"Trump tem sob o seu comando o exército mais bem preparado do planeta" mas não sabe usá-lo com "a frieza de Dwight D. Eisenhower"

31 mar, 07:00
Trump

Num mundo em descarbonização, o plano de Trump para controlar o petróleo do Irão, depois de uma intervenção com o mesmo intuito na Venezuela, faz lembrar uma canção de Wilson Simonal que versa assim: "Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa". Isso não significa que não haja ganhos de curto prazo para os EUA, cuja administração atual vê no petróleo não só uma ferramenta de influência económica como uma arma de coerção a ser usada contra rivais e aliados. No longo prazo, contudo, quem ganha é a China

Parece cada vez mais claro que a guerra iniciada há um mês contra o Irão é apenas mais uma numa série de jogadas arriscadas de Donald Trump para garantir que os EUA são reis e senhores do petróleo mundial. Na véspera dos primeiros ataques ao Irão, o presidente norte-americano subiu a um palanque na cidade costeira de Corpus Christi, no Texas, para se congratular com o facto de estar a “consolidar o estatuto dos EUA enquanto a maior superpotência energética do planeta”. Um mês depois, este domingo, assumiu em entrevista ao Financial Times (FT) que o seu maior desejo é tomar o petróleo do Irão. 

“Para ser sincero, o que eu mais quero é ficar com o petróleo do Irão, mas algumas pessoas estúpidas nos EUA dizem: ‘Porque é que está a fazer isso?’. Mas são pessoas estúpidas”, afirmou, comparando o objetivo de controlar os fluxos de petróleo iraniano “por tempo indefinido” aos da intervenção militar na Venezuela, no arranque deste ano.

No caso do Irão, o objetivo é praticamente inalcançável sem o controlo da ilha de Kharg, o principal centro de exportação de petróleo e gás natural do país, e do Estreito de Ormuz. Questionado pelo FT sobre como planeia concretizar o plano, Trump respondeu: “Talvez tomemos a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções. Isso significa que teríamos de ficar lá [em Kharg] por algum tempo. Não acho que eles tenham qualquer defesa. Podíamos tomar [a ilha] com muita facilidade”.

Para os especialistas, contudo, isso seria uma missão suicida. “Se olhar para Kharg, vê que a ilha tem 20 quilómetros quadrados - e os EUA pretendem fazer o quê, tomar a ilha? E porquê? Porque recebe hidrocarbonetos que o Irão produz?", questiona António Costa Silva, engenheiro de minas e petróleos e ex-ministro da Economia. “A ilha é muito pequena. Se os EUA a invadirem, as forças militares vão estar concentradíssimas, serão um alvo brutal de tudo o que vem da costa do Irão, a 26 quilómetros.”

carregue aqui para ver o mapa em tamanho maior

Os problemas começam, mas estão longe de acabar aí, porque não é só a costa do Irão que está a uma curta distância de Kharg – como refere Costa Silva, “a ilha fica muito perto das maiores instalações petrolíferas dos três grandes países do Golfo Pérsico”, Iraque, Kuwait e Arábia Saudita. E se essas instalações ficarem parcial ou totalmente destruídas em ataques retaliatórios do Irão após a tomada de Kharg, incluindo a joia da coroa saudita, que produz oito milhões de barris de petróleo por dia, “vamos ter um problema muito sério”.

“Não sei que tipo de operação é que os EUA estão a planear e é evidente que Trump tem sob o seu comando o exército mais bem preparado do planeta, mas é preciso ver os riscos – e sabemos que ele não liga aos riscos, como ficou claro quando decidiu avançar com esta intervenção.”

Assim o mostra um artigo do Wall Street Journal sobre como é que tudo se desenrolou nos dias que precederam os primeiros ataques ao Irão, com fontes a indicarem que o general Dan Caine, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, avisou Trump dos riscos de iniciar uma guerra contra o Irão – a começar pelo encerramento do Estreito de Ormuz, ao que Trump respondeu que tal não iria acontecer “porque o regime vai colapsar antes disso”. Um mês depois, os resultados estão à vista.

