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Irão promete "ruína total" se a guerra recomeçar. O que pode acontecer se a diplomacia falhar

CNN
30 mai, 12:32
Soldados do exército iraniano posam em frente a uma fotografia do Líder Supremo do Irão, o aiatola Mojtaba Khamenei, durante uma manifestação de solidariedade e apoio em Teerão, a 29 de abril (AFP/Getty Images)
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Do bloqueio de um outro estreito importante para o comércio mundial até a potenciais ataques a alvos na Europa

À medida que as negociações entre os Estados Unidos e o Irão se aproximam de um possível acordo, Teerão está a sinalizar cada vez mais que qualquer retorno à guerra seria muito diferente da última vez.

Autoridades norte-americanas disseram na quinta-feira que um acordo provisório havia sido alcançado nas conversas entre Teerão e Washington e que aguardava a aprovação do presidente, Donald Trump. No entanto, mesmo com os negociadores a relatarem progressos, o confronto militar mostrou poucos sinais de arrefecimento. Os EUA lançaram a sua segunda ronda de ataques contra o Irão numa questão de dias esta semana, enquanto escaramuças continuaram na noite de quinta-feira no Estreito de Ormuz.

As autoridades iranianas têm usado as negociações para projetar confiança de que mantêm opções militares significativas caso a diplomacia falhe. A Guarda Revolucionária disse que qualquer conflito renovado se espalharia "muito além da região", ameaçando com "golpes devastadores" e "ruína total" em lugares que os opositores "nem sequer podem imaginar".

Os alertas surgem após uma guerra em que o Irão atacou bases americanas, cidades israelitas e infraestruturas críticas nos Estados árabes do Golfo, efetivamente bloqueando a navegação pelo Estreito de Ormuz, o que desencadeou um choque energético global.

Na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, alertou que qualquer retaliação futura "apresentaria muitas mais surpresas", enquanto os militares iranianos ameaçaram abrir "novas frentes" usando "novas ferramentas". Mohammad Bagher Ghalibaf, principal negociador do Irão, afirmou que as forças armadas aproveitaram o período de cessar-fogo para reconstruir as suas capacidades "ao mais alto nível".

Especialistas afirmam que grande parte da retórica visa impedir novos ataques. Mas também alertam que Teerão mantém opções significativas de escalada caso a diplomacia fracasse.

Caso a guerra seja retomada, eis algumas maneiras através das quais o Irão poderia responder:

Um novo bloqueio

O Irão não consegue prevalecer contra os EUA e Israel por meios militares convencionais, pelo que tem buscado a dissuasão infligindo prejuízos económicos globais por meio do bloqueio do Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento marítimo crítico. Encorajado pelo seu sucesso, Teerão pode agora tentar interromper outro corredor marítimo vital.

O navio cargueiro Rayen, de bandeira iraniana, permanece ancorado no Estreito de Ormuz, perto da Ilha de Larak, no Irão. foto Majid Saeedi/Getty Images

Ao ativar o seu aliado regional, os Houtis no Iémen, o Irão poderia orquestrar o encerramento do Estreito de Bab al-Mandeb, bloqueando outra artéria vital que conecta as principais rotas comerciais entre a Europa, a Ásia e o mundo árabe. Tal movimento agravaria a pressão económica mundial.

Em 2023, mais de 10% do comércio mundial de petróleo por via marítima passou pelo Estreito de Bab al-Mandeb. Depois de os Houtis terem criado insegurança marítima na região próxima do Iémen em 2024, essa participação caiu quase para metade no caso do petróleo e para perto de zero no caso do gás natural liquefeito, de acordo com a Administração de Informação de Energia dos EUA.

“Uma crise simultânea em Bab al-Mandeb e no Estreito de Ormuz seria muito mais grave, afetando potencialmente o comércio no Mar Vermelho e os fluxos de energia no Golfo Pérsico, o que aumentaria os preços do petróleo, as taxas de transporte e a pressão inflacionária em todo o mundo”, refere Umud Shokri, estratego de energia e investigador sénior visitante da Universidade George Mason, à CNN.

Nos últimos anos, os Houtis demonstraram a sua capacidade de interromper a navegação marítima perto de Bab al-Mandeb, atacando, apreendendo e afundando embarcações que passam pelas suas águas. Mas criar um bloqueio semelhante ao do Estreito de Ormuz seria “muito mais difícil”, adianta Shokri.

“Bab al-Mandeb não é controlado diretamente pelo Irão, e qualquer encerramento prolongado provavelmente desencadearia uma forte resposta naval internacional”, explica o analista. “O cenário mais realista não é um encerramento físico completo, mas uma crise de segurança prolongada que torne o transporte marítimo comercial muito arriscado ou caro.”

