Foi quebrada uma barreira de medo no Irão. O regime vive uma ameaça sem precedentes

CNN , Jomana Karadsheh e Tamara Qiblawi*
6 out, 16:00
Protestos contra a morte de Mahsa Amini (Photo by BULENT KILIC/AFP via Getty Images)

Uma mulher vestida de preto levanta um retrato emoldurado do seu filho, Siavash Mahmoudi, enquanto percorre a calçada da capital do Irão, Teerão. “Não tenho medo de ninguém. Disseram-me para ficar calada. Não vou ficar”, grita a mulher vista num vídeo viral das redes sociais, a sua voz cheia de emoção.

“Vou levar a fotografia do meu filho para todo o lado. Eles mataram-no.”

A mãe de Mahmoudi está entre os muitos iranianos que afirmam que o regime os tentou silenciar enquanto choravam os seus entes queridos, mortos em contínuas manifestações a nível nacional.

Mas os manifestantes do Irão e os seus apoiantes são desafiadores. Durante semanas, um movimento de protesto a nível nacional tem vindo a ganhar um impulso implacável e parece ter atenuado as táticas de intimidação do governo com décadas de existência. Os cânticos contra a liderança eclesiástica ecoam por toda a cidade. Vídeos de alunas a abanar os seus lenços de cabeça enquanto cantam canções de protesto nas salas de aula tornaram-se virais, assim como imagens de manifestantes a lutar contra membros do grupo paramilitar Basij.

Estas são cenas anteriormente consideradas impensáveis no Irão, onde o líder supremo, Ayatollah Khamenei, governa com punho de ferro. Mas os especialistas dizem que estes protestos transcendem as muitas divisões sociais e étnicas do Irão, quebrando uma barreira de medo com décadas e representando uma ameaça sem precedentes para o regime.

Em todo o Irão, os manifestantes parecem estar empenhados em expor as fraquezas de uma instituição eclesiástica amplamente acusada de corrupção e que pôs fim à dissidência com detenções arbitrárias e até execuções em massa.

Teerão tem sido inundada de manifestações desde a morte de Mahsa Amini (também conhecida como Zhina), em meados de setembro, a mulher curdo-iraniana de 22 anos que morreu depois de ter sido detida pela polícia moral do país, pela forma como estava vestida.

Os protestos surgem esporadicamente em várias partes da capital, ao longo de cada dia. À noite, um cântico que se tornou um dos principais marcos dos protestos, “morte ao ditador”, soa dos telhados dos edifícios. É uma referência a Khamenei, que em tempos foi considerado irrepreensível, devido ao seu elevado estatuto eclesiástico.

Manifestantes reúnem-se à volta de uma barricada em chamas durante um protesto por Mahsa Amini, que morreu após ter sido detida pela polícia moral da República Islâmica, em Teerão, a 19 de setembro de 2022. (Foto AFP via Getty Images)

“Isto não é o fim”

As manifestações antirregime também penetraram as bases de poder da República Islâmica, incluindo as cidades xiitas sagradas de Mashhad e Qom. As minorias étnicas, nomeadamente os curdos no norte e noroeste do país e o povo Baloch no sudeste, também fizeram protestos, enfrentando o que parecem ser algumas das repressões mais brutais, sob as quais muitos, alegadamente, morreram.

As escolas secundárias e universidades de todo o país são focos críticos e as mulheres e raparigas têm tirado os seus lenços de cabeça obrigatórios, conhecidos como hijabs.

“Estes terroristas pensam que a nossa geração é a geração anterior. Não é, posso assegurar-vos”, disse à CNN um manifestante da prestigiosa Universidade de Tecnologia de Sharif, em Teerão, referindo-se à polícia iraniana, que tinha reprimido violentamente os manifestantes no campus e detido dezenas de jovens.

Um vídeo das redes sociais mostrou carros a encher as ruas, pouco tempo depois de a notícia se ter espalhado, no domingo, sobre a repressão contra os estudantes, buzinando em solidariedade com os manifestantes, à medida que o protesto se desenrolava na universidade, conhecida por educar os melhores e mais brilhantes estudantes iranianos.

“Se a poeira assentar e pararmos de protestar, eles vão matar ainda mais. Vão deter ainda mais pessoas e vão entregar-nos à Coreia do Norte”, disse o manifestante emocionado. “Isto não é o fim. Isso vos prometo.”

