“O que estamos a ver assemelha-se mais a uma pausa nas hostilidades do que a um acordo totalmente negociado” e as próximas horas serão fundamentais para perceber se a trégua vai perdurar ou abrir caminho a uma nova fase de confrontos
Ao final de 12 dias de guerra entre Israel e o Irão, parecia que os Estados Unidos iam entrar no conflito. Na noite de sábado para domingo, as forças norte-americanas recorreram às famigeradas bombas anti-bunker para atacar três centrais nucleares iranianas, incluindo a infraestrutura subterrânea de Fordow altamente fortificada.
Um dia depois, numa retaliação coordenada com o Catar e a administração Trump, Teerão respondeu com o lançamento de 14 mísseis contra a maior base norte-americana na região, perto da capital catari, um por cada uma das bomas anti-bunker dos EUA; 13 foram intercetados, o 14.º não causou danos. Logo a seguir, Donald Trump agradeceu ao regime iraniano o aviso de antemão.
Já na segunda-feira à noite, Trump anunciava na sua Truth Social um cessar-fogo a entrar em vigor na manhã seguinte, esta terça-feira, com Israel e Irão comprometidos em não se atacar. Nem uma hora depois da entrada em vigor da trégua, Telavive acusou Teerão de violar o cessar-fogo e lançar mísseis contra o seu território. O Irão desmentiu a alegação e Israel respondeu com um míssil que destruiu um sistema de radares iraniano.
Pouco depois, um Trump visivelmente furioso disse aos jornalistas antes de partir para a cimeira da NATO em Haia: “Não estou satisfeito com Israel. Houve fogo que acho que foi disparado para o mar [pelo Irão]. Foi depois do prazo [para o cessar-fogo entrar em vigor] e falhou o alvo. E agora Israel está a sair [para atacar]. Estes gajos têm de se acalmar. Ridículo… Não sei que raio estão eles a fazer!” Logo a seguir, numa publicação na Truth Social, o presidente americano emitiu um aviso a Israel: “NÃO LARGUEM BOMBAS, TRAGAM OS VOSSOS PILOTOS DE VOLTA A CASA.”
“A reação do presidente Trump marca uma intervenção pública altamente significativa num momento de escalada de tensões”, defendia pouco depois à CNN Portugal Houssein al-Malla, investigador do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA). “Sinaliza, de forma bastante clara, que os Estados Unidos estão a tentar reafirmar o controlo sobre a trajetória do conflito. Não se trata apenas de um apelo à contenção, mas também de um aviso direto a Israel contra novas ações. Este tipo de linguagem pública entre aliados próximos é invulgar e realça a fragilidade do atual cessar-fogo.”
Ainda os caças israelitas não tinham levantado voo e Al-Malla já invocava a fragilidade do aparente cessar-fogo, que ao final desta terça-feira parecia, apesar de tudo, ter sido retomado. “Os cessar-fogos são tão fortes quanto a confiança e os mecanismos de aplicação que os sustentam – e, neste caso, ambos estão notoriamente ausentes”, ressalta o especialista sediado em Hamburgo. “O que estamos a ver assemelha-se mais a uma pausa nas hostilidades do que a um acordo totalmente negociado – e a acusação de Israel de que o Irão violou o acordo, e a firme negação do Irão, ilustram a natureza frágil e altamente contestada do atual status quo”.
Questionado sobre o que esperar num cenário tão volátil após o que o próprio Trump apelidou de “Guerra dos 12 dias” ao anunciar o cessar-fogo, Houssein al-Malla diz que tudo vai depender “dos cálculos internos dos três principais atores” e destaca que, “neste contexto, o cessar-fogo pode manter-se taticamente por curtos períodos, mas a sua durabilidade estratégica permanece profundamente incerta”.
“Israel pode sentir-se compelido a agir para preservar a dissuasão, especialmente se acreditar que o Irão está a utilizar as tréguas para se reposicionar. O Irão, por sua vez, pesará os custos de uma nova escalada contra os riscos de parecer vulnerável. E a administração dos Estados Unidos enfrenta o duplo desafio de manter a estabilidade regional e, ao mesmo tempo, fazer face ao escrutínio nacional e internacional da sua gestão de crises.”
Duas grandes questões pairam sobre o Médio Oriente neste momento, a começar pela robustez desta trégua. Com Israel a comprometer-se a não voltar a atacar o Irão, muitos acreditam que essa postura pode não perdurar no tempo. “Penso que o cessar-fogo entre os EUA e o Irão tem mais probabilidade de se manter do que o cessar-fogo entre Israel e o Irão”, diz à CNN Jonathan Monten, diretor do programa de Políticas Públicas Internacionais da University College London (UCL). “Penso que, após o bombardeamento dos EUA, Israel atingiu os seus objetivos militares mais significativos. Mas vamos ver o que acontece.”
Os objetivos estratégicos levam-nos à segunda grande questão ainda sem resposta: vai o Irão voltar à mesa de negociações, como exigido pelos Estados Unidos, para fechar um acordo que restrinja o seu programa nuclear? “Honestamente, não sei o que isto significa para um novo acordo nuclear”, responde Monten. “Penso que depende dos danos causados pelos bombardeamentos, cuja extensão só será conhecida daqui a algum tempo.”
Segundo Trump, no rescaldo dos ataques às centrais nucleares do Irão, a capacidade de enriquecimento de urânio do regime foi “obliterada”. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) confirma graves danos à superfície e na rede subterrânea da central de Natanz, e na mais bem protegida central de Fordow, embutida dentro de uma montanha, embora admitindo que as poderosas bombas anti-bunker dos EUA possam não ter atingido as profundezas dessa instalação.
Para além disso, o diretor-geral da agência, Rafael Grossi, adiantou que não é conhecido o paradeiro de 400 quilos de urânio enriquecido a 60% que, antes dos ataques israelitas, estava armazenado em Isfahan. Enriquecida a 90%, essa quantidade chega para fabricar 10 ogivas nucleares – e basta para sublinhar a importância de continuar a tentar alcançar um acordo em substituição do JCPOA, que Trump decidiu abandonar em 2018.
“Apesar das tensões dos últimos dias, o envolvimento diplomático continua a ser uma possibilidade – embora seja mais complexo, mais condicional e provavelmente mais indireto”, ressalta Houssein al-Malla. “O compromisso declarado do Irão de permanecer no âmbito do Tratado de Não-Proliferação sugere um esforço para evitar uma rutura diplomática total, o que poderia oferecer uma pequena abertura para medidas de criação de confiança, especialmente se mediadas por atores regionais como o Catar ou Omã. Mas o caminho a seguir não vai assemelhar-se às negociações tradicionais”, antecipa o investigador do GIGA. “As pressões políticas internas, as perceções divergentes das ameaças e o trauma persistente da diplomacia passada – em especial a retirada dos EUA do JCPOA – criaram um ambiente de diálogo altamente limitado.”
Caso a diplomacia avance, sublinha Al-Malla, “será provavelmente lenta e transacional, centrada mais no desanuviamento do que num acordo de longo prazo” – ainda que “até mesmo canais diplomáticos limitados possam servir como estabilizadores cruciais em momentos de volatilidade” como este.
Com o cessar-fogo tecnicamente ainda em vigor, adianta o investigador, voltamos à dura mensagem enviada por Trump aos dois países, em particular ao aliado hebraico. “A necessidade de Trump enviar essa mensagem revela o quão instável e contestado é o atual acordo. As próximas horas vão muito provavelmente determinar se [a trégua] se aguenta ou se abrirá caminho a uma nova fase de confrontos.”