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Negociadores dos EUA minimizam importância do texto "extremamente vago" do acordo com o Irão

CNN , Alayna Treene e Kevin Liptak
17 jun, 10:25
O presidente dos EUA, Donald Trump, reúne-se com o emir do Catar, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, durante uma reunião bilateral à margem da cimeira do G7, na terça-feira, 16 de junho de 2026, em Evian-les-Bains, França. Julia Demaree Nikhinson/AP
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Fontes norte-americanas assumem à CNN que o memorando de entendimento não reflete os compromissos assumidos em canais informais

Negociadores norte-americanos estão a trabalhar para divulgar rapidamente o texto do acordo entre Washington e Teerão, ainda que desvalorizem a importância da linguagem específica do documento, disseram responsáveis dos EUA à CNN.

Os responsáveis descreveram o texto do acordo como extremamente vago, destinado sobretudo a criar um ambiente mais favorável para as negociações presenciais altamente técnicas que se seguem. Acrescentaram que o enquadramento visa dar ao Irão a possibilidade de o vender politicamente ao seu público interno.

Além disso, os responsáveis afirmaram que o texto do memorando de entendimento — que o vice-presidente JD Vance disse à CNN na segunda-feira ter uma página e meia — não refletia compromissos críticos assumidos pelo Irão através de canais paralelos com os EUA, o que, segundo defenderam, lhes deu mais confiança para avançar com o acordo.

“As pessoas não devem ler demasiado na linguagem do MOU”, referiu um dos responsáveis, descrevendo o acordo como um “documento político”.

“O que é mais importante do que o documento em si são os entendimentos que temos entre nós, e é por isso que é importante concretizá-lo, para que possamos criar o ambiente para discutir todas estas questões, porque basicamente diz que vamos levantar sanções, vamos fazer um acordo nuclear, vamos desbloquear fundos”, afirmou o mesmo responsável. “Mas vamos levantar sanções quando houver progresso. Vamos desbloquear fundos quando tivermos acordado os mecanismos para o fazer.”

O responsável acrescentou que a equipa de negociadores do presidente “criou uma linguagem que permite (ao Irão) dizer o que precisa de dizer para a sua política interna”.

Contudo, esta dinâmica arrisca uma forte reação negativa dentro dos Estados Unidos. As autoridades têm trabalhado durante meses para chegar a um acordo com o Irão, procurando pôr fim a uma guerra profundamente impopular e sem um desfecho claro, que fez disparar os preços dos combustíveis. Já há setores conservadores a exigir ver o enquadramento, suspeitando que o presidente Donald Trump e a sua administração cederam demasiado em nome do fim da guerra.

O texto do acordo não detalha especificamente os compromissos do Irão relativamente ao seu stock de urânio altamente enriquecido, segundo uma pessoa que viu o documento e o descreveu à CNN, apesar de Trump e outros responsáveis terem insistido que os EUA irão supervisionar a sua destruição. Em vez disso, o acordo afirma de forma geral que o Irão “reitera que nunca produzirá armas nucleares”, um compromisso que Teerão já tinha assumido no acordo nuclear de 2015 com a administração Obama.

No entanto, os responsáveis dos EUA argumentaram que o Irão transmitiu “por canais paralelos” aos EUA que irá oferecer as concessões pretendidas pela administração Trump. Isso inclui a participação dos EUA na destruição dos materiais enriquecidos no local, em coordenação com a Agência Internacional de Energia Atómica. Os responsáveis disseram que tal concessão não está explicitamente indicada no documento.

Por outro lado, o texto detalha com algum pormenor que tipo de alívio financeiro o Irão pode esperar caso cumpra os seus compromissos, incluindo a possibilidade de aceder a um fundo de desenvolvimento de 300 mil milhões de dólares no futuro, segundo os responsáveis. Tanto Trump como Vance têm insistido que esse fundo não será financiado com dinheiro americano.

O texto é menos claro quanto ao descongelamento de ativos iranianos, referindo apenas que serão libertados e ficarão “totalmente disponíveis” quando houver progressos nas próximas rondas de negociações, sem definir um calendário.

O acordo também especifica que o Irão poderá vender petróleo e produtos petroquímicos assim que o memorando de entendimento for assinado, e que os EUA irão emitir isenções de sanções para permitir que obtenha benefícios financeiros dessas vendas.

Questionado sobre as isenções de sanções, um responsável norte-americano classificou o acordo como “baseado no desempenho” e afirmou que o Irão “apenas terá acesso a quaisquer benefícios do MOU se cumprir todos os pontos acordados — incluindo não possuir armas nucleares, neutralizar o seu material enriquecido e não interferir na livre circulação na navegação no Estreito de Ormuz”.

Embora os EUA não tenham divulgado publicamente o texto do acordo, cópias do documento têm circulado entre responsáveis europeus e do G7 reunidos em França para esta cimeira do Grupo dos 7, segundo uma pessoa familiarizada com as discussões. Os líderes têm pressionado Trump para obter clareza sobre certos pontos durante reuniões no resort alpino de Évian-les-Bains.

O secretismo em torno do texto do acordo gerou críticas até de alguns aliados de Trump, que questionaram por que motivo um enquadramento já assinado deve permanecer em sigilo. Publicamente, Vance afirmou que os EUA querem divulgar o acordo, mas que existe um “procedimento diplomático” em curso e que o Irão e países mediadores querem “escalonar” o “lançamento”.

“Os cataris e os paquistaneses têm mediado toda esta negociação com os iranianos e pediram-nos, na prática, para escalonar a forma como fazemos o lançamento”, disse à Fox News na terça-feira.

Em privado, alguns responsáveis da administração Trump mostram-se dispostos a divulgar o texto do acordo ao público, segundo as fontes, mas têm dado margem ao Irão para que os seus processos internos avancem.

“Queremos que o texto seja público. Eles pediram-nos para esperar até sexta-feira para o publicar, mas estamos a perguntar se o podemos divulgar mais cedo, e talvez consigamos fazê-lo, que é o que estamos a tentar fazer”, disse um dos responsáveis norte-americanos.

Um dos fatores complicadores prende-se com o líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei. Segundo os responsáveis, ele deu a sua aprovação tácita ao memorando de entendimento, e estão em curso discussões internas sobre a possibilidade de emitir uma declaração antes da cerimónia formal de assinatura na sexta-feira, na Suíça. A divulgação pública do texto poderia dificultar esses esforços.

Trump, por sua vez, disse a jornalistas na terça-feira que estava à espera de um “contexto formal” para divulgar o documento, mas afirmou estar tão orgulhoso do conteúdo que o poderia recitar palavra por palavra perante as câmaras.

Acrescentou ainda que a próxima ronda de negociações para resolver divergências será “mais fácil” do que a inicial. Um responsável da administração Trump descreveu essa fase seguinte, de negociações “altamente técnicas”, como um período de teste para o Irão.

O período de 60 dias, que incluirá negociações presenciais entre delegações dos EUA e do Irão a partir desta sexta-feira, dará tempo à administração Trump para avaliar até que ponto o Irão está disposto a cumprir os seus compromissos e as concessões nucleares que está disposto a fazer.

“Estamos mais focados no longo prazo para conseguir o acordo”, disse um dos responsáveis, “que tem mais a ver com o conteúdo e a construção de confiança, o que é mais importante do que gerir a narrativa.”

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