Eliminar Salami é semelhante a matar o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas: "Pode imaginar o que se seguirá"

CNN , Helen Regan, Lauren Izso e Tamar Michaelis
13 jun 2025, 09:38

Operação Rising Lion ataca o coração do complexo nuclear, militar e de mísseis do Irão. Médio Oriente mergulhou num novo e perigoso território

Israel ataca programa nuclear e liderança militar do Irão em ataques sem precedentes

Israel atacou o coração do complexo nuclear, militar e de mísseis do Irão na madrugada desta sexta-feira, num ataque sem precedentes que terá matado dois dos principais comandantes militares do Irão e mergulhou o Médio Oriente num novo e perigoso território.

Os ataques ao programa nuclear e aos líderes militares de alta patente do Irão podem ser um ponto de inflexão no longo conflito, à medida que Israel se prepara para uma grande retaliação iraniana — com a ameaça de uma guerra regional mais ampla a tornar-se agora um risco real.

Na manhã de sexta-feira, a retaliação parecia estar em andamento, depois de as forças armadas de Israel comunicarem que o Irão lançou mais de 100 drones em direção a Israel e que Israel havia começado a “interceptá-los” fora das suas fronteiras.

Num discurso televisivo à nação, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que a operação militar tinha "atingido a cabeça do programa de armamento nuclear do Irão" e que os alvos incluíam a principal instalação de enriquecimento do Irão em Natanz, cientistas nucleares iranianos e o programa de mísseis balísticos do Irão.

"Há poucos instantes, Israel lançou a operação Rising Lion, uma operação militar direcionada a reverter a ameaça iraniana à própria sobrevivência de Israel", afirmou Netanyahu num discurso televisivo.

"Esta operação continuará durante quantos dias forem necessários para eliminar esta ameaça."

O líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, advertiu que Israel enfrentará "castigos severos" pelos ataques e confirmou que vários comandantes e cientistas iranianos foram mortos. O porta-voz das Forças Armadas do Irão afirmou que tanto os EUA como Israel "pagarão caro".

Uma das figuras mais poderosas do Irão, o general Hossein Salami — comandante-chefe da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), força de elite do país — está entre os mortos nos ataques, confirmou a IRGC. O major-general Mohammad Bagheri, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irão e oficial militar de mais alta patente do país, também foi morto, de acordo com a televisão estatal iraniana IRINN.

O ex-chefe de segurança nacional do Irão, Ali Shamkhani, um conselheiro-chave de Khamenei que serviu como secretário do Conselho de Segurança Nacional durante quase uma década, foi morto, informou a IRINN. Entre os mortos também estariam seis cientistas nucleares iranianos, informou a agência de notícias Tasnim, afiliada ao Estado.

Os ataques de sexta-feira sugerem que Netanyahu viu uma oportunidade para alcançar o objetivo de longa data de Israel de destruir o programa nuclear do Irão. O Irão está na sua posição militar mais fraca em décadas, após sanções económicas devastadoras, ataques israelitas anteriores às suas defesas aéreas e a dizimação dos seus aliados regionais mais poderosos, incluindo o Hezbollah.

Uma sexta ronda de negociações nucleares entre os EUA e o Irão estava marcada para domingo, e autoridades americanas haviam dito anteriormente à CNN que ataques israelitas ao Irão seriam uma ruptura descarada face à abordagem do presidente Donald Trump no Médio Oriente.

Os Estados Unidos não estiveram envolvidos nos ataques, afirnou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, observando que Israel havia “aconselhado” os EUA que acreditava que a “ação era necessária para sua autodefesa”.

Anteriormente, Trump tinha alertado para a possibilidade de um “conflito maciço” no Médio Oriente que poderia ocorrer “em breve”.

Vários países manifestaram preocupação e condenação pelos ataques de Israel, com o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita a afirmar que o ataque compromete a “soberania e segurança” do Irão e constitui uma “clara violação das leis e normas internacionais”, e a embaixada da China no Irão considerado a situação “grave e complexa”.

Os residentes no Irão enfrentaram uma noite longa e aterrorizante. "As pessoas relataram que o chão tremeu, ouviram explosões e viram jatos a sobrevoar», disse Negar Mortazavi, investigador sénior do Centro de Política Internacional, à CNN.

