Os objetivos políticos deste conflito permanecem incertos e, em qualquer caso, devem ser moderados. Ao longo da próxima semana, o fator económico e o Estreito de Ormuz poderão emergir como a questão dominante
Dois dias após o início da crise com o Irão, avaliei 10 indicadores-chave que estaria a acompanhar na semana seguinte. Agora que entramos na segunda semana desta crise, é tempo de reavaliar e examinar o que ganhou ou perdeu importância.
Iremos analisá-los pela mesma ordem, com uma avaliação atualizada.
1.º Domínio aéreo sobre o Irão
Os Estados Unidos e Israel aumentaram o seu domínio aéreo sobre o Irão. Devemos antecipar uma intensificação das operações militares na próxima semana. Isto significa um foco não só nos mísseis e lançadores, mas também nas instalações de produção e infraestruturas que fabricam os mísseis e drones iranianos, bem como nas suas instalações nucleares. A administração Trump não descartou uma operação terrestre, talvez focada no urânio enriquecido enterrado em Isfahan, a mais de 400 quilómetros a sul de Teerão. Isto seria extremamente arriscado e poderá não ser possível sem uma maior degradação do poderio militar do Irão.
Em síntese, a campanha militar está a consolidar-se para um período de semanas — e não de dias. Esta não será uma guerra curta.
2. Divisões na liderança iraniana
Depois de perder dezenas dos seus principais líderes, incluindo o governante assassinado, o aiatola Ali Khamenei, o Irão nomeou um conselho de liderança interino sob a presidência do líder, do chefe de justiça e de um clérigo de alto nível. De acordo com a Constituição iraniana, este conselho detém as rédeas do poder até que seja nomeado um novo líder supremo.
No sábado, o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, divulgou o que parece ser um vídeo produzido à pressa, declarando que os ataques contra os países vizinhos vão cessar, a menos que os EUA atacassem o Irão a partir desses países. Poucas horas depois, porém, os ataques contra os países do Golfo recomeçaram, incluindo um ataque com um drone contra o aeroporto do Dubai.
Isto sugere uma falha no comando e controlo dentro do Irão, uma luta pelo poder nos altos escalões ou a recusa de algumas unidades em seguir as ordens deste conselho interino.
Os líderes iranianos esforçaram-se por demonstrar coesão. Ainda no sábado, Ali Larijani - secretário do equivalente iraniano ao Conselho de Segurança Nacional dos EUA - insistiu que o conselho interino estava no comando e, no início da noite deste domingo, o Irão anunciou um novo Líder Supremo.
3.º Incerteza na sucessão (resolvida — por enquanto)
Este domingo, os meios de comunicação estatais iranianos anunciaram que Mojtaba, o filho de 56 anos de Khamenei, foi escolhido como o próximo líder supremo do Irão — o terceiro desde a revolução de 1979. Esta eleição irá provavelmente prolongar ainda mais a guerra. Se Trump esperava uma mudança de liderança semelhante à da Venezuela, com um novo líder disposto a negociar com os EUA, não será Mojtaba, conhecido pela sua ideologia de linha dura e pelos fortes laços com a Guarda Revolucionária Islâmica.
No entanto, não é claro se Mojtaba conseguirá consolidar o poder. É relativamente desconhecido, nunca falou publicamente e nunca ocupou um cargo oficial no governo. A República Islâmica também ascendeu ao poder em 1979, em oposição a uma monarquia hereditária, uma das razões pelas quais Mojtaba não era considerado um forte candidato.
Assim, embora o Irão tenha nomeado um novo líder, é demasiado cedo para prever durante quanto tempo Mojtaba conseguirá governar — assumindo que sobreviverá a esta guerra.
4. Matemática dos mísseis
Na semana passada, falámos sobre a importância de atingir os lançadores de mísseis do Irão, sem os quais o país é incapaz de preparar ondas maiores de ataques. As forças norte-americanas e israelitas parecem ter obtido algum sucesso nesta missão. Os lançamentos de mísseis iranianos diminuíram 90% esta semana, segundo o Comando Central dos EUA, e a maioria está agora a ser intercetada. Quanto menos mísseis no céu, menos intercetores necessários para os derrubar.
Os drones iranianos continuam a representar um desafio, uma vez que são mais numerosos e mais fáceis de lançar a partir de praticamente qualquer lugar dentro do Irão. Os ataques com drones diminuíram 86%, segundo o Comando Central, mas alguns ainda conseguem ultrapassar as defesas aéreas. A diminuição dos lançamentos de drones será um indicador crucial nesta segunda semana.
