Portugal. “Eles são violentos. Não sei se os seus líderes, se é que se pode chamá-los de líderes, governam apenas através da violência, mas estamos a analisar isto com muita seriedade. Os militares estão a analisar a situação e estamos a considerar algumas opções muito fortes. E tomaremos uma decisão.”

De acordo com o Wall Street Journal, Donald Trump até já se decidiu mesmo por uma ação militar, mas um conjunto de pessoas da administração lideradas por JD Vance estão a tentar convencer o presidente norte-americano a adotar a via da diplomacia.

"Ao afirmar publicamente que o Irão estendeu a mão, Trump sinaliza influência e o controlo da agenda, enquanto o aviso de que poderá agir primeiro aumenta a pressão sobre a liderança de Teerão", considera Houssein al-Malla, investigador especializado no Médio Oriente do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA). "O perigo é que essa abordagem incentive os radicais iranianos a presumir que Washington está a negociar a partir de uma posição de escalada, em vez de compromisso."

Donald Trump fala aos jornalistas a bordo do Air Force One (Samuel Corum/Getty Images)

A ameaça do presidente americano não foi inédita e anteriores avisos de Trump já tinham merecido uma resposta iraniana à altura, com a liderança em Teerão a prometer atacar alvos dos EUA e de Israel na região se for detectada qualquer movimentação ofensiva. No mesmo dia em que os iranianos supostamente contactaram os EUA, Araghchi reuniu-se com o seu homólogo de Omã, no que Eric Lob, investigador afiliado do Instituto do Médio Oriente (MEI), diz constituir uma “provável tentativa de mediação com os EUA”.

“Se a liderança iraniana tivesse procurado os EUA, provavelmente teria sido para diminuir as tensões com os EUA enquanto enfrenta crescentes protestos no país, com o objetivo de aliviar a pressão externa ao mesmo tempo que enfrenta esta situação interna”, refere à CNN o também diretor do programa de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Internacional de Miami.

Em última instância, a panela de pressão atual pode levar Teerão a “transformar o seu programa nuclear numa arma de dissuasão contra os EUA e Israel”, uma medida que, segundo Lob, “dependeria da gravidade dos danos causados ao programa durante a guerra dos doze dias” - a mesma que Trump repetiu numa entrevista recente com o New York Times que causou a destruição total das aspirações iranianas de enriquecimento de urânio, apesar de predominarem as dúvidas sobre se assim foi. A questão, adianta o especialista, é que, “ao tomar tais medidas, o regime correria o risco de ser detectado pelos EUA e Israel e de ser novamente alvo de uma ação militar por parte de ambos.”

"Paradoxalmente, quanto mais intenso se torna o confronto, mais o programa nuclear passa de uma alavanca diplomática para um escudo contra a pressão", secunda Houssein al-Malla. "Esta crise torna o programa nuclear do Irão mais central, não menos. Quando os regimes se sentem ameaçados interna e externamente, as capacidades nucleares são frequentemente vistas como um seguro estratégico, e não como uma moeda de troca."

O Irão não é a Venezuela

Desde o início de um ano que arrancou com a operação surpresa dos EUA contra a Venezuela, Trump já proferiu ameaças de intervenção e ataques contra a Colômbia, Cuba, o México, a Gronelândia e o Irão, este último à guisa de proteger os manifestantes que estão a ser reprimidos em várias cidades do país. E há quem considere que o objetivo final dos EUA é derrubar o regime dos aiatolas, caso de Naysan Rafati, analista sénior do Irão no International Crisis Group, que no final da semana passada já o tinha defendido em entrevista à revista TIME.

Tal como na Venezuela, "a administração Trump está realmente a tentar uma mudança de regime sem o dizer abertamente", diz Rafati, e para isso "está a fazer um jogo muito paciente, utilizando todo o tipo de ferramentas, incluindo pressão máxima, que consiste principalmente em sanções económicas mas que, ocasionalmente, também se traduz em ações cinéticas". Contudo, as comparações entre os dois casos são ou devem ser muito limitadas, dadas as óbvias diferenças entre os dois países e as duas regiões.

Em declarações à Sky News, o embaixador dos EUA em Israel garantiu no arranque da semana que o objetivo de qualquer intervenção norte-americano não é a deposição do regime dos aiatolas, que tomaram o poder há quase 50 anos na chamada Revolução Islâmica. Ainda assim, vários media norte-americanos apontam que a CIA e a Mossad, a secreta israelita, estão a analisar que passos dar, com fontes das secretas a adiantarem que o regime pode não estar assim tão frágil quanto possa parecer.

