Recusar a ilegalidade para derrubar um regime maligno não equivale a abdicar da responsabilidade de o confrontar. A futebolização da política externa atingiu um nível tão absurdo que quem condena o bombardeio de uma escola é logo acusado de ser pró-aiatolas
A política externa raramente é linear. É cálculo, correlação de forças, gestão de risco, leitura de intelligence. As escolhas de Pedro Sánchez são discutíveis, como todas as escolhas políticas. Escolheu governar com quem escolheu, sustentar uma maioria frágil sob a sombra de um partido indigno, estruturar uma coligação que condiciona a sua margem estratégica. Pode criticar-se o desenho interno, questionar-se a coerência, duvidar-se da sustentabilidade. Mas, no confronto aberto com Donald Trump, foi até agora o único líder europeu – com exceções episódicas, como Emmanuel Macron – que decidiu não baixar a cabeça.
Washington lançou ataques massivos contra o Irão em coordenação com Israel, numa operação que culminou na morte de Ali Khamenei, líder de um regime maligno para a região e para o mundo. Abriu-se um teatro de guerra que rapidamente se estendeu à região, numa escalada sem horizonte, com riscos políticos, energéticos e financeiros que começam no Estreito de Ormuz, mas não terminam ali. A resposta iraniana, sob a forma de mísseis e drones, ampliou a instabilidade. A região entrou num terreno perigoso, onde cada movimento tático pode desencadear uma mutação estratégica que os EUA não controlarão – e Israel quer explorar.
Impõe-se também uma clarificação que muitos obviam: as bases norte-americanas em Espanha não são território dos Estados Unidos. Nunca foram, nem jamais deveriam sê-lo. A sua utilização deve refletir interesses bilaterais equilibrados, de Madrid e Washington, tal como as Lajes devem refletir os interesses de Lisboa e Washington. Espanha mantém-se uma aliada leal da NATO, tendo tido tropas espalhadas da Letónia à Turquia, do Líbano ao Iraque. A sua política externa não é equidistante: é consistente com o direito internacional. Apoia a Ucrânia contra a agressão russa, condena as violações indiscutíveis dos direitos humanos em Gaza e na Cisjordânia, reconhece o Estado palestiniano e opõe-se à agressão iraniana. Não é neutralidade, é coerência.
Após Trump ter ameaçado Espanha com retaliações comerciais por recusar autorizar o uso das bases em operações contra Teerão, perante a passividade do chanceler Merz, Sánchez respondeu com firmeza. Repudiou o regime do Irão, que reprime e mata os seus cidadãos, em especial as mulheres, mas condenou a ação unilateral dos EUA e de Israel, defendeu a desescalada, a diplomacia e o respeito pelo direito internacional. Antes disso, foi o único líder da NATO a rejeitar explicitamente a meta dos 5 por cento do PIB em defesa, fixando-a em 2,1 por cento. Uma afirmação de soberania política num quadro de chantagem que Donald Trump não esqueceu. Firmeza que até pode servir para “ganhar” Espanha, mas que não é apenas um cálculo interno: é também demonstração de que Espanha não é vassala, é um aliado.
Enquanto Pedro Sánchez se opunha ao consenso em Haia, a União Europeia hesitava entre prudência e apaziguamento. Ursula von der Leyen assinou um acordo em Turnberry que cedeu à chantagem tarifária do Presidente dos Estados Unidos sem contrapartidas. Friedrich Merz e Giorgia Meloni, ao contrário de Emmanuel Macron, opuseram-se à ativação do instrumento de anticoerção económica face à potencial anexação da Gronelândia. A Polónia e os Países Bálticos reafirmaram a dependência securitária americana como pilar existencial.
Portugal cedeu as Lajes sem contemplações, dando as autorizações certas aos pedidos errados e estabelecendo precedentes de origem duvidosa e dificilmente verificáveis. O resultado é uma Europa que fala de autonomia estratégica enquanto reforça a dependência operacional e a vassalagem diplomática – mas a questão não é essa, obviamente.
O interregno internacional que se desenha não é apenas militar. É geopolítico. Trata-se de saber que modelo de ordem prevalecerá quando as potências deixarem de gerir crises e passarem a habitá-las permanentemente. Limitarmo-nos a afirmar que Donald Trump não é os Estados Unidos não resolve absolutamente nada – adia apenas decisões difíceis.
