O novo líder supremo do Irão vai fazer "o mundo sentir falta do seu pai"

10 mar, 07:00
Retrato Mojtaba Khamenei, novo líder supremo do Irão (Vahid Salemi/AP)

Começou a era Khamenei 2.0, após a nomeação de Mojtaba Khamenei para suceder ao pai à frente dos destinos do país. Os riscos são imensos e, para que o regime de linha ainda mais dura avance, primeiro será preciso que ele sobreviva aos ataques que ainda estão por vir

Dada a idade avançada do aiatola Khamenei, a questão da sucessão do líder supremo do Irão era alvo de intensos debates há já vários meses, senão anos – e, ao longo deles, o nome de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, foi sempre apontado como um dos mais possíveis sucessores. A questão é que nem o pai queria que assim fosse – enquanto representante máximo da Revolução Islâmica de 1979, que depôs meio século de monarquia, Khamenei pai via os perigos de uma sucessão dinástica no coração do regime teocrático. 

Em tempos de guerra, contudo, as prioridades e urgências são outras. E depois de uma semana de vácuo na liderança, na sequência da morte de Ali Khamenei aos 86 anos num ataque aéreo dos EUA e de Israel a Teerão, os 88 clérigos responsáveis por eleger o seu sucessor deram por finalizado o processo de escolha no arranque desta semana. Aos 56 anos, é ele, Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irão.

Como o pai, Mojtaba nasceu na cidade de Meshed, dez anos depois da Revolução Islâmica que depôs a dinastia Pahlavi e que levaria a família Khamenei a mudar-se para Teerão. Ao atingir a maioridade, Mojtaba chegou a participar na guerra entre o Irão e o Iraque, integrando uma unidade do poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC); muitos dos seus elementos acabariam por vir a ocupar importantes cargos nos serviços de segurança do regime ao longo das décadas seguintes.

Foi também ao longo dessas décadas que a influência de Mojtaba Khamenei – que, nos últimos anos, integrou o ‘Beit’, o tribunal de 4 mil homens responsável por supervisionar o domínio do Líder Supremo sobre o Estado – , uma mistura de conselheiro, intermediário político e guardião das redes de influência do regime, aumentou de forma progressiva. Em telegramas diplomáticos divulgados pela WikiLeaks há 16 anos, o agora chefe máximo iraniano já era descrito como "o principal porteiro" do líder supremo e “o poder por trás das togas” do regime, com Washington a encarar o segundo filho mais velho de Ali Khamenei como o mais poderoso decisor político entre os funcionários “informais” do regime teocrático. 

Mais recentemente, em 2019, foi alvo de sanções internacionais impostas pela primeira administração Trump, sob acusações de promover as políticas repressivas do regime e apoiar as ambições regionais do Irão. Investigações mais recentes, como uma publicada pela Bloomberg em janeiro, referem o "império" de investimentos e propriedades imobiliárias criado por Mojtaba, que se estende de Londres a Frankfurt e ao Dubai.

Com a sua chegada ao poder abre-se um novo capítulo na política iraniana que os críticos do regime rejeitam – e que os seus apoiantes dizem ser mais necessário do que nunca, dado que se vivem tempos extraordinários de guerra.

“O sentimento geral é o de que, quem quer que seja eleito, vamos segui-lo agora, não por ser esta ou aquela pessoa específica mas porque, por enquanto, vamos confiar no órgão responsável pela eleição”, dizia há alguns dias à CNN Portugal Raza Mehdi, um paquistanês de 40 anos que vive há mais de 10 na cidade iraniana de Qom, onde é estudioso do Islão. “Posteriormente, quando a guerra acabar, quando houver paz, as pessoas talvez comecem a opor-se [a Mojtaba], isso é uma possibilidade – mas, de momento, o sentimento é de que ele será seguido.”

“Acreditamos que pai e filho não são diferentes um do outro”, contrapõe Z., uma iraniana na casa dos 30 anos que fugiu de Teerão após os primeiros ataques dos EUA e de Israel, com quem a CNN Portugal tem mantido contacto de forma intermitente na última semana. “Acho que ninguém vai reconhecer a legitimidade do novo líder, exceto um pequeno número de apoiantes.”

Ali Khamenei (à direita) era o líder supremo do Irão desde 1989, após ter sucedido a Ruhollah Khomeini (à esquerda) no rescaldo da sua morte foto Dar Yasin/AP

Poucas credenciais não demovem apoiantes – para já

Há uma leitura óbvia e imediata a fazer desta escolha: apesar de todos os ataques e ameaças, o regime do Irão permanece desafiante – e, em contexto de guerra, parece ser a Guarda Revolucionária quem está a ditar as jogadas todas.

Como indicava esta segunda-feira a revista Economist, “ao contrário do seu pai, que tinha a palavra final, Mojtaba provavelmente será visto como um testa-de-ferro – a sua sucessão demonstra que o controlo está nas mãos do IRGC, os defensores da República Islâmica”.

Isto só promete “frustrar os reformistas, que talvez esperassem ter um regime próprio”, continua a revista, e “muitos clérigos também ficarão desapontados” porque “a sucessão dinástica no que pretende ser uma teocracia será profundamente impopular entre aqueles que ainda acreditam nos ideais de uma revolução que derrubou uma monarquia hereditária”.

