"É provável que Teerão veja a escalada como inevitável – a questão é saber até onde"
Os cidadãos norte-americanos estão sob aviso para terem cuidados redobrados em todo o mundo, há companhias aéreas a cancelar voos, o preço do petróleo está a disparar e amontoam-se os receios de que o conflito iniciado por Israel contra o Irão há dez dias se adense ainda mais.
Com a entrada em cena dos Estados Unidos, que na noite de sábado para domingo lançaram ataques contra as três principais instalações nucleares iranianas – incluindo contra a central subterrânea de Fordow com recurso às suas famigeradas munições antibunker, únicas no mundo – a comunidade internacional aguarda para perceber de que forma o Irão vai responder aos ataques. E como apontam os especialistas, tudo vai depender do equilíbrio certo entre demonstrar robustez, por um lado, e contenção, por outro.
“Estamos num ponto de viragem e a reação do Irão dependerá da forma como o regime se calibra entre o orgulho nacional e a sobrevivência estratégica”, refere à CNN Portugal Houssein al-Malla, investigador do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA). “É provável que Teerão veja a escalada como inevitável – a questão é saber até onde.”
Não faltam análises e antevisões de como Teerão pode vir a responder à entrada dos EUA no conflito, com cenários que vão desde não fazer nada a ceder e voltar à mesa de negociações, passando por atacar bases norte-americanas no Médio Oriente ou perturbar o comércio mundial de petróleo.
“As opções vão desde a retaliação calibrada através de proxies até a ataques diretos com mísseis contra ativos dos EUA ou de Israel” na região, indica Al-Malla – “embora o Irão também saiba que uma reação exagerada poderia dar a Washington e a Telavive a justificação para uma campanha militar prolongada”.
Para Jonathan Monten, é mais do que expectável “algum tipo de retaliação por parte do Irão e, fazendo-o, que a administração Trump tenha de responder também”. Ainda assim, o diretor do programa de Políticas Públicas Internacionais da University College London (UCL) destaca que “os dois lados têm fortes incentivos para não escalar o conflito muito mais para além disso”.
De um lado, há o regime iraniano “numa posição muito frágil”, motivo pelo qual “não quererá uma guerra total”; do outro, “Trump continua a vender o ataque como uma intervenção muito limitada contra o programa nuclear”. Já o caso de Israel é “mais opaco”, indica Monten, dado que o governo Netanyahu parece não apenas investido em destruir as capacidades nucleares do arquirrival, mas também em destruir as suas infraestruturas militares, que esta segunda de manhã voltaram a ser alvo de ataques israelitas.
“Neste momento, Trump tem uma linha política de intervenção limitada à questão nuclear, mas com Israel a história é um pouco diferente, os objetivos parecem ser mais expansivos, incluindo a destruição da sua capacidade de causar danos militares”, refere o analista. “Penso que é muito mais provável que Israel dê continuidade ao conflito.”
Da dissuasão ao confronto
Perante rumores de que Teerão estará a preparar-se para atacar posições norte-americanas no Catar, o Irão lançou esta manhã pelo menos 15 mísseis balísticos contra território israelita, provando que as suas capacidades de ataque não estão totalmente enfraquecidas, apesar dos contínuos ataques de Israel. A grande dúvida agora é se, e quando, irá atacar também ativos dos Estados Unidos na região e que estratégias alternativas poderá Teerão seguir.
Com o governo iraniano sob “tremenda pressão”, a urgência é “tentar estabelecer algum tipo de dissuasão no que toca a futuras intervenções”, adianta Jonathan Monten, e nesse sentido “o regime enfraquecido tem fortes razões para responder”. Mas até que ponto pode essa resposta passar por fechar o Estreito de Ormuz, como alguns analistas antecipam?
“Fechar o estreito é uma das mais fortes alavancas à disposição dos iranianos, mas qual seria o objetivo?”, questiona o analista a partir de Londres. “É muito difícil perceber qual seria o objetivo e durante quanto tempo o fechariam.” A opinião é partilhada por especialistas como Cormac McGarry, diretor de segurança marítima da empresa de consultoria Control Risks, que em entrevista à BBC esta manhã se referiu ao fecho do estreito como "o pior cenário possível para o Irão" – porque, "ao fazê-lo, estaria basicamente a desferir um golpe nos Estados árabes do Golfo, bem como, e sobretudo, na China, que depende do Estreito para transportar grande parte das suas importações de petróleo".
Para Monten, essa hipótese “não é impossível”, mas “o mais provável” é que o mundo assista a uma repetição do que aconteceu em 2020, quando as forças norte-americanas mataram o general iraniano Qassem Soleimani num ataque aéreo ao aeroporto de Bagdade, no Iraque. “Acho mais provável que os iranianos respondam como responderam após os EUA terem assassinado Soleimani no primeiro mandato de Trump – com ataques na região, mas não mais do que isso.”
Essa hipótese é aquilo que Houssein al-Malla, do GIGA, define como uma das “linhas vermelhas” de Teerão que os norte-americanos vão testar nas próximas horas e dias, sobretudo face à "mudança" que os ataques dos EUA às instalações nucleares iranianas vieram marcar, passando de uma postura de “dissuasão para o confronto”.
No curto prazo, o especialista antevê “posturas militares, movimentos navais e formação de coligações”, com Washington a “testar as linhas vermelhas do Irão, em especial em torno do Estreito de Ormuz e das suas capacidades em termos de mísseis”. Já Israel “mantém inalterado o seu objetivo estratégico – degradar permanentemente as infraestruturas militares do Irão e, se possível, alterar a dinâmica de poder na região a seu favor”.
Contudo, é para já incerto se algum desses objetivos será verdadeiramente alcançado, perante contínuas dúvidas sobre até que ponto as capacidades nucleares de Teerão foram destruídas e até que ponto é que os EUA vão envolver-se ainda mais nesta guerra, sobretudo considerando que Trump continua entre a espada e a parede no contexto desta intervenção.
“Como falámos na semana passada, há questões sobre se Trump vai conseguir encontrar um equilíbrio enquanto é puxado em duas direções diferentes”, para a intervenção militar exigida pelos aliados israelitas e para o fim do intervencionismo exigido por uma larga fatia da sua base de apoio, indica Jonathan Monten. “À medida que o conflito se desenrola, será confrontado com este dilema novamente e já está a preparar-se para isso, ao dizer que os EUA vão tornar o Irão grande outra vez (MIGA). Com Trump é muito difícil saber o que esperar – há uma semana achava que os EUA não iam atacar o Irão, e agora aqui estamos.”
Com tudo em jogo, e mais dúvidas do que certezas no horizonte, Houssein al-Malla destaca que “a região não está apenas a preparar-se para a guerra, mas para um novo equilíbrio de poder”, que envolve muitas potências regionais e mundiais. “É isso que torna as próximas semanas tão perigosas”, adianta o especialista. “Cada ator está a jogar por mais do que uma mera vantagem no campo de batalha – está a jogar pela forma da ordem pós-conflito.”