"Serão atingidos em força pelos Estados Unidos", ameada o presidente dos EUA
O custo de vida no Irão tem estado no centro das preocupações dos iranianos, que não demoraram a insurgir-se contra o Governo exigindo o fim do aumento generalizado dos preços por todo o país. Enquanto a inflação regista níveis históricos, a revolta sai à rua nos grandes centros urbanos e já se estende às zonas rurais - onde a crise económica é mais aguda.
“Esta é a revolta da periferia contra o centro: pessoas que não têm representação no sistema e que ninguém vê”, afirma Saeed Laylaz, analista de economia política do Irão, em entrevista ao Financial Times.
A crescente agitação antirregime deu origem à maior onda de protestos no Irão em vários anos, que se arrasta há cerca de uma semana. Por todo o país ecoam slogans contra o regime, reclamando a “morte da República Islâmica” e do aiatola Ali Hosseini Khamenei. As manifestações destacam-se pela sua violência e pelos confrontos entre manifestantes e forças de segurança, que têm sido acusadas de utilizar munições reais.
O balanço mais recente aponta para pelo menos 14 mortos, incluindo membros das forças policiais, e dezenas de feridos.
Na base das reivindicações populares está o combate à hiperinflação, à desvalorização da moeda e à estagnação da economia. A inflação “está na casa dos dois dígitos”, mas para os moradores das pequenas localidades chega aos três dígitos “porque o seu principal alimento básico é o pão”, explica o analista Saeed Laylaz.
Desde a guerra de 12 dias entre o Irão e Israel, em junho, a moeda perdeu cerca de 40% do seu valor e a inflação anual subiu para 42% em dezembro. No mesmo mês, a inflação dos alimentos subiu 72% e o preço do pão foi dos mais afetados, com uma subida de 113%.
O emprego também se tornou escasso, mas o grande problema é mesmo “garantir comida suficiente”, diz uma cidadã, Leila, em declarações ao Financial Times. Esta universitária de 30 anos vive com a irmã em Borujerd, na província de Lorestan - uma das regiões mais pobres do Irão - e a pensão mensal da mãe, de cerca de 111 euros, é o único sustento, que mal dá para comprar comida e os medicamentos necessários. “O nosso problema é o pão”, sublinha esta jovem iraniana, que também aponta a falta de emprego como uma falha no país.
Sarhad Karami, um poeta da cidade curda ocidental de Shahabad, na província de Kermanshah, publicou recentemente um vídeo no Instagram no qual mostra os alegados ferimentos causados por balas de borracha disparadas pelas forças de segurança, durante os protestos. “Nós só dissemos que temos fome”, revelou o manifestante, deixando uma questão no ar: “É essa a resposta a todos os sacrifícios que estas pessoas fizeram? Balas de borracha?”.
Na sequência da captura do aliado do Irão Nicolás Maduro, Donald Trump voltou a avisar o Executivo iraniano de que “iria em auxílio” dos manifestantes se Teerão respondesse com violência aos protestos. “Se eles começarem a matar pessoas como fizeram no passado, serão atingidos em força pelos Estados Unidos”, disse o presidente norte-americano aos jornalistas, esta segunda-feira.
Embora as autoridades tenham reconhecido as queixas dos manifestantes como legítimas, insistem em atribuir a responsabilidade do caos à interferência estrangeira, neste caso americana. O chefe da polícia do país disse no domingo que os “líderes” dos protestos ativos nas redes sociais e nas ruas foram capturados e confessaram ter recebido “dólares”.
Como forma de contestar o apoio dos EUA - e de Israel - à agitação social, o chefe do poder judiciário iraniano declarou que não seriam feitas quaisquer “cedências” aos manifestantes.
US President Donald Trump on Sunday said Iran would “get hit very hard by the United States,” if authorities kill protesters during the ongoing nationwide protests
— The New Region (@thenewregion) January 5, 2026
“We’re watching it [the protest] very closely. If they start killing people like they have in the past, I think… pic.twitter.com/HKoou8poe3
Ao Financial Times, o sociólogo Taghi Azad Aramaki diz que uma mudança de paradigma exigiria reformas “difíceis e dolorosas”, assim como “medidas de grande dimensão”.
Em resposta ao desespero da população, o governo reformista do presidente Masoud Pezeshkian quebrou o silêncio e tomou medidas para reformular o sistema de subsídios e melhorar o regime de vales de alimentação. Ao abrigo do novo plano, cerca de 90% dos 88 milhões de habitantes vão receber um vale no valor de 10 milhões de riais iranianos por mês, o equivalente a 203 euros. O ministro da Economia também prometeu empréstimos bancários a juros baixos para as famílias mais pobres.
Em Lorestan, as medidas continuam a parecer insuficientes. A região tem uma das taxas de desemprego mais altas do país, de acordo com um dos seus deputados, Reza Sepahvand. “O elevado desemprego, aliado à hiperinflação, levou a um alto índice de miséria na província”, afirmou à imprensa no mês passado.
Para Leila, os apoios vêm tarde e são inadequados à realidade. Mesmo com direito a 30 milhões de riais por mês, a sua família fica com necessidades por responder. “Isto não é nada. E o resto das nossas necessidades? E os medicamentos da minha mãe?. Nós já não somos apenas ‘pobres’. Nós estamos muito abaixo do nível de pobreza a que estávamos habituados”