Talvez isso explique porque é que o conselho de 88 clérigos responsável pela eleição do líder supremo levou mais de uma semana a tomar uma decisão. A alimentar as possíveis disputas internas podem estar também as dúvidas sobre as qualificações religiosas de Mojtaba Khamenei, que alegadamente possui apenas o título de ‘hojatoleslam’, nível intermédio no clero xiita, inferior ao estatuto de ‘aiatola’ tradicionalmente associado ao cargo de líder supremo; entre um nível e outro existe ainda o de ‘mujtahid’, fonte reconhecida de autoridade religiosa – e para o alcançar é preciso produzir e defender uma espécie de tese religiosa que Mojtaba nunca chegou a publicar.

Há ainda questões sobre se o homem que acaba de ser proclamado líder supremo do Irão está, de facto, vivo. Mojtaba não é visto desde 28 de fevereiro, dia dos primeiros ataques aéreos ao Irão – que atingiram o coração do regime, matando o seu pai e a sua mãe, bem como a sua mulher e um dos seus filhos, netos, genros e noras, juntamente com vários líderes políticos –, o que tem alimentado alguma especulação sobre a sua morte. 

Mas é possível que, em vez disso, um homem já de si protegido dos olhares públicos, de quem se conhecem muito poucas imagens e que é descrito por quem o conhece como modesto e tímido, continue escondido num abrigo subterrâneo, a fim de se proteger de um possível assassínio – bastante possível, considerando as ameaças já proferidas por Israel e também pelos EUA de Trump, que continua a insistir que só ele pode escolher o próximo líder do Irão.

Se Mojtaba sobreviver a eventuais tentativas de assassínio é possível que nada disto importe para a generalidade dos apoiantes do regime teocrático – incluindo as dezenas de milhares de tropas, forças de segurança e membros do IRGC responsáveis por proteger o legado da Revolução Islâmica. Até porque, no imediato, segundo observadores citados na imprensa internacional, o que esta guerra já conseguiu foi aumentar a coesão e união do regime, tal como já tinha acontecido depois da chamada Guerra dos 12 Dias, em junho do ano passado.

Há sinais de pouquíssimas deserções no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a escolha de Mojtaba Khamenei é vista por vários especialistas como um reforçar do poderio dos guardas religiosos sobre os outros pilares do poder no Irão foto Underwood Archives/Getty Images

Um regime mais ousado em busca de vingança

“Não vejo nenhuma possibilidade de uma mudança de regime”, diz o paquistanês Raza Mehdi à CNN Portugal, a partir de Karachi, para onde viajara dias antes dos primeiros ataques a Teerão. “Quando há paz, as pessoas criticam o governo, mas quando ocorre um ataque como este no Irão, como já aconteceu no passado, o povo iraniano une-se – então não, não vejo nenhuma possibilidade de mudança de regime.” 

Medhi acrescenta que até membros da geração mais jovem, tendencialmente mais crítica do regime, estão alinhados com os mais velhos no apoio à teocracia. “Um amigo iraniano disse-me que a geração Z, que dantes não conseguia entender porque é que os pais e os avós lutavam contra os Estados Unidos e entoavam slogans anti-América, agora juntou-se aos mais velhos porque não há justificação para estes ataques nem para o assassínio de Khamenei [pai].”

Ao final de 10 dias de ataques há poucos sinais de deserções, indicam observadores, e parece haver uma renovada coesão e determinação do regime, com os generais do IRGC a conduzirem a guerra sem supervisão civil e os militares a suplantarem os clérigos que, sob a Constituição Islâmica, devem governar o Irão.

“A morte de Khamenei libertou-os”, diz um empresário iraniano no exílio à Economist. “Eles [clérigos à frente do regime] estão mais militantes, mais nacionalistas e mais ousados.” A afirmação é corroborada por um relatório de inteligência sobre a região do Golfo, publicado na passada quinta-feira, ao quinto dia de ataques, no qual era observado que, “ao contrário dos cálculos iniciais dos serviços de informações, grandes segmentos da liderança militar iraniana permanecem operacionais”. 

Um relatório compilado pelas secretas americanas pouco antes da guerra já tinha concluído que um ataque ao Irão dificilmente derrubaria o regime – apesar de Trump ter invocado esse argumento como um dos seus alegados objetivos, antes de mudar de ideias e dizer que não se importa se o Irão passa ou não a ser uma democracia ou se continua a ter um líder religioso, desde que "trate bem os EUA e Israel".

Com os ataques e bombardeamentos a várias partes do Irão, há outra hipótese que parece ter ficado enterrada nos escombros. Antes desta guerra havia entre os serviços de informação ocidentais a suspeita de que, se Mojtaba Khamenei chegasse ao poder, podia vir a tornar-se a versão iraniana de Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, o qual, assim que chegou ao poder, se livrou do controlo clerical e suavizou o confronto com Israel, aproximando-se de Washington. 

Mas face ao assassínio de quase todos os membros da família Khamenei, é muito provável que essa hipótese se tenha extinguido para sempre. Até porque já há fontes próximas a garantirem que Mojtaba irá seguir uma “linha dura”, tão ou mais dura que a do pai, mantendo a inimizade para com EUA e Israel, a resistência a qualquer tipo de reformas internas e a consolidação do controlo do IRGC.

"O mundo vai sentir falta da era do seu pai, Mojtaba não terá alternativa a não ser mostrar mão de ferro – mesmo que a guerra termine, haverá severa repressão interna", dizia à Reuters um funcionário regional próximo de Teerão. "Mojtaba é ainda pior e mais linha dura do que o pai", adianta à mesma agência Alan Eyre, ex-diplomata norte-americano especializado em questões do Irão. "Terá muita vingança a executar."

Antes disso, contudo, primeiro terá de sobreviver à guerra.

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