ANÁLISE || A morte do aiatola Khamenei às mãos de Estados Unidos e Israel abre uma transição tão imprevisível quanto perigosa — Washington aposta numa “estratégia híbrida” para acelerar a queda do regime, mas a Guarda Revolucionária continua a ser o centro de poder mais sólido
A ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, e a morte do aiatola Ali Khamenei no centro dessa operação, não abriram apenas uma crise militar. Abriram uma disputa sobre o que pode nascer da queda — ou do abalo — de um regime quando o aparelho que o sustenta continua armado, implantado no território e enraizado no Estado. Para Daniela Melo, professora na Universidade de Boston e especialista em política norte-americana e Relações Internacionais, Donald Trump não está a seguir o modelo clássico da invasão e ocupação. O que está a tentar, sustenta, é “uma estratégia híbrida em que os Estados Unidos fazem parte do trabalho de um golpe contra o regime e convidam depois os iranianos a juntarem-se, a aproveitarem essa janela de oportunidade criada pelos Estados Unidos para fazerem uma mudança de regime”.
A fórmula nasce de uma aprendizagem antiga de Washington. Depois do Iraque, do Afeganistão e da Líbia, a administração norte-americana sabe que não há "apetite interno" para novas campanhas longas com soldados no terreno. O objetivo passa, por isso, por desencadear a rutura sem assumir o custo político e militar de uma ocupação. “Há o ataque inicial, mas não pomos boots on the ground. Terminem vocês o trabalho.” Daniela Melo encontra aqui um paralelo com a Venezuela: a tentativa de pressionar o regime a partir de fora, falando por cima dele para a rua, mas também para quem controla a força. A diferença, sublinha, é que no Irão essa operação colide com uma história mais funda, uma identidade política mais consolidada e um conflito muito mais carregado de memória.
É por isso que Trump não fala apenas aos civis. Fala também às estruturas armadas do regime, como se lhes estivesse a oferecer uma saída: mudem de lado, abandonem o poder dos aiatolas e poderão ter lugar na transição. A dificuldade, nota Daniela Melo, é que a Guarda Revolucionária não é um simples braço repressivo. "É um centro de poder." Foi forjada na Revolução Islâmica de 1979 e consolidada na guerra contra o Iraque, nos anos 80, "com uma identidade antiamericana, nacionalista e militar". Ao mesmo tempo, ganhou peso económico, influência institucional e capacidade própria de mando. “Estamos a falar de um grupo extremamente poderoso, que pode semear o caos a curto prazo e, a longo prazo, pode tomar o poder.” O risco, acrescenta, "é substituir um regime autoritário por outro ainda mais duro".
Daí a sua dificuldade em imaginar uma transição negociada entre esse núcleo de poder e os seus inimigos históricos. “Eu não consigo imaginar um mundo onde os militares de alta patente da Guarda Revolucionária aceitariam sentar-se à mesa com Israel e com os americanos e mostrar-se subordinados ao poder hegemónico.” Mesmo que um novo arranjo institucional aceitasse, no papel, as exigências de Washington sobre o programa nuclear, os mísseis balísticos ou o apoio a aliados regionais, isso não resolveria a questão decisiva: a legitimidade. Um poder que emerge sob ataque pode assinar para sobreviver. "Outra coisa é saber se consegue durar."
Na justificação pública da ofensiva, Trump apresentou o Irão como uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos. Daniela Melo separa duas coisas. A primeira é geral: a proliferação nuclear é um problema real para o sistema internacional. A segunda é mais precisa: existia uma ameaça iminente que legitimasse este ataque à luz do Direito Internacional? “Aí parece-me que não, pelo menos com os factos que sabemos publicamente.” E acrescenta que o Irão “nunca estaria numa posição de atacar os Estados Unidos com uma arma nuclear, pelo menos não por muito tempo”.
Também por isso, a professora entende que a Casa Branca não procurou verdadeiramente legitimar a operação junto da comunidade internacional. "Não houve esforço sério", observa, para construir essa justificação "através das Nações Unidas, da Agência Internacional de Energia Atómica ou dos aliados tradicionais dos Estados Unidos". O que vê é outra lógica: impor uma nova relação de forças na região e, a partir daí, retirar. A contradição é evidente. Washington repete há anos que quer reduzir a sua exposição no Médio Oriente, mas volta a entrar diretamente na guerra ao lado de Israel. A leitura de Daniela Melo é que Trump tenta resolver essa contradição pela velha fórmula do peace through strength: "Escalar para estabilizar, impor um poder hegemónico aliado e só depois sair".
"Pahlavi é persona non grata entre os iranianos"
Esse desenho ajuda a perceber por que razão o nome de Reza Pahlavi regressou ao debate. Filho do antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, hoje instalado na diáspora, o chamado príncipe herdeiro surge muitas vezes como figura de transição para setores externos ao país. Daniela Melo rejeita essa hipótese. Reza Pahlavi, argumenta, pode representar parte da diáspora iraniana — sobretudo a que se organizou nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa depois da Revolução de 1979 —, "mas isso não significa que represente o Irão". “É uma diáspora com ótimos networks, bem organizada, bem integrada, mas que tem uma visão de fora e reativa.”
