Queda da moeda leva aos maiores protestos no Irão desde a detenção de Mahsa Amini

CNN
30 dez 2025, 10:48
Protestos no Irão (Fars News Agency/AP)

Espiral inflacionista está a aumentar os preços a um nível incomportável

Os maiores protestos do Irão em três anos eclodiram esta segunda-feira, depois de a moeda do país ter caído para um nível recorde em relação ao dólar americano e de o presidente do Banco Central se ter demitido.

A televisão estatal noticiou a demissão de Mohammad Reza Farzin, enquanto os comerciantes e lojistas se manifestavam na rua Saadi, no centro de Teerão, bem como no bairro de Shush, perto do principal Grande Bazar de Teerão. Os comerciantes deste mercado desempenharam um papel crucial na Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia e levou os islamistas ao poder.

A agência noticiosa oficial IRNA confirmou os protestos. Testemunhas relataram manifestações semelhantes noutras grandes cidades, incluindo Isfahan, no centro do Irão, Shiraz, no sul, e Mashhad, no nordeste. Em alguns locais de Teerão, a polícia disparou gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes.

Os protestos desta segunda-feira foram os maiores desde 2022, quando a morte de Mahsa Jina Amini, de 22 anos, sob custódia policial, desencadeou manifestações a nível nacional. Mahsa Jina Amini, de 22 anos, foi detida pela polícia da moralidade do país por alegadamente não usar corretamente o seu hijab.

Testemunhas disseram à The Associated Press que os comerciantes fecharam as suas lojas esta segunda-feira e pediram a outros que fizessem o mesmo. A agência noticiosa semioficial ILNA disse que muitas empresas deixaram de funcionar, embora algumas tenham mantido as suas lojas abertas.

No domingo, os protestos limitaram-se a dois grandes mercados de telemóveis no centro de Teerão, onde os manifestantes entoaram slogans antigovernamentais.

Nesse mesmo dia, o rial iraniano caiu para 1,42 milhões por dólar. Já esta segunda-feira, foi negociado a 1,38 milhões por dólar.

Na semana passada, circularam notícias sobre a possível demissão de Farzin. Quando assumiu o cargo em 2022, o rial estava a ser negociado a cerca de 430 mil por dólar.

A rápida desvalorização está a agravar a pressão inflacionista, fazendo subir os preços dos alimentos e de outros bens de primeira necessidade e sobrecarregando ainda mais os orçamentos familiares, uma tendência que poderá agravar-se com a alteração do preço da gasolina introduzida nos últimos dias.

De acordo com o centro de estatísticas estatal, a taxa de inflação em dezembro subiu para 42,2% em relação ao mesmo período do ano passado e é 1,8% superior à de novembro. Os preços dos alimentos aumentaram 72% e os dos produtos médicos e de saúde aumentaram 50% em relação a dezembro do ano passado, segundo o centro de estatísticas. Muitos críticos veem a taxa como um sinal de aproximação da hiperinflação.

Os meios de comunicação social oficiais iranianos informaram que o governo planeia aumentar os impostos no novo ano iraniano, que começa a 21 de março, o que causou mais preocupação.

A moeda iraniana estava a ser negociada a 32 mil de rial por dólar na altura do acordo nuclear de 2015, que levantou as sanções internacionais em troca de controlos rigorosos do programa nuclear do país. Esse acordo foi desfeito depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter retirado unilateralmente o país em 2018.

Existe também incerteza quanto ao risco de um novo conflito após a guerra de 12 dias que envolveu o Irão e Israel em junho. Muitos iranianos temem também a possibilidade de um confronto mais alargado que possa envolver os Estados Unidos, aumentando a ansiedade do mercado.

Em setembro, as Nações Unidas voltaram a impor sanções ao Irão relacionadas com o nuclear, através do que os diplomatas descreveram como o mecanismo “snapback”. Estas medidas voltaram a congelar os ativos iranianos no estrangeiro, suspenderam as transações de armas com Teerão e impuseram sanções relacionadas com o programa de mísseis balísticos do Irão.

Médio Oriente

Mais Médio Oriente