5. Estados do Golfo fora da zona de conflito
A decisão do Irão de atacar os Estados do Golfo continua a ter efeitos contrários para Teerão.
O Irão esperava que, ao pressionar estes países influentes, estes, por sua vez, pressionassem Washington D.C para interromper os ataques dentro do Irão. Aconteceu o contrário. A visão predominante nas capitais do Golfo é que, embora estes países possam não ter escolhido esta guerra, agora que ela começou, os EUA devem levar o plano militar até ao fim.
Falando pela primeira vez durante uma visita a um hospital para conhecer os feridos, o presidente dos Emirados Árabes Unidos avisou o Irão de que o seu país é um “osso duro de roer” e prometeu “sair vitorioso desta guerra”. Discretamente, várias forças armadas operam agora em conjunto nos céus do Médio Oriente, o que não acontecia quando a operação começou. Vários países do Golfo declararam que se reservam o direito de responder contra o Irão em legítima defesa, e esta semana poderá ser marcada por contra-ataques destes países.
Num contexto mais alargado, os ataques iranianos contra instalações britânicas e francesas na região levaram Paris e Londres a cooperar com os EUA, incluindo a concessão de acesso a bases e o envio de recursos militares franceses e britânicos para a região.
Em suma, o Irão isolou-se ainda mais na última semana, e os EUA intensificaram a cooperação que recebem dos aliados e parceiros. Dada a complexidade desta operação, Trump deveria acolher com satisfação o crescente apoio. Criticar o primeiro-ministro britânico por ter agido demasiado tarde, como fez Trump no sábado, não tem qualquer propósito.
6.º Rússia e China
Há anos que o Irão diz ter alianças estratégicas com a Rússia e a China, acreditando que uma ou ambas apoiariam o país num momento de dificuldade. O Irão apoiou diretamente a a invasão russa da Ucrânia, assumindo que a Rússia retribuiria o favor quando Teerão precisasse. Do ponto de vista público, porém, nem Moscovo nem Pequim ofereceram mais do que um apoio retórico ao Irão.
A CNN noticiou na sexta-feira que a Rússia está a fornecer informações sobre alvos para navios norte-americanos ao Irão, embora com pouco efeito aparente. A ser verdade, deverá haver repercussões por parte de Washington D.C, talvez com um maior apoio à Ucrânia. É pouco provável que Trump o faça, mas seria a melhor resposta para garantir que Moscovo interrompe o que quer que esteja a fornecer aos iranianos.
Quanto à China, não se manifesta nesta crise — e, dada a sua dependência do petróleo que passa pelo estreito de Ormuz, não deve estar satisfeita com as decisões do Irão de ameaçar a passagem. Trump tem uma visita agendada a Pequim no final do mês — uma oportunidade, caso a aproveite, para pressionar a China sobre o seu apoio aos programas de mísseis e drones do Irão. Quando Trump visitar o país, talvez pouco reste desses programas dentro do Irão.
7. Nenhuma resposta assimétrica importante — ainda
Para compreender o Irão, é preciso entender a sua chamada “Guarda Revolucionária”. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) — como o próprio nome indica — “guarda” a revolução, inclusive reprimindo o povo iraniano que exige um novo sistema. Mas a IRGC tem também a tarefa de espalhar a revolução no estrangeiro através do terrorismo e do apoio a grupos paramilitares que fomentam a instabilidade no Médio Oriente. Esta é a função da “Força Quds” da IRGC, e devemos presumir que foi incumbida de atos terroristas no estrangeiro, incluindo dentro das nossas fronteiras. No entanto, as intenções do Irão ultrapassam frequentemente as suas capacidades e, até à data, não vimos nenhum destes atos a ser executados.
Devemos esperar e presumir que o Departamento de Segurança Interna, o FBI e os serviços secretos dos EUA estão a trabalhar em conjunto e com os seus homólogos estrangeiros para detetar e neutralizar quaisquer ameaças emergentes. O Reino Unido deteve na semana passada quatro agentes alegadamente envolvidos em planos de ataques a mando do Irão.
Como lembrete da ameaça que a Guarda Revolucionária Islâmica representa, mesmo dentro das nossas fronteiras, um júri federal condenou na sexta-feira um agente dos serviços de informação iranianos, Asif Merchant, encarregado de assassinar importantes líderes políticos nos Estados Unidos, incluindo o presidente Donald Trump. Merchant foi preso e condenado durante o governo de Biden.