Poços de petróleo

Se Trump cumprir a sua ameaça de atacar refinarias de petróleo, infraestrutura e centrais elétricas do Irão, Teerão poderá tentar alargar a guerra a todo o mundo árabe, atingindo locais sensíveis para semear o pânico económico global e infligir ainda mais danos à reputação dos países vizinhos como centros seguros para negócios internacionais e garantes confiáveis ​​dos fluxos globais de energia.

Um membro do comité de segurança nacional do Irão, Ahmad Bakhshayesh Ardestani, diz que, se os EUA atacassem as instalações petrolíferas iranianas, Teerão retaliaria atacando os poços de petróleo dos Estados árabes do Golfo – uma escalada significativa em relação à guerra de 40 dias, quando o Irão tinha como alvo principal refinarias ou oleodutos.

“Se eles pretendem fazer algo para que fiquemos sem petróleo, não atacaremos os seus oleodutos, atacaremos os poços, para que eles também fiquem sem petróleo e o combustível se torne caro para o mundo”, declarou Ardestani, citado pelos media iranianos.

Infraestrutura crítica

Mesmo após a entrada em vigor do cessar-fogo a 8 de abril, os Emirados Árabes Unidos responsabilizaram grupos apoiados pelo Irão no Iraque por um ataque à central nuclear de Abu Dhabi, enquanto a Arábia Saudita também foi alvo de ataques com drones vindos do Iraque.

Durante a guerra, o Irão lançou mísseis contra alvos civis, incluindo hotéis e aeroportos, mas lançou muito poucos projéteis contra centrais de dessalinização essenciais que garantem o fornecimento de água potável a milhões de pessoas na região.

E apesar de emitir alertas de evacuação contra instituições de ensino americanas na região, não houve relatos de ataques iranianos a escolas ou universidades.

Apesar de toda a retórica, Grajewski minimiza a ameaça de "surpresas" do Irão, observando que as armas iranianas são bem conhecidas. "Elas certamente têm alcance superior a 2.000 quilómetros, mas não seria uma arma nova."

Alvos europeus

No início deste mês, páginas do Telegram ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) publicaram imagens de satélite que supostamente mostravam aeronaves americanas estacionadas no Aeroporto de Chania, na ilha grega de Creta.

A CNN não conseguiu verificar a autenticidade das imagens, mas a ameaça da Guarda Revolucionária de expandir os seus alvos "para além da região" caso o Irão seja atacado novamente aumenta a possibilidade de retaliação numa área muito mais distante.

Durante os 40 dias de guerra com os EUA e Israel, o Irão demonstrou a sua capacidade de lançar mísseis balísticos para áreas antes consideradas intocáveis.

Em março, crê-se que o Irão tenha lançado dois mísseis balísticos de alcance intermédio contra Diego Garcia, uma base militar conjunta dos EUA e do Reino Unido no Oceano Índico, a 3.200 quilómetros do Irão, no que parece ter sido a sua primeira tentativa de atingir a base.

Diego Garcia, a maior ilha do arquipélago de Chagos e sede de uma importante base militar dos EUA no meio do Oceano Índico, foi arrendada à Grã-Bretanha em 1966. foto Marinha dos EUA/Reuters

Farzin Nadimi, investigador sénior do Instituto de Washington, diz que, se um Teerão fortalecido decidir testar os seus mísseis de longo alcance contra a Europa num ataque surpresa, os alvos podem incluir as bases da RAF Fairford e da RAF Lakenheath, bases aéreas importantes operadas pelos EUA no Reino Unido, ou o centro logístico e de telecomunicações de Ramstein, na Alemanha.

"No entanto, o Irão provavelmente reservaria essa possibilidade para um nível muito alto de escalada", adianta Nadimi. Durante a guerra, acredita-se também que o Irão tenha tentado atingir instalações militares britânicas em locais tão distantes quanto Chipre.

"Não acho que o Mediterrâneo esteja completamente fora do alcance das suas capacidades", refere Nicole Grajewski, professora assistente do Centro de Estudos Internacionais da Sciences Po, em Paris, à CNN. "A questão aqui seria a precisão."

Drones, mísseis de cruzeiro supersónicos e interferência em satélites

Para aumentar as suas chances de atingir alvos, diz Nadimi, o Irão pode lançar enxames mais sofisticados e coordenados de drones com inteligência artificial, equipados com câmaras que podem comunicar entre si e ajustar trajetórias de voo e de velocidade para evitar interferências e defesas aéreas.

Mísseis iranianos são exibidos no Museu da Força Aeroespacial do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) em Teerão, em 12 de novembro de 2025. foto Majid Asgaripour/WANA/Reuters

"Eles ainda não demonstraram essas capacidades, mas discutiram o desenvolvimento dessa tecnologia no passado", refere o investigador.

Teerão também pode tentar aprimorar as suas capacidades de mísseis de cruzeiro, modificando os sistemas existentes para atingir velocidades supersónicas e assim evitar que sejam intercetados, além de poder tentar interferir em satélites militares de comunicação e vigilância, adianta.

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