"Desencadear a ira de Trump, por estas razões, reforça a Espanha como um Estado soberano"

5 mar, 22:00
Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol (EPA)

Pedro Sánchez tem sido o líder europeu com a posição mais firme em relação a muitas decisões tomadas por Donald Trump. Sem medo das palavras, não se coíbe em explicar a posição do país que lidera. E esta coerência pode dar muito a ganhar a Espanha e ao próprio

Espanha não permitiu a utilização das suas bases militares para qualquer ação militar dos Estados Unidos no Irão. Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, disse “não à quebra do Direito Internacional”, “não ao assumir que o mundo pode resolver os seus problemas à base de conflitos de bombas” e, ainda, não a repetir os erros do passado. Em definitivo, a posição do governo de Espanha resume-se em quatro palavras: “no a la guerra”. Para José Alberto Azeredo Lopes, professor de Direito Internacional e comentador da CNN Portugal, estas palavras tornam a Espanha “num país mais soberano”, para Emilio Rubio, diretor do Centro de Estudos de Espanhol do Porto, “esta posição pode ter eco em muitas pessoas” e, até, proveitos para o próprio Pedro Sánchez.

Não é a primeira vez que Pedro Sánchez colide com Donald Trump e não deverá ser a última. É, provavelmente, o líder europeu com menos medo das palavras. “Está a expor com clareza as regras básicas da lei internacional”, em que estas intervenções - como o ataque ao Irão - apenas são permitidas em “situações muito graves”, observa Azeredo Lopes.

E, para o professor de Direito Internacional, não há dúvidas de que “esta posição mostra que Espanha é um Estado mais soberano e este é um valor importante”. “Na verdade, desencadear a ira de Trump, por estas razões, reforça a Espanha como um Estado soberano”, reitera. Apesar de não fazer parte do grupo das grandes potências europeias - Reino Unido, França e Alemanha - é quem se mostra mais firme nas críticas ao lado de lá do Atlântico.

O comentador da CNN Portugal lembra que "há 10/15 anos muitos países europeus ter-se-iam mostrado contra esta intervenção". E o exemplo do Iraque dado pelo governante espanhol parece-lhe válido: "Não se pode esquecer o que aconteceu no Iraque" e que "a Europa pagou o preço” pelo caminho escolhido.

Pedro Sánchez, sublinha, "pôs as coisas nos seus lugares, apesar de Macron também se ter mostrado reservado". Mais do que ausência de uma condenação generalizada, Azeredo Lopes estranha "o silêncio" na Europa. E, na sua opinião, “quanto mais uma pessoa cala, mais acaba por consentir” e menos peso tem. Todavia, a publicação de António Costa na rede social X a dar apoio a Sánchez, após Trump ameaçar cortar relações comerciais com Espanha, foi muito importante.

"Acabei de falar ao telefone com o presidente Pedro Sánchez para expressar a total solidariedade da União Europeia com Espanha. A UE garantirá sempre a plena proteção dos interesses dos seus Estados-membros. Reafirmamos o nosso firme compromisso com os princípios do direito internacional e com a ordem internacional baseada em regras em todo o mundo", escreveu o presidente do Conselho Europeu.

"O nosso modo de vida deve muito a uma politica constante e uniforme, com base na defesa do direito internacional. É um erro muito grave se acharmos que não dependemos dele", alerta José Alberto Azeredo Lopes. "Não estamos perante uma questão de idealismo, é uma questão de defesa do direito internacional que é algo que nos distingue - à Europa - de outros países considerados grandes potências. O conceito da democracia, da defesa dos direitos humanos e do não recurso à violência."

Sánchez "tem sido bastante coerente"

Emilio Rubio lembra também que Pedro Sánchez “é o líder europeu situado mais à esquerda”, um facto que talvez não seja indiferente às posições do país. Conhecedor do política interna e externa do país, o diretor do Centro de Estudos de Espanhol do Porto admite que "uma das possíveis leituras" deste posicionamento, "apesar de ser ainda vista como especulação, é estar a preparar o currículo para um posto internacional”. Facto que não diminui o impacto e o significado das suas palavras.

Pedro Sánchez “tem sido bastante coerente nesta postura, nos últimos anos”, observa. Além disso, para Emilio Rubio, "é de saudar a existência desta postura que defende a legalidade internacional". "Vivemos uma situação em que a ONU conta cada vez menos, as leis internacionais contam cada vez menos e os bullies contam mais”, lamenta, admitindo, por isso, que esta posição do primeiro-ministro espanhol pode ter eco em muitas pessoas.

E esse eco faz-se dentro e fora das fronteiras. Para o diretor espanhol, "as situações internacional e interna estão entrelaçadas neste momento". "Esta posição pode também ser vantajosa para a sua imagem interna e para as próximas eleições que, eventualmente, poderão ser antecipadas", acrescenta, recordando que "Espanha continua sem orçamentos aprovados".

Mesmo com todas as questões internas o primeiro-ministro espanhol tem sido “muito hábil”, quase parece "um gato com sete vidas", compara Emilio Rubio.

E porque a história teima em repetir-se, não estranha que Pedro Sánchez tenha recordado o que aconteceu no Iraque há mais de 20 anos. "Temos de lembrar que na Cimeira dos Açores estava presente Durão Barroso e José María Aznar. Sendo que este permanece politicamente ativo em Espanha, próximo do PP e do Vox", refere. As palavras de Sánchez também chegaram a Durão Barroso, que já veio "criticar" a sua postura. Mas para Emilio Rubio é impossível esquecer que, "na altura, a situação foi pouco clara devido à existência de armas de destruição maciça", que acabou por "nunca ficou provada".

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