Porque a mais recente vaga de protestos no Irão pode pôr à prova o regime iraniano como nunca

CNN , Análise de Brett H. McGurk
13 jan, 15:11
Iranianos bloqueiam rua durante protesto em Teerão, a 9 de janeiro. Khoshiran/Middle East Images/AFP/Getty Images

NOTA DO EDITOR | Brett McGurk é analista de assuntos globais da CNN e desempenhou cargos de alto nível na área da segurança nacional sob as presidências de George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden

Há anos, estive a negociar com responsáveis iranianos a libertação de reféns americanos detidos em Teerão. As conversações não estavam a correr bem.

A certa altura, o meu interlocutor iraniano perguntou por que razão o Irão deveria alguma vez fazer um acordo com um país que muda constantemente de governo — ou seja, uma democracia.

Respondi com outra pergunta: durante quanto tempo pode um país que faz reféns e reprime violentamente o seu próprio povo esperar manter-se no poder? A História mostra que sistemas assim acabam por colapsar, e o Irão não será diferente.

A resposta dele foi arrepiante. O regime, disse-me, beneficiava do apoio de uma massa crítica da população e — mais importante ainda, na sua perspetiva — tinha as armas e a disposição para as usar.

Ao longo da última década, o Irão provou repetidamente esse ponto. Protestos nacionais em 2017, 2018, novamente em 2019 e, de forma mais dramática, em 2022 foram esmagados pela força. Em cada ocasião, o regime sobreviveu recorrendo sempre ao mesmo guião sombrio: negar legitimidade aos manifestantes, culpar inimigos estrangeiros, cortar comunicações e mobilizar as forças de segurança.

Hoje, os iranianos voltam a sair à rua. E, mais uma vez, o regime parece estar a responder como sempre — com violência brutal. Mas poderá o desfecho ser diferente desta vez?

Mulheres, vida, liberdade

Em setembro de 2022, eclodiram protestos em todo o Irão depois de Mahsa Amini, uma jovem iraniana curda de 22 anos, ter sido detida pela polícia da moralidade por alegadamente violar o rigoroso código de vestuário do país ao mostrar o cabelo. Morreu sob custódia. A morte de Mahsa desencadeou uma revolta nacional não só contra a obrigatoriedade do uso do hijab, mas contra a própria República Islâmica.

Manifestantes nas ruas da capital iraniana, Teerão, a 21 de setembro de 2022. Os protestos, que se espalharam por outras cidades do Irão e do mundo, destacaram-se pela sua dimensão, intensidade e raro caráter feminista (AFP/Getty Images)

Os Estados Unidos e os seus aliados apoiaram publicamente os manifestantes. A administração Biden tomou medidas para alargar o acesso a serviços de internet, incluindo conetividade por satélite e redes privadas virtuais (VPN). O Congresso aprovou a Lei Mahsa Amini de Direitos Humanos e Responsabilização. Novas sanções visaram responsáveis e instituições iranianas envolvidas na repressão.

Nada disso foi suficiente. De acordo com uma investigação posterior das Nações Unidas, as forças de segurança iranianas mataram mais de 500 pessoas e detiveram cerca de 20.000 durante a repressão. Os protestos acabaram por ser sufocados após meses de violência, medo e exaustão.

Pobreza, corrupção e aumento do custo de vida

Os protestos atuais terão começado no Grande Bazar do Irão e nas suas imediações, historicamente o coração da classe mercantil iraniana. Isso é relevante. A contestação que levou à revolução de 1979 teve início precisamente ali. Os comerciantes iranianos não são, por natureza, revolucionários: preferem a estabilidade da ordem à incerteza da mudança rápida. Mas a má gestão económica do país, com uma inflação a rondar os 50%, juntamente com uma crise nos serviços básicos, fundiu queixas económicas com exigências políticas e morais antigas de mudança de regime.

Os protestos, que começaram em Teerão, espalharam-se rapidamente por todo o país, estando agora, segundo relatos, presentes nas 31 províncias do Irão.