A fragilidade dessa hipótese começa em 1953. Foi nesse ano que Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro iraniano deposto no golpe apoiado pelos britânicos e pelos norte-americanos, caiu na Operação Ajax, organizada pela CIA e pelo MI6. O golpe fortaleceu o xá e deixou uma marca funda na memória política do país. “Os iranianos estão bem cientes disso. O pai do príncipe Pahlavi chegou ao poder através de um golpe dos Estados Unidos.” É essa memória, insiste Daniela Melo, que torna tão difícil imaginar "uma restauração monárquica com legitimidade interna".
A idealização ocidental do Irão do xá — "a modernização, as fotografias de Teerão cosmopolita, a imagem de abertura social" — apaga quase sempre a outra metade da história: "a censura, a repressão e a SAVAK, a polícia política do regime, uma espécie de PIDE". Para Daniela Melo, essa recordação não desapareceu. “Pahlavi é persona non grata entre os iranianos”, sintetiza. Um eventual regresso do filho seria visto por muitos menos como uma solução do que como uma reposição do passado.
A Revolução Islâmica de 1979 e a crise dos reféns na embaixada norte-americana consolidaram depois a rutura entre Teerão e Washington. O Irão deixou de ser um aliado para passar a inimigo estrutural dos Estados Unidos, e a guerra Irão-Iraque aprofundou ainda mais essa clivagem. Na leitura de Daniela Melo, esse conflito teve um efeito histórico decisivo: em vez de enfraquecer o novo regime, ajudou a consolidá-lo. “Essa guerra permitiu ao regime dos aiatolas, na altura ainda com o aiatola Ruhollah Khomeini, ter dois inimigos externos muito potentes [Estado Unidos e Israel] e calar todas as vozes da oposição ao novo regime.” Foi também nesse contexto que a Guarda Revolucionária "se tornou indispensável para a sobrevivência do sistema".
Nada disso significa, porém, que o Irão esteja condenado a escolher apenas entre um retorno monárquico e a continuação de uma ordem teocrática-militar. Daniela Melo não exclui uma saída democrática. “Eu não acho que esta seja impossível hoje." O país, lembra, manteve ao longo de décadas "uma tradição de mobilização interna", mesmo sob repressão, e tem uma geração jovem que não viveu os anos 80, nem a consolidação inicial do regime, "e que quer viver com mais liberdade".
Mas essa possibilidade convive com uma prudência dura. “Quando temos um processo revolucionário em curso, nunca sabemos exatamente onde é que ele vai terminar. A maioria das revoluções termina com um regime ainda mais forte, às vezes mais fechado, do que o regime que foi derrubado.” A questão decisiva não é apenas saber se o regime vacila. "É saber quem está preparado para ocupar o espaço que se abre."
Trump quer sair do Irão "o mais rápido possível"
E aí permanece uma das maiores incógnitas. “Nós também não temos muita noção dos grupos que podem estar já organizados”, admite Daniela Melo, lembrando que, quando há protestos sob um regime autoritário, “as pessoas organizam-se de formas diferentes dependendo do regime autoritário sob que vivem”. Sabe-se pouco sobre essas redes, sobre a sua implantação e sobre a sua capacidade real de disputar o que virá depois. Podem existir muito para lá da Guarda Revolucionária e das restantes engrenagens militares, mas a questão decisiva será perceber “que grupos é que se conseguem mobilizar rapidamente e com apoio e legitimidade interna para poderem fazer frente ao regime, mas sobretudo aos militares”.
A mesma incerteza atravessa a leitura das negociações que antecederam a ofensiva. Daniela Melo formula a dúvida quase como um teste ao que aí vem: “Qual é a teoria do caso?” A pergunta, sustenta, continua em aberto. “Isto é uma estratégia de negociações? Ou seja, Donald Trump vai atacar por um ou dois dias para depois dizer: muito bem, vamos cessar as hostilidades agora para negociar a sério, porque vocês sabem do que somos capazes e podemos ir mais longe? Ou foi sempre uma cortina de fumo?” Para já, a politóloga prefere não fechar a resposta: “Neste momento não temos informação suficiente para percebermos qual das teorias do caso é que vingará.”
Numa coisa, porém, a sua leitura é mais firme. Trump não age, entende Daniela Melo, a partir de uma preocupação humanitária com o destino dos iranianos. “Não lhe interessa tanto, parece-me a mim, o que é que será o futuro do povo iraniano; interessa-lhe mais o que é que será a política internacional e as relações internacionais.” É nessa chave que lê a ofensiva: “Do ponto de vista de Trump, interessa aos EUA sair do Médio Oriente o mais rápido possível, e a agressão surge, nessa lógica, como o caminho para o fazer.” Se o regime cair, essa será apenas a primeira notícia. A segunda, e a decisiva, será perceber quem consegue transformar a queda em poder — e com que apoio, com que memória e com que legitimidade.