Neste quadro, o gesto de Sánchez é simultaneamente corajoso e arriscado. Corajoso porque enfrenta uma grande potência num momento de tensão máxima. Arriscado porque o faz com escasso respaldo explícito dos parceiros – teve-o por parte da UE – começando pelo seu vizinho ibérico, que se mantém fiel à máxima de que a diplomacia não tem estados de espírito, apenas interesses. Ceder nem sempre funciona, que o diga Keir Starmer. Resistir pode ser coerente com valores e com uma opinião pública espanhola crescentemente desconfiada de Washington sob Trump – muitos em Espanha ainda recordam o apoio norte-americano ao franquismo.
Mas também é evidente que a convicção moral sem alianças sólidas transforma-se rapidamente em isolamento estratégico. A política é feita de escolhas imperfeitas. As decisões de Sánchez são questionáveis. Contudo, no confronto com Trump, foi ele quem traçou a fronteira. Talvez não por infalibilidade, mas por cálculo. Percebeu que as chamadas cedências tácitas de soberania não passam de um artifício semântico, um véu a encobrir a velha e crua vassalagem.
Os Estados Unidos podem até ganhar guerras que não conseguem explicar porque começaram. Mas o repúdio de um ataque desprovido de legitimidade jurídica não pode, nem deve, toldar a clareza estratégica de países como Portugal ou Espanha. Recusar a ilegalidade não equivale a abdicar de responsabilidade. É nesse equilíbrio exigente, entre princípio e prudência, que se mede a consistência de uma política externa. Não é expectável que um Estado soberano tome posição sobre uma guerra? Que condene um ataque a uma escola, esteja ela em Teerão ou Kiev?
A administração Trump derrubou dois chefes de Estado em dois meses – é suposto aplaudirmos decapitações? Os objetivos nucleares poderiam ter sido alcançados através de negociações, a oposição poderia ter sido gradualmente fortalecida, o regime paulatinamente enfraquecido.
Mas escolheu-se o bombardeamento, que aliado ao corte da internet, dificulta ainda mais um hipotético levantamento civil. A hostilidade ao regime persiste, mas a dissidência recolheu-se ao espaço privado à medida que as explosões substituíram os slogans. Sob fogo, com um aparelho de segurança resiliente, um poder exausto reencontra propósito. O antiamericanismo e o ódio a Israel recuperaram vigor como instrumentos de coesão que tinham recentemente perdido. As restrições impostas às forças armadas evaporam-se e os sectores mais duros ganham terreno. Fala-se cada vez menos de transição controlada ou de reaproximação a Washington e cada vez mais de continuidade ideológica como reflexo instintivo de sobrevivência do regime.
O nome de Alireza Arafi surgia como uma solução possível. O neto de Khomeini, visto como uma hipótese mais moderada. Mas será Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo, quem já é dado como praticamente certo suceder ao pai no topo do regime iraniano. Mais do que uma transição familiar no Irão, o que se desenha é um desafio: estabilidade interna e firmeza ideológica que recusa qualquer leitura de fraqueza explorável desde dentro ou desde fora. A guerra não desfez o regime, fechou-o. A democracia não emergirá pela decapitação, por mais legítimo que seja o desejo de depor uma teocracia que escolheu como inimigo o seu próprio povo.
Mas já não está em causa apenas a justiça da posição assumida no Irão. O que se discute é se a Europa pretende perdurar como museu regulatório e mercado à mercê do Presidente dos Estados Unidos, ou se ambiciona finalmente deixar de ser um mero apêndice. Uma postura coordenada sobre o uso das bases militares poderia obrigar os Estados Unidos a reler a própria arquitetura da aliança transatlântica, deslocando-a de uma lógica de tutela para um equilíbrio mais exigente, onde a União Europeia deixaria de estar na periferia estratégica para se afirmar como ator com voz e vontade próprias no palco internacional.
A futebolização da política externa atingiu um nível tão absurdo que quem condena o bombardeio de uma escola ou desconfia das intenções do Presidente dos Estados Unidos é rapidamente acusado de ser pró-aiatolas ou de ser um purista do direito internacional, seja lá o que isso for. A diplomacia não tem estados de espírito. De acordo. Mas, para existir uma política externa digna desse nome, é preciso primeiro ter algo em que acreditar – e algo a defender.