O líder supremo, Ali Khamenei, respondeu ao 13.º dia de contestação com uma retórica já conhecida, classificando os manifestantes como mercenários de potências estrangeiras e inimigos do Estado. A linguagem usada indicou que uma repressão poderia seguir-se, tal como aconteceu em 2022. No último fim de semana, o país encontrava-se sob um apagão das comunicações e voltaram a surgir relatos de um número crescente de vítimas.

À superfície, o cenário parece apontar para uma repetição sombria: protestos, repressão, sobrevivência do sistema. Mas há três fatores que tornam este momento diferente. Podem não conduzir a um colapso imediato, mas irão certamente moldar os próximos dias e semanas no Irão.

Primeiro: a República Islâmica está mais fraca do que nunca

A liderança iraniana tomou uma decisão fatídica após 7 de outubro de 2023, ao optar por apoiar e depois integrar uma guerra regional contra Israel. Khamenei é o único líder mundial a elogiar abertamente os massacres do Hamas em Israel nesse dia e, pouco depois, autorizou os aliados do Irão em todo o Médio Oriente a apoiar as exigências maximalistas do Hamas e a atacar Israel — bem como alvos americanos.

Esta dimensão regional da crise não apaga os horrores em Gaza que se seguiram à guerra desencadeada pelo Hamas. Mas a situação atual não pode ser compreendida sem este contexto. O Irão escolheu juntar-se ao caos num momento de horror. Nada fez para apoiar negociações que pudessem pôr fim à crise — optou antes por a agravar. Os seus aliados atacaram americanos no Iraque, na Síria e na Jordânia, causando baixas. Oito meses depois do início da crise, Khamenei afirmou que Israel estava num “beco sem saída” e tinha “avaliado completamente mal as capacidades da frente da resistência”, liderada pelo Irão.

"Se queres guerra, nós somos o mestre da guerra", lê-se num cartaz na praça Enghelab, em plena Teerão (Abedin Taherkenareh/EPA)

Estava enganado. Quando Joe Biden deixou o cargo, os aliados do Irão tinham sido devastados. O país não dispunha de defesas aéreas eficazes. Os seus mísseis tinham sido neutralizados em dois ataques. E os reféns começaram finalmente a sair de Gaza. O presidente Trump procurou concluir um acordo nuclear com o Irão, mas quando essas negociações estagnaram e a guerra em Gaza recomeçou, em março, os Estados Unidos juntaram-se a Israel numa campanha militar que degradou significativamente a liderança iraniana e a sua capacidade de fazer a guerra.

Os ataques combinados dos EUA e de Israel em território iraniano destruíram a perceção de força e dissuasão do regime, deixando-o vulnerável a novos ataques. Este não era o cenário que o Irão pretendia quando Khamenei decidiu alinhar-se com o Hamas numa guerra mais ampla, em vez de pressionar o grupo a libertar reféns e pôr fim ao conflito. Foi uma escolha de Khamenei — e foi uma má escolha.

Segundo: o Irão enfrenta uma crise de sucessão

Khamenei tem 86 anos e está no seu quarto década no poder. Durante a guerra de junho, esteve notoriamente ausente da vida pública. Num sistema construído em torno do mito de um líder supremo omnipresente, com alegada autoridade religiosa para governar mais de 90 milhões de iranianos, essa ausência continua a ter impacto.

Nesta foto divulgada pelo site oficial do gabinete do líder supremo iraniano, Ali Khamenei ouve um orador numa reunião em Teerão, Irão, a 20 de outubro de 2025 (Gabinete do líder supremo iraniano via AP)

Com a perda de muitos dos principais aliados de Khamenei durante a guerra do verão passado, a coesão do aparelho de decisão do Irão está agora a ser posta à prova, à medida que rivalidades internas se intensificam na expectativa da saída de cena de Khamenei. Mesmo sem contestação popular, o Irão está à beira de uma mudança sistémica. Um dos desfechos possíveis é a evolução de uma teocracia islâmica governada por clérigos para um Estado nacionalista de linha dura, dominado pelas estruturas de segurança.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e as milícias Basij dentro do país têm vasta experiência na repressão violenta de exigências populares. Até ao momento, não há sinais de fraturas nessas estruturas ou de deserções. Mas a iminente crise de sucessão, combinada com um novo sentimento de vulnerabilidade e uma contestação popular crescente, cria condições únicas para uma mudança revolucionária, com alguns paralelos com a revolta que varreu o Irão há 47 anos e levou à criação da República Islâmica.