"Uma intervenção em grande escala ou uma campanha para derrubar o regime acarretaria riscos inaceitáveis de escalada regional", até porque o Irão "possui um exército convencional forte, redes regionais de representantes e a capacidade de atacar indiretamente os interesses dos EUA em todo o Médio Oriente", considera Al-Malla. "A estratégia dos EUA neste caso é a coerção calibrada, em vez da força decisiva, porque o Irão pode responder de maneiras que a Venezuela não poderia."

Por agora, ressalta Lob, “os EUA ainda não parecem ter mobilizado recursos militares em torno do Irão, nem começaram a atacar petroleiros ou outros navios ao largo da sua costa”, como aconteceu nas semanas que precederam o bombardeamento de Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro e da sua mulher, que estão agora detidos em Nova Iorque à espera de julgamento. E Trump deve estar ciente que Terrão não é Caracas, até, ou sobretudo, face aos avisos que o regime clerical já fez.

foto Agência de Notícias Fars via AP

“Na semana passada, o conselho de defesa do Irão emitiu uma resolução a declarar que o Irão tomaria medidas preventivas se detectasse preparativos militares por parte dos EUA e de Israel – e desde o início dos protestos e das ameaças do presidente Trump, os líderes e funcionários iranianos emitiram declarações semelhantes sobre atacar os recursos americanos na região caso os EUA conduzam uma operação militar”, destaca o analista. “Se interviessem militarmente contra o Irão, os EUA teriam de enfrentar os seus drones e mísseis, tal como quando levaram a cabo com Israel a guerra dos doze dias em junho passado.”

De acordo com uma fonte oficial norte-americana citada pela Reuters no domingo, Trump vai reunir-se esta terça-feira com os seus principais conselheiros para debater as opções de pressão ao Irão – opções que, segundo o Wall Street Journal, passam por ataques militares, o recurso a ciberarmas secretas, o alargamento das sanções em vigor e a provisão de ajuda online a fontes antigovernamentais. Até lá, segue tudo em aberto.

“É difícil prever o que irá acontecer”, diz Eric Lob. “Se esta ronda de protestos for semelhante às anteriores, provavelmente será reprimida pelo bloqueio da internet e pela repressão estatal – ainda que continue a representar um verdadeiro desafio à legitimidade de um regime que está sob crescente pressão interna e internacional.” E para os iranianos, como para os venezuelanos, a situação corresponde a uma verdadeira faca de dois gumes.

“Para os iranianos dentro e fora do país, as ameaças do presidente Trump de intervir militarmente são uma questão controversa – alguns querem uma intervenção mais forte para derrubar um regime cada vez mais impopular, outros estão preocupados com as implicações para a soberania e a estabilidade do Irão, com a morte e a destruição da guerra de doze dias ainda frescas nas suas mentes”, refere o especialista do MEI. 

No limite, e enquanto as palavras não redundam em ações, a retórica de Trump pode jogar contra aqueles que estão nas ruas a fazer ouvir a sua voz, em particular as mulheres que, arriscando tudo, estão a queimar imagens do aiatola Khamenei com cigarros. “As declarações de Trump arriscam reforçar a narrativa do regime de que os manifestantes são agentes estrangeiros, numa tentativa de os deslegitimar.”

Sem referir os alegados planos de Trump, Roberta Metsola anunciou ontem que a diplomacia iraniana passa a estar proibida de entrar no Parlamento Europeu, em resposta à repressão dos manifestantes. "Não continuar tudo como se nada tivesse acontecido", anunciou a presidente do órgão legislativo da UE na rede social X. "Enquanto o corajoso povo do Irão continua a lutar pelos seus direitos e pela sua liberdade, tomei hoje a decisão de banir todo o pessoal diplomático e quaisquer outros representantes da República Islâmica do Irão de todas as instalações do Parlamento Europeu. Esta casa não contribuirá para legitimar este regime que se tem mantido através da tortura, repressão e homicídios."

Ao final do dia de ontem, o chefe da diplomacia iraniana confirmou publicamente, numa entrevista à Al-Jazeera, que Teerão está disponível para se sentar à mesa das negociações nucleares com os EUA, "desde que isso aconteça sem ameaças ou imposições", adiantando: "Não acreditamos que Washington esteja pronta para negociações justas e equitativas mas, quando estiver, iremos considerar o assunto de forma séria."

Perante a "diplomacia coerciva" de Trump, que apostou numa combinação de abertura às negociações com a ameaça de ações iminentes, o risco imediato "não é uma guerra deliberada, mas um erro de cálculo antes mesmo do início dessas negociações", considera Al-Malla, sublinhando que "a diplomacia conduzida sob ameaça tendo a estreitar, em vez de ampliar, o espaço para alcançar compromissos". Mas no imediato, é improvável que isso mude, adianta o especialista do GIGA. "No curto prazo, o desenvolvimento mais provável é a intensificação da diplomacia paralela por meio de intermediários, juntamente com a escalada retórica contínua de ambos os lados."

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