Mesmo aqueles que se infiltram em cada casa e cada pensamento podem ser derrotados, não apenas por golpes decisivos, mas por cortes lentos e impercetíveis que corroem o poder
O medo tornou-se uma paisagem permanente em Teerão. Drones cruzam o céu, enquanto famílias se amontoam diante das morgues, procurando sinais de vida. A cidade é um purgatório contínuo. Mas não para todos. Muitos celebraram ontem os quarenta e sete anos da revolução que depôs o Xá, jurando fidelidade a um regime que esmaga qualquer vestígio de dissidência, que governa não pela fé, mas pelo terror. Entre números confirmados e estimativas que ascendem a dezenas de milhares de vítimas, o ódio substitui o medo. O eterno retorno da violência alimenta uma lógica de vingança que se propaga pelas ruas.
Mas a crise não é apenas securitária. A economia está em coma. O rial desvalorizou 84 % num ano, a inflação ultrapassa 50% e um terço da população vive abaixo da linha da pobreza. Serviços essenciais e agricultura minguam, enquanto a construção, controlada por empresas militares, prospera. A Guarda Revolucionária (IRGC) domina petróleo, bancos e saúde, perpetuando uma economia de privilégios. O colapso do banco Ayandeh não foi apenas um choque financeiro: confirmou a falência multiorgânica de um aparelho de poder obsoleto. Pequenas fissuras tornam-se visíveis. Os protestos persistem, apesar de drones, blackouts e forças paramilitares.
Neste cenário, surge Reza Pahlavi, do exílio para as avenidas. Durante décadas ignorado ou ridicularizado, a sua imagem irrompe entre velhos e jovens. Greves dispersas transformam-se em manifestações massivas, evocando figuras como Narges Mohammadi – mais uma vez condenada – e Shirin Ebadi. Entre gritos de “Javid Shah” e apelos à liberdade, os iranianos insurgem-se não apenas contra os Aiatolas, mas contra décadas de impotência económica e política.
Pahlavi apresenta-se como líder transitório. Propõe afastar oficiais corruptos, integrar o IRGC no exército regular, manter os serviços públicos e a polícia, evitar purgas e organizar um referendo entre monarquia e república parlamentar. Defende a diplomacia com Israel – uma espécie de Acordos de Abraão – em troca do abandono do programa nuclear e alívio das sanções. O seu objetivo é criar uma massa crítica interna capaz de desmontar o núcleo do regime.
O plano, racional, choca com uma realidade fragmentada. Minorias étnicas e religiosas não esquecem a repressão histórica. A oposição no exílio fala em múltiplas vozes. Unificar um país estilhaçado sem reincidir nos erros do passado é uma tarefa monumental. Setores populares, que antes juravam lealdade aos Aiatolas, aderem agora ao discurso monárquico ou antirreligioso.
Neste contexto, as vozes democráticas, sobretudo as moderadas, são silenciadas pela polarização. O centro político evapora-se, e com ele a possibilidade de compromisso. Resta uma sociedade comprimida entre a repressão do Estado e a fúria das ruas, onde a moderação deixou de ser virtude para se tornar vulnerabilidade.
Entretanto, Ali Khamenei tenta passar a mensagem de que mantém o controlo. Escudado por 190.000 Guardas Revolucionários e forças paramilitares Basij, prolonga o recolher obrigatório, bloqueia redes de comunicação e sufoca qualquer tentativa de resistência com uma brutalidade inédita. O velayat-e faqih, núcleo do regime desde 1979, torna qualquer reforma política impossível. Reformistas institucionais foram neutralizados. Líderes como Rouhani ou Mousavi, afastados ou detidos. As figuras capazes de conduzir o país a uma governação democrática foram sistematicamente marginalizadas. O sistema é estruturalmente incompatível com a democracia. Fortalecer o Estado mantendo a teocracia é impossível. A pressão ocidental falhou repetidamente: Khamenei apenas recuou taticamente.