Terceiro: existe agora uma ameaça externa credível

Trump avisou publicamente que os Estados Unidos realizarão ataques militares se o Irão responder aos protestos com violência. No passado, os líderes iranianos poderiam ter descartado estas ameaças como bravatas, mas depois de os EUA terem bombardeado instalações nucleares iranianas no verão passado, já não o podem fazer. Muitos desses dirigentes foram mortos e os seus substitutos estarão a pensar na própria sobrevivência.

Existem alvos. Ataques israelitas em junho terão atingido a milícia Basij — uma das principais ferramentas de repressão interna. Os EUA poderão também optar por atingir responsáveis por massacres. No entanto, ao contrário dos ataques americanos de junho contra instalações nucleares iranianas, que tinham sido ensaiados durante muitos anos, estas operações seriam mais dinâmicas e incertas.

Para além da ação militar, Trump pode reforçar a aplicação de sanções contra o Irão, que atualmente exporta quase dois milhões de barris de petróleo por dia, apesar de uma política anunciada pelos EUA no ano passado para “reduzir as exportações de petróleo do Irão a zero”. Isso deveria ser feito independentemente do resto. Pode ainda trabalhar com grandes empresas tecnológicas americanas para apoiar medidas que permitam aos iranianos contornar o apagão das comunicações imposto pelo regime, ao mesmo tempo que incentiva aliados a aderirem a sanções contra estruturas repressivas como o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.

Três forças em convergência

Neste momento, três forças estão a convergir no Irão e em Washington:

1. Os manifestantes. A coragem dos iranianos que arriscam a vida para derrubar um sistema que os oprime e exporta terrorismo é inspiradora e deve ser apoiada de todas as formas possíveis. Apesar dos primeiros relatos de uma repressão brutal, os protestos não cessaram e deverão continuar, ainda que em menor número.

2. O Estado repressivo. O aparelho coercivo da República Islâmica está a preparar-se com o único guião que conhece — suprimir o seu próprio povo com violência em massa, atiradores nos telhados, milícias Basij nas ruas com munições reais, detenções em massa e execuções.

3. A ameaça dos EUA. A CNN noticiou que Trump será informado sobre opções militares no início desta semana. Antes, escreveu que “o Irão está a olhar para a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!”. Esclareceu que isso significa “atingi-los muito, muito duramente” caso o Irão comece a “matar pessoas como fez no passado”.

Neste contexto, com os protestos a alastrarem e o regime iraniano a agir para os reprimir violentamente, o momento de decisão de Trump — se e como agir — deverá chegar em breve. Qualquer que seja a escolha, o objetivo deverá ser maximizar o apoio ao povo iraniano e ao seu desejo de uma mudança sistémica.

Uma saída diplomática?

Na noite de domingo, Trump afirmou que o Irão entrou em contacto para conversar. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã esteve em Teerão no sábado e é conhecido por transmitir mensagens entre Washington e Teerão. Historicamente, porém, o Irão só aceitou dialogar com os EUA sobre dois temas: reféns ou o seu programa nuclear. Recusou discutir qualquer outro assunto — como o programa de mísseis, o apoio ao terrorismo ou o fornecimento de drones à Rússia para utilização na Ucrânia.

A questão imediata é o assassínio em massa do seu próprio povo. A menos que o Irão esteja disposto a discutir isso — o que é improvável — há pouco para negociar. Qualquer aceno para conversações sobre um programa nuclear agora enterrado no subsolo seria pouco sério e uma tentativa de ganhar tempo e aliviar a pressão crescente. Os Estados Unidos não devem cair nessa armadilha.

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