Audiência de 10 minutos virou em oito anos de prisão. Advogada de Nobel da Paz iraniana acusa governo do Irão de ter "só um objetivo": "Calar os dissidentes”
Depois de uma greve de fome de protesto contra o isolamento imposto pelas autoridades da República Islâmica, Narges Mohammadi recebeu uma nova pena de prisão de seis anos e meio. Esta semana, foi transferida para uma prisão no norte do país, onde fica mais distante da família e dos ativistas que a rodeiam.
Em dezembro, Mohammadi, Prémio Nobel da Paz em 2023, foi detida mais uma vez, por lançar palavras de ordem contra o governo do Irão durante um funeral de um advogado, cuja morte é atribuída por várias organizações de Direitos Humanos às autoridades iranianas.
Chirine Ardakni: O Irão tem uma justiça travestida
A CNN Portugal conversou em exclusivo com Chirine Ardakni, advogada e ativista franco-iraniana, que representa a Prémio Nobel da Paz 2023 no estrangeiro.
"Foi nesse contexto que a minha cliente recebeu a sentença este domingo ( dia oito de fevereiro )", explicou Ardakni. "Soubemo-lo, através de uma chamada muito rápida que ela foi autorizada a fazer."
"Depois de ter feito uma greve de fome durante vários dias, exigindo contactar o seu advogado iraniano, conseguiu informá-lo de que houve uma audiência sem a presença dela," continuou.
A advogada no estrangeiro da Prémio Nobel da Paz de 2023 denuncia assim o que define como uma falsa justiça, onde as pessoas são condenadas sem estar sequer presentes em tribunais que não garantem o direito a um processo junto.
"A audiência durou menos de 10 minutos. Ela recebeu uma pena de sete anos e meio de prisão adicional. É importante precisar que lhe falta cumprir uma pena de uns 12 anos de prisão e que ela já cumpriu 10," explicou Chirine Ardakni à CNN Portugal.
Narges Mohammadi, de 53 anos, já foi presa pelo menos 13 vezes por criticar o governo da República Islâmica e por denunciar o tratamento dos cidadãos, das mulheres em particular e dos ativistas, incluindo advogados e estudantes.
Durante o tempo que cumpriu penas de prisão, escreveu um livro com os relatos de outras mulheres prisioneiras, A Tortura Branca.
Um ano depois, em 2023, a luta contra a misoginia do governo teocrático dos Aiatolás valhe-lhe o Prémio Nobel da Paz, para desagrado do regime. A luta dela projeta-se mais do que nunca a nível internacional. O Governo iraniano confere-lhe uma capacidade de mobilização social que, até então, não parecia tão forte.
Chirine Ardakni disse à CNN Portugal que há uma violência furiosa da parte do regime iraniano face aos dissidentes, com mortes e torturas que afetam milhares de cidadãos.
"E esta pena foi decidida com um só objetivo: o de calar os dissidentes," acrescentou.
"Vida, Mulher, Liberdade"
Mohammadi também foi detida por denunciar o assassinato, às mãos da polícia, da jovem iraniana de origem curta Mahsa Amini, depois de ter sido presa pela polícia da moral islâmica - que existe também noutros países da região, dia 16 de setembro de 2022.
Amini foi interpelada por agentes ao não usar corretamente o véu imposto pelo regime às mulheres iranianas desde a Revolução Islâmica de 1979.
Os agentes negaram qualquer responsabilidade, mas testemunhas dizem que terá morrido por causa da violência dos golpes que recebeu. O Hospital Kasra, em Teerão, confirmou que a morte de Amini se deveu a uma hemorragia cerebral.
A morte da jovem iraniana, de 22 anos, deu origem a mais uma série de protestos, que recuperaram o lema político de origem curda "Mulher, Vida Liberdade," uma forma de recordar que, desta vez, o regime dos Aiatolás tinha ido longe demais.
A organização de Direitos Humanos com sede em Oslo Iran Human Rights (IHRNGO) diz que morreram 551 pessoas nos protestos, entre 2022 e 2023, incluindo várias mulheres e 68 menores de idade.
Os protestos mais recentes, com origem nas crescentes dificuldades económicas em que vivem os iranianos, também por causa das sanções do Ocidente, foram ainda mais violentos.