Uma mudança de líder implica necessariamente uma alteração de regime. A queda resultará, provavelmente, de fraturas no sistema de segurança. Tentacular, defende-se mas não consegue apaziguar o povo nem conter todos os focos de dissensão. Pequenos atos de resistência acumulam fissuras. Manifestantes que resistem, lojistas que fecham, mulheres que dizem não: todos desgastam a autoridade absoluta. Kapuściński escreveria provavelmente que este é o princípio do fim. Mesmo governos que se infiltram em cada casa e cada pensamento podem ser derrotados, não por golpes de força, mas por cortes lentos e invisíveis que corroem o poder.
Enquanto o regime enfrenta erosão interna, Washington intensifica a pressão. Em Omã, os EUA voltaram a exigir o fim do enriquecimento de urânio, limites ao programa de mísseis e suspensão do apoio a proxies. Perante uma nova ronda, Teerão mostrou disponibilidade para discutir um eventual acordo nuclear, mas traçou uma linha vermelha quanto aos mísseis balísticos, apesar do Presidente dos EUA admitir enviar um segundo grupo de porta-aviões para a região.
Continuam três cenários em cima da mesa: ataques simbólicos contra o IRGC, uma ofensiva ampla para derrubar Khamenei ou uma operação híbrida. Uma decapitação política é complexa. Cada escolha implica riscos: retaliação iraniana, guerra regional ou imprevisibilidade estratégica. Um ataque aéreo dificilmente derrubaria os Aiatolas.
A região observa com apreensão. Trump transmitiu a Netanyahu que continua a acreditar num acordo. Arábia Saudita, Qatar, Omã e Egito ponderam as consequências humanitárias e militares, temendo retaliação iraniana com mísseis, drones ou aliados como os Houthis no Iémen. O Hezbollah está debilitado, Assad foi afastado. Mas o Irão ainda possui milhares de mísseis de médio e longo alcance e drones Shahed, capazes de atingir bases americanas e bloquear o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo.
A instabilidade não se limita às fronteiras internas ou externas. A sociedade iraniana radicaliza-se. Divisões étnicas, sociais e religiosas acentuam-se. O medo do passado, que sustentava a submissão, é substituído pela indignação e pelo desejo de vingança. Os protestos assumem um caráter de insurreição violenta e os ataques ao aparelho de governo multiplicam-se.
O país vive um contraste evidente: manifestações pró-regime promovidas pelo Estado contrapõem-se a protestos contra o líder supremo. O Irão de Khamenei mantém o poder pelo medo, mas os gritos contra a sua liderança ecoam cada vez menos em surdina.
Pahlavi, Trump, Khamenei, Netanyahu, o IRGC e os manifestantes formam um tabuleiro complexo. Cada movimento e decisão acarreta riscos de guerra regional, retaliação e caos. O futuro é uma equação sem soluções certas: reforma, decapitação ou derrocada. O Irão é mais do que um país à beira da mudança. É um espelho do que acontece quando o poder absoluto encontra o seu limite. Entre sangue, silêncio, interesses externos, exilados carismáticos e minorias esquecidas, surge a pergunta: quem reconstruirá o Irão?
O regime ainda se julga eterno. Mas a história ensina que nada resiste ao tempo, nem sistemas omnipresentes nem líderes que confiam apenas na força. Pequenos cortes acumulados, hesitações das elites e atos de coragem individuais podem, lentamente, alterar o destino de uma civilização. As ruas ensanguentadas representam apenas o primeiro ato. O segundo pode ser o colapso institucional, a fragmentação social, uma crise humanitária ou – idealmente – uma transição gradual para a democracia. É neste terreno instável que a esperança foi semeada, entre fraturas impercetíveis e coragem, onde o futuro do Irão se decidirá.
A revolução não é um momento, mas um processo – exige honestidade em relação ao poder e desconfiança perante a manipulação. Já dizia Marjane Satrapi, a revolução é como uma bicicleta: quando as rodas não giram, cai.