“Este é um presidente que age e toma decisões com base em impulsos egocêntricos e narcisistas”, sublinha Costa Silva, que faz o contraponto com Dwight D. Eisenhower, 34.º presidente dos EUA – “o paradigma do líder com sensatez, frieza e sentido analítico: estava rodeado de falcões que queriam que ele usasse armas nucleares contra a China no Estreito de Taiwan e ele resistiu; que queriam que ele usasse armas nucleares para acabar com a guerra da Coreia e ele resistiu; este não, Trump tem impulsos descontrolados e não me parece que isto vá resultar”.

Dwight D. Eisenhower foi presidente dos EUA entre 1953 e 1961; durante o seu mandato, resistiu à pressão dos falcões para usar armas nucleares na China e na Coreia. foto DR

Uma "luta titânica"

Supondo que Trump consegue tomar Kharg, supondo que, por algum motivo, o Irão não retalia, supondo que os EUA passavam a controlar o fluxo de petróleo e gás natural produzido pelos iranianos, estaríamos diante de uma mudança paradigmática no mercado global energético? Sendo os Estados Unidos o maior produtor de petróleo e gás do mundo, deitar as mãos às primeiras e terceiras maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, respetivamente Venezuela e Irão, parece uma jogada de mestre. Mas nem tudo é o que parece, a começar pela viabilidade dessas reservas. 

“A Venezuela não produz nem sequer um milhão de barris e a indicação que temos é que é muito caro abrir produção nova”, sublinha Ricardo Marques, analista de Informação de Mercados Financeiros. “No seu auge, no início dos anos 2000, a Venezuela produzia dois milhões de barris por dia, agora estava a produzir menos de um milhão. O que a Venezuela tem, sim, é muitas reservas prováveis, que com investimento poderá aumentar a produção de forma significativa, mas esse investimento é caro e que empresas é que vão para lá abrir poços? Uma coisa é explorar o que já lá está, outra coisa é esperar anos para que comece a render, sem se saber como estará a situação daqui a uns anos – basta ver que a Exxon Mobil disse logo que não estava interessada em investir na Venezuela.”

No caso do Irão, a situação é semelhante, adianta o especialista, e depois há o caso concreto da ilha de Kharg, que não é um local de extração de petróleo. “Kharg é onde os iranianos refinam o petróleo, é onde o petróleo chega para ser refinado e depois exportado. Os iranianos vão mandar o petróleo para lá se forem os EUA a controlar a ilha?”, questiona Ricardo Marques.

“Não estou a ver que isto vá acrescentar grande coisa ao poderio dos EUA relativamente a estes recursos”, vaticina António Costa Silva. “No que toca à Venezuela, não é líquido que Trump consiga capitalizar isto, o potencial está lá, mas a produção petrolífera é das menos significativas do mundo – e com o Irão é a mesma coisa, produz cerca de 3 milhões de barris por dia, até porque quer um quer outro estiveram sujeitos a sanções, logo não captaram investimentos nem desenvolveram tecnologia.”

Imagem da refinaria El Palito em Puerto Cabello, na Venezuela, o país que possui as maiores reservas prováveis de petróleo do mundo; “a Venezuela não produz nem sequer um milhão de barris e a indicação que temos é que é muito caro abrir produção nova”, refere o analista de mercados Ricardo Marques foto Jesus Vargas/Getty Images

Ao final de um mês, o que a guerra contra o Irão tem mostrado é a dependência mundial profunda do Estreito de Ormuz, por onde passam não apenas combustíveis fósseis – na ordem dos 20 milhões de barris de crude por dia antes do fecho, 5 milhões deles refinados, e 20% dos gás natural liquefeito (GNL) – mas também um terço dos fertilizantes usados em todo o mundo e uma parte significativa de metais como o alumínio. E “atacar Kharg significa incendiar ainda mais o Médio Oriente”, considera Costa Silva, deixando os aliados dos EUA no Golfo Pérsico com “grande desconforto” quanto ao que Trump poderá decidir a seguir.

A outra peça do xadrez é a evolução do mercado petrolífero em relação ao mercado da eletricidade, com o especialista a invocar uma “luta titânica” na base das jogadas de risco de Trump. Com o planeta a consumir cerca de 100 milhões de barris de petróleo por dia, não foi esse o mercado que mais cresceu em 2024, um “ano fundamental” que confirmou uma mudança de paradigma em rota oposta às apostas de Trump.

