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Défice, inflação e uma pressão "para subir juros": Paulo Portas antevê "impactos globais severos" da guerra no Médio Oriente

8 mar, 22:52

 

 

No caso da economia portuguesa, Paulo Portas antecipa que "o primeiro trimeste dificilmente deixará de ser débil", tendo em conta, em primeiro lugar, os efeitos provocados pelas tempestades e, agora, os impactos desta guerra

Aquilo que incicialmente parecia um conflito trilateral dos EUA e Israel contra o Irão transformou-se, em apenas uma semana, num "conflito regional" que pode ter "impactos globais severos" a nível económico.

No Global desta semana, Paulo Portas sublinha que, nos últimos oito dias, "os ataques, os alvos ou danos colaterais já atingiram 17 países, nomeando-os um a um: "EUA, Israel, Irão, Omã, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Líbano, Iraque, Jordânia, Chipre, Azerbaijão, Turquia, Reino Unido e ainda falta saber se, porventura, com a questão dos curdos, a Síria será forçada a intervir".

"Com toda a franqueza, é uma proeza negativa conseguir atingir tantos pontos sensíveis daquela região que é, em si mesma, muito complexa", salienta Paulo Portas, no seu habitual espaço de comentário no Jornal Nacional da TVI.

À medida que o conflito se vai alastrando, as perspetivas económicas ficam mais sombrias - só esta semana, "o petróleo já subiu 20% e o gás três vezes mais". 

"Quanto mais tempo este conflito durar, maior o risco de ter impactos globais severos", observa o comentador, apontando que os impactos deste conflito sobre a inflação vão ser avaliados nas próximas reuniões do BCE, nos próximos dias 18 e 19 de março.

"A pressão, no caso do BCE, se houver receio de incrementação da inflação, será para subir juros, não é para descer. Não creio que seja já nesta reunião, mas se o conflito se arrastar, é isso que sucederá, naturalmente", vaticina Portas.

A par da inflação, também "há consequências sobre os défices", acrescenta o comentador. "Se os combustíveis subirem muito, é preciso tomar medidas de mitigação, e essas medidas não são gratuitas nem caem do céu", observa.

Além disso, prossegue, "se a guerra se arrastar, também há efeitos sobre a confiança e sobre o investimento", já que, naturalmente, "as pessoas tendem a adiar decisões" em tempos de guerra.

No caso da economia portuguesa, Paulo Portas antecipa que "o primeiro trimeste dificilmente deixará de ser débil", tendo em conta, em primeiro lugar, os efeitos provocados pelas tempestades e, agora, os impactos desta guerra.

A "ironia da história" com a nova "dinastia de Khamenei"

A eleição de Mojtaba Khamenei para suceder ao pai, Ali Khamenei, como Líder Supremo do Irão não surpreendeu Paulo Portas, que já na semana passada colava em hipótese um cenário de uma "dinastia islâmica" na República Islâmica do Irão.

A ideia não agradava ao pai, que "supostamente terá deixado a recomendação de que a República Islâmica não se transformasse numa monarquia islâmica", que o próprio Ali Khamenei ajudou a derrubar, na Revolução Islâmica de 1979.

A eleição de Mojtaba como Líder Supremo do Irão significa, no entender do de Paulo Portas,"uma transofrmação de fundo na natureza do regime" iraniano, transformando-se num "regime monárquico" com "uma dinastia de Khamenei".

"Nesse sentido, é uma ironia da história porque é uma repetição da história dos Pahlavi", observa o comentador. Basta lembrar que Reza Pahlavi, o filho mais velho do último Xá do Irão, é neto de Reza Khan, "que não era um aristocrata nem era de uma dinastia real", nota Paulo Portas. "Era um militar que, entre 1921 e 1925, fez um movimento militar, tomou o poder, queria fazer uma República e foi obrigado a ser xá, ou seja, a ser rei."

"É muito extraordinário que o epílogo da Revolução Islâmica de 1979 seja o regresso a uma transmissão do poder entre pai e filho, com uma natureza mais miliciana, menos densa do ponto de vista ideológico", sublinha o comentador.

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