Explosões repetidas puderam ser ouvidas na capital Teerão, e vários vídeos geolocalizados pela CNN mostraram chamas e fumo a sair de edifícios por toda a cidade. O espaço aéreo do Irão também foi fechado, informou a autoridade de aviação civil do país.

Israel declarou estado de emergência especial, fechando o espaço aéreo, escolas e proibindo reuniões sociais. “Dezenas de milhares” de soldados israelitas foram convocados em preparação para uma retaliação iraniana, disse o chefe do Estado-Maior de Israel.

Medo de uma guerra mais ampla

Analistas e especialistas alertam há muito que os ataques israelitas às capacidades nucleares do Irão podem desencadear uma retaliação iraniana em grande escala e ameaçar levar a região a uma guerra total.

E se Israel e o Irão se envolverem num conflito mais alargado, isso poderá arriscar envolver os Estados Unidos na contenda. Os EUA são o aliado mais próximo de Israel e o seu maior fornecedor de armas, e atualmente existem cerca de 40 mil soldados americanos em todo o Médio Oriente, incluindo quase quatro mil no Iraque e na Síria.

Indícios desse risco surgiram no início desta semana, quando os EUA ordenaram a saída de pessoal não essencial de locais em todo o Médio Oriente, à medida que aumentavam os alertas dos serviços secretos de que um ataque israelita ao Irão era iminente.

Netanyahu tem pressionado repetidamente a favor de uma opção militar para impedir o programa nuclear do Irão, e relatórios recentes dos serviços secretos dos EUA afirmam que Israel está a tentar capitalizar a destruição causada após ter bombardeado instalações de produção de mísseis e defesas aéreas do Irão em outubro.

Especialistas afirmam que um ataque israelita às instalações nucleares iranianas provavelmente também significaria o fim das negociações nucleares do Irão com os EUA.

A instalação no centro das ambições nucleares do Irão foi engolida pelas chamas na sexta-feira, de acordo com imagens das redes sociais geolocalizadas pela CNN e pela televisão estatal iraniana.

O complexo nuclear em Natanz, uma cidade a cerca de 250 quilómetros a sul de Teerão, é considerado a maior instalação de enriquecimento de urânio do Irão. Analistas afirmam que o local é usado para desenvolver e montar centrífugas para o enriquecimento de urânio, uma tecnologia fundamental que transforma urânio em combustível nuclear.

Os ataques de sexta-feira ocorreram logo após Teerão afirmar que intensificaria as atividades nucleares devido à aprovação de uma resolução pela Agência Internacional de Energia Atómica que afirmou que o país não estava a cumprir os seus compromissos de não proliferação, segundo disseram autoridades americanas à CNN.

O Irão supervisiona o chamado Eixo da Resistência em toda a região, que inclui aliados leais como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iémen, bem como vários grupos milicianos no Iraque e na Síria. Desde o início da guerra de Israel em Gaza em 2023, os ataques desses grupos aliados intensificaram-se em solidariedade com os palestinianos.

No ano passado, a guerra fria de anos entre Israel e o Irão transformou-se abertamente numa série de ataques com mísseis de ambos os lados. Na altura, os EUA alertaram Israel para não atacar a infraestrutura energética ou nuclear do Irão.

A operação desta sexta-feira vai muito além do que se viu anteriormente. A analista de segurança da CNN, Beth Sanner, disse que matar Salami é semelhante a eliminar o presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA [o equivalente em Portugal ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas]: “Pode imaginar o que os americanos fariam”, afirmou.

O Irão está agora "sob ameaça existencial" e, como tal, os israelitas estarão à espera de "uma retaliação maciça, muito maior do que a que viram da última vez", acrescentou.

 

Oren Liebermann, Jeremy Diamond, Rhea Mogul, Nectar Gan, Jessie Yeung, Todd Symons, Jerome Taylor, Ross Adkin, Juliana Liu, Leila Gharagozlou, Isaac Yee, Teele Rebane, John Liu e Chris Lau, da CNN, contribuíram para este artigo.

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