8. Choque energético
O principal indicador pode agora não ser militar ou político, mas económico. Cerca de 20% do comércio global de energia passa diariamente pelo Estreito de Ormuz. Desde o início deste conflito, os navios praticamente não atravessam o estreito devido ao receio de ataques iranianos. Os preços dos seguros para estes navios dispararam, juntamente com os preços globais do petróleo, que subiram 35% na última semana. Este foi um dos picos mais acentuados da história.
Se este problema não for resolvido em breve, os produtores do Golfo ficarão sem espaço de armazenamento e serão obrigados a interromper a produção, comprometendo ainda mais o abastecimento futuro. Devemos esperar que os preços continuem a subir esta semana, aumentando a pressão política sobre a Casa Branca para que encerre a operação militar antes da sua conclusão ou encontre uma forma de tranquilizar os transportadores que transitam pelo estreito. Interromper a campanha militar a meio do caminho pode ser o pior resultado possível, deixando para trás um regime iraniano ferido, mas intacto, com capacidade residual de mísseis e armas nucleares.
A Casa Branca está a esforçar-se para encontrar soluções. No final da semana passada, anunciou um fundo de seguro de 20 mil milhões de dólares para cobrir os riscos, além de ter levantado as sanções contra navios retidos com 140 milhões de barris de petróleo a caminho da Índia.
Dada a gravidade desta questão, as forças armadas dos EUA poderão necessitar de intervir para ajudar a proteger o Estreito de Ormuz e os riscos para os petroleiros que navegam a baixa velocidade. Isto já aconteceu antes, durante a administração Reagan, quando a Marinha norte-americana protegia o trânsito aéreo — mas agora é uma missão muito mais difícil, dado que o Irão tem drones que viajam mais de mil quilómetros e podem ser lançados a partir de qualquer ponto do país.
Por isso, fique atento a esta área, que talvez seja a mais importante estrategicamente na próxima semana.
9.º Domínio da escalada — não domínio do resultado
Os briefings dos líderes militares dos EUA desta semana sublinharam que o poderio militar dos EUA está a aumentar enquanto o do Irão está a diminuir rapidamente. Esta equação inclina-se cada vez mais contra o Irão, à medida que os Estados Unidos e Israel reduzem a sua capacidade de projetar poder fora das suas fronteiras. Isto, no entanto, não afeta a capacidade do Irão de projetar poder dentro das suas próprias fronteiras — contra o seu próprio povo.
Assim, na tendência atual, é provável que se assista a um Irão com poderio militar drasticamente reduzido, mas sem a mudança de regime que muitos esperam. Alterar os resultados políticos apenas com poder aéreo não é uma tarefa militar viável.
10.º Sem um fim evidente
A ausência de um fim natural é o que torna a campanha diferente de tudo aquilo a que Trump, enquanto chefe das Forças Armadas, presidiu ao longo dos seus dois mandatos. No entanto, entrando na segunda semana, podemos começar a vislumbrar como poderá terminar. O Pentágono procurou esclarecer na semana passada que tem objetivos “discretos e definidos”: destruir a capacidade de projeção de poder do Irão — mísseis, drones, marinha e instalações nucleares. Provavelmente, serão necessárias mais algumas semanas para atingir todos estes alvos. Nessa altura, a campanha militar terá chegado ao fim.
Os Estados Unidos não podem direcionar os resultados políticos, mas podem deixar claro que qualquer novo governo — se desejar o alívio das sanções, por exemplo — deve concordar em não restaurar estas capacidades. Entretanto, as forças aéreas norte-americanas e israelitas podem continuar a patrulhar o espaço aéreo iraniano. Este pode ser o melhor cenário para uma nova normalidade depois de tudo isto — um Irão enfraquecido e contido.
Mas mesmo este resultado ainda está a semanas de distância, no mínimo.
Em resumo
Os Estados Unidos, juntamente com Israel e uma coligação de defesa mais alargada, estão a conduzir uma campanha militar metódica com objetivos militares definidos, centrados na projeção de poder do Irão na região. Os objetivos políticos permanecem incertos e, em qualquer caso, devem ser moderados. Ao longo da próxima semana, o fator económico e o Estreito de Ormuz poderão emergir como a questão dominante.