Esta semana, Washington ameaçou adotar novas medidas, que, segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, terão como alvo uma complexa rede criada pelo Irão que permite às suas entidades contornar as amplas sanções em vigor
Seis meses depois de os Estados Unidos e Israel terem lançado os primeiros ataques contra o Irão, os impactos físicos, financeiros e emocionais da guerra fizeram-se sentir desde Teerão até ao resto do mundo, incluindo na vasta comunidade iraniana nos EUA, que se encontra dividida entre diferentes opiniões sobre a forma como a guerra começou e sobre aquilo que conseguiu - ou não - alcançar.
A diáspora iraniana abrange várias gerações e diferentes vagas de exílio, desde aqueles que partiram após a revolução de 1979 até aos recém-chegados que fugiram de repressões e movimentos de protesto. Essas experiências contribuíram para moldar reações profundamente diferentes ao conflito. Alguns iraniano-americanos, sobretudo entre os ativistas contra o regime, acolheram favoravelmente os ataques dos EUA e de Israel e viram-nos como um possível caminho para pôr fim ao domínio da República Islâmica.
Outros recearam o custo humano de uma escalada militar e alertaram que o sofrimento dos civis e a instabilidade regional poderiam superar quaisquer ganhos políticos. A divisão não reflete apenas diferentes posições políticas, mas também experiências distintas de exílio e repressão, bem como diferentes visões sobre aquilo que muitos acreditam que deveria ser o futuro do Irão.
No início da guerra, a CNN falou com Arezo Rashidian, uma ativista monárquica de longa data, alinhada com o príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho exilado do último xá do Irão, que ajudou a organizar protestos na região de Los Angeles. Na altura, Rashidian manifestou o seu apoio à ação militar contra a República Islâmica e disse à CNN que esperava que os Estados Unidos e Israel realizassem “ataques direcionados contra bases para derrubar o regime”.
Seis meses depois, Rashidian afirma que esse otimismo deu, em grande medida, lugar à desilusão entre muitos ativistas contra o regime.
“Queríamos realmente uma mudança de regime… já passaram seis meses e não chegámos a esse ponto”, afirma, descrevendo um ambiente de frustração e incerteza.
Rashidian diz que familiares e contactos seus no Irão descreveram aquilo que consideram ser um clima de medo renovado nos meses que se seguiram ao período de maior intensidade dos combates.
Segundo Rashidian, as pessoas estão cada vez mais relutantes em falar sobre política ou sobre o seu envolvimento nos protestos de janeiro, por recearem vigilância e represálias. “Agora que a guerra está um pouco mais calma, a polícia secreta está a começar a mobilizar-se”, diz.
Os seus comentários surgem numa altura em que a CNN tem noticiado uma atenção renovada à aplicação das leis iranianas que impõem o uso obrigatório do hijab, com vídeos que mostram mulheres a serem repreendidas publicamente devido à sua indumentária e empresas a serem alvo de escrutínio por alegadas violações das regras de vestuário.
Rashidian também descreveu relatos de detenções, execuções e de uma repressão mais abrangente por parte das forças de segurança - alegações que a CNN não consegue verificar de forma independente.
Apesar da sua desilusão, Rashidian afirmou que continua a apoiar sanções mais duras contra Teerão, esperando que estas “apertem a corda” em torno do regime.
Esta semana, Washington ameaçou adotar novas medidas, que, segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, terão como alvo uma complexa rede criada pelo Irão que permite às suas entidades contornar as amplas sanções em vigor.
Mas o tão aguardado anúncio das medidas que Trump apelidou de ‘Dia D económico’ deixou muitos decepcionados, depois de Washington ter decidido adiar a aplicação de medidas novas de grande dimensão, concentrando-se sobretudo no alargamento e reforço da aplicação das sanções já existentes.
O Irão afirmou que é capaz de infligir sofrimento em resposta, ameaçando intensificar os ataques contra produtores de petróleo da região e países europeus, e chegando mesmo a sugerir a possibilidade de transformar o seu programa nuclear numa arma.
Para Aria Rostami, um profissional do setor dos museus, de 38 anos, iraniano-americano e residente em Nova Iorque, que cresceu na comunidade iraniana do sul da Califórnia, os últimos seis meses alteraram profundamente a forma como se relaciona com outros iraniano-americanos, devido à sua discordância face ao entusiasmo com que alguns apoiaram a intervenção militar.
“Fiquei realmente desiludido com a comunidade quando estavam nas ruas a festejar a guerra”, diz à CNN.
O conflito, afirmou Rostami, expôs divisões no seio da diáspora que o levaram a questionar pressupostos que antes dava como adquiridos. “Houve uma altura em que, se conhecesse alguém iraniano, ou ouvisse pessoas a falar persa na rua, sentia algo específico”, adianta. “Agora isso transformou-se em desconfiança ou incerteza. Não sei quais são as posições políticas dessas pessoas. Não sei no que acreditam”.
Antes do conflito, afirmou, os defensores da intervenção argumentavam frequentemente que “o Irão é diferente” - aquilo a que se poderia chamar excecionalismo iraniano.
Pessoalmente, diz que nunca aceitou essa premissa. “Porque haveria de querer que os Estados Unidos se envolvessem numa guerra ou levassem a cabo qualquer ação militar no Irão, tendo em conta o que vimos nos últimos 20 anos no Iraque, no Afeganistão e na Líbia?”
Embora Rostami reconheça que muitos dos apoiantes da guerra estão agora desiludidos, acredita que lhes foram criadas falsas expectativas quanto àquilo que uma intervenção militar poderia alcançar.
“As pessoas estão a ser enganadas, manipuladas, estão a ser feitas de parvas, diz.
Ainda assim, rejeita uma caricatura simplista daqueles que apoiaram a guerra. “Há uma dor real aí”, diz. “Acho, de facto, que as pessoas foram exploradas e manipuladas”.