“Quando Trump capta os recursos da Venezuela ou do Irão, isso fará pouco sentido se olharmos para o médio e longo prazo, quando estamos num processo de descarbonização da economia mundial”, aponta o especialista. “Em 2024, o consumo mundial de eletricidade aumentou acima da média, 4,3% acima do crescimento da economia mundial, e o que é que se passou com o petróleo? Ficou estável, teve um aumento mas ligeiro, na ordem dos 0,8%. O pano de fundo que tem suscitado estas intervenções do presidente americano é uma luta titânica entre os petroestados e os eletroestados” – e são estes últimos, com a China como grande baluarte, que estão a ganhar a corrida.

Trump com o presidente da China, Xi Jinping. foto DR​​​​​

A vingança de Edison, a vitória da China

Será uma corrida ao jeito da lebre e da tartaruga, considerando que a dependência do petróleo e de outros combustíveis fósseis continua elevada – em 1992, na Conferência do Rio, os países eram dependentes deles em 86,5% e esse valor caiu mas muito pouco, para uns meros 81% na atualidade. Ainda assim, não há como parar a descarbonização – como refere Costa Silva, “tem uma importância de matriz mundial e todas estas crises mostram que as economias têm de se eletrificar, sob o risco de andarmos em crise permanente”. E a China já percebeu isso.

Enquanto Trump ocupa países para controlar os fluxos de petróleo e investe milhares de milhões em infraestruturas e produção dentro de portas, Pequim é hoje responsável por um terço da geração de eletricidade mundial e o país que mais investe em energias renováveis – o dobro dos EUA e da Europa juntos –, usando os dividendos disso para desenvolver o setor industrial. Neste momento, as energias limpas já representam mais de 20% do PIB chinês, a par e passo de grandes desenvolvimentos tecnológicos, embora continue a ser o maior consumidor de carvão do mundo.

“Estamos numa grande luta que faz lembrar aquela aposta extraordinária dos anos 1900 nas ruas de Nova Iorque entre Thomas Edison e Henry Ford”, lembra Costa Silva. “Edison dizia que a eletricidade ia ganhar, Ford dizia que era o petróleo – Ford ganhou, mas 100 e tal anos depois, estamos à beira de uma transformação muito grande.”

Isso não significa, contudo, que no curto prazo os EUA não ganhem com isto – e não tanto do ponto de vista energético, mas sim estratégico. “A questão mais abrangente é que controlar o petróleo da Venezuela e do Irão daria a Washington não apenas influência económica, mas também poder de coerção sobre aliados e adversários”, dizHoussein al-Malla, especialista em estudos de conflitos do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA).

carregue aqui para ver o mapa em tamanho maior

"Os importadores da Europa, da Índia e da Ásia Oriental ficariam ainda mais expostos às decisões políticas dos EUA justamente no momento em que tentam diversificar as suas economias para se protegerem dos choques geopolíticos", adianta Al-Malla. "É por isso que a importância do que Trump disse na entrevista ao FT reside menos na viabilidade do projeto [de tomar Kharg] e mais no que ele sinaliza sobre a grande estratégia dos EUA – uma tentativa de transformar a geografia energética em hierarquia política."

Isso já está patente, por exemplo, na forma como Trump cortou o fornecimento de petróleo a Cuba para a subjugar às suas vontades, em mais uma demonstração de força em que a força é oleosa, viscosa e negra. “Uns EUA sob controlo do petróleo da Venezuela, que representa o controlo do Hemisfério Ocidental, e do Irão, que representa a dominância do Golfo, não influenciariam apenas o mercado – ficariam muito mais próximos da sala de comando geopolítica do sistema energético global.”

E quem mais ganha com isso é… isso mesmo, a China, que está sossegada mas “a prestar toda a atenção” às movimentações dos EUA, sublinha António Costa Silva - a China está a ver Trump cometer “erro atrás de erro”, no Médio Oriente e também na Ásia, com o desmantelamento dos sistemas de defesa na Coreia e no Japão para reforçar as defesas no Golfo Pérsico.

“Só num dia em que os EUA estavam a desmantelar uma das suas bases da Coreia do Sul, foram reportados mais de mil satélites chineses concentrados ali, a observar tudo o que se passava. A China está a estudar muito bem tudo o que Trump faz – e é como dizem os teóricos da indústria da guerra, que na China é milenar: quando o teu inimigo está a fazer disparates, não o interrompas.”

Médio Oriente

Mais Médio Oriente

Mais Lidas