A CNN não foi capaz de verificar de forma independente o número de mortos e feridos, mas os meios de comunicação estatais dizem que 40 pessoas morreram desde o início das manifestações, em meados de setembro. A Amnistia Internacional fala em, pelo menos, 52 mortos. Acredita-se que mais de 1.000 pessoas tenham sido detidas, incluindo jornalistas e artistas.

Manifestantes entoam cânticos durante um protesto sobre a morte de Mahsa Amini, no centro de Teerão, a 21 de setembro de 2022. (Foto AFP via Getty Images)

Na semana passada, a Amnistia Internacional afirmou ter obtido um documento que parecia instruir os comandantes das forças armadas em todas as províncias a “enfrentar impiedosamente” os manifestantes, destacando a polícia de choque, bem como alguns membros da elite militar da Guarda Revolucionária, a força paramilitar Basij e agentes de segurança à paisana.

A CNN não viu os documentos obtidos pela Amnistia Internacional e não consegue verificar os relatórios. A CNN contactou a Amnistia Internacional sobre a forma como recebeu os documentos divulgados, mas não recebeu resposta.

Também contactou oficiais do governo iraniano para um comentário sobre o relatório da Amnistia Internacional, mas não obteve resposta.

Além disso, a Amnistia Internacional afirmou ter visto provas de agressão sexual contra mulheres manifestantes, mas a CNN não o conseguiu verificar. Um vídeo das redes sociais também mostrou as forças de segurança iranianas a arrastar pelos cabelos mulheres sem lenços pelas ruas.

Uma ameaça existencial

A ameaça colocada por estes protestos, dizem os analistas, é existencial para o regime e é um dos maiores desafios que a República Islâmica enfrenta em anos.

“Estas são, essencialmente, pessoas muito, muito jovens, uma geração mais jovem, que parece ter perdido completamente a fé de que esta República Islâmica pode ser reformada”, disse Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute, sediado em Washington, DC.

“Estão a separar-se da geração anterior, que pretendia reformar o sistema a partir do interior”, acrescentou Parsi. “Esta nova geração parece não ter qualquer fé nisso.”

Khamenei, de 83 anos, que comentou os protestos pela primeira vez na segunda-feira, culpou, sem provas, os Estados Unidos e Israel por terem alimentado os protestos. Também deixou claro que o regime iria bloquear o desejo de mudança dos manifestantes.

Uma manifestante segura um retrato de Mahsa Amini, durante uma manifestação de apoio, à frente da embaixada iraniana, em Bruxelas, a 23 de setembro de 2022. (Foto Kenzo Tribouillard/AFP/Getty Images)

“Digo claramente que estes motins e insegurança foram engendrados pelos EUA e pelo falso regime sionista ocupante (Israel), assim como pelos seus agentes pagos, com a ajuda de alguns traidores iranianos no estrangeiro”, disse Khamenei no seu discurso.

Os protestos atuais podem acabar por ser reprimidos ou, simplesmente, perder o ímpeto, mas os analistas dizem que o Irão pode esperar outro ciclo de protestos a nível nacional nos próximos meses. As últimas manifestações seguem protestos semelhantes, mas menos generalizados, contra o governo, em 2019, 2017 e 2009.

“Os protestos transcendem as fronteiras sociais sectárias, reunindo uma camada muito mais ampla da sociedade iraniana do que a que vemos há anos”, disse Ali Vaez, diretor do Projeto Irão do Grupo Internacional de Crise. “Mas estes sofrem das mesmas deficiências que os movimentos anteriores no Irão também sofreram. Em primeiro lugar, a falta de liderança."

“É muito difícil ser capaz de manter e sustentar um movimento que, a longo prazo, fará com que o regime se ajoelhe, sem coordenação e liderança”, disse Vaez.

Ainda assim, os manifestantes parecem mais corajosos do que nunca, pressentindo uma janela de oportunidade que se pode fechar rapidamente, à medida que o Irão se parece aproximar do desenvolvimento de uma arma nuclear, o que consolidaria o poder do regime e aprofundaria o seu isolamento.

Este é o cenário que os iranianos antirregime estão desesperadamente a tentar evitar, disse Vaez.

“A única coisa pior do que um regime que mata e reprime o seu próprio povo é um regime com uma arma nuclear que mata e reprime o seu próprio povo”, sublinhou.

*Hamdi Alkhshali, Artemis Moshtaghian, Hannah Ritchie, Mostafa Salem, Teele Rebane, Adam Pourahmadi e Celine Alkhaldi da CNN contribuíram para este artigo.

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