Em contrarrelógio: porque começou e para onde vai a guerra que Trump fez rebentar no Irão?

6 mar, 22:00
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O que é que Donald Trump pretende com a guerra que lançou há uma semana contra o Irão? Ainda as primeiras bombas não tinham caído em Teerão e noutras partes do país, numa operação conjunta dos EUA e Israel que arrancou no último sábado, e os argumentos invocados pela administração norte-americana já apontavam em várias direções. Iam da destruição do programa nuclear iraniano (que a mesma administração tinha garantido ter “obliterado” com a Guerra dos 12 Dias em junho) até à mudança de regime – e ao final de uma semana, com o Médio Oriente envolvido numa guerra regional que poucos desejavam e para a qual até a NATO já foi arrastada, a pergunta continua sem resposta.

  • Sobre o programa nuclear, Trump e a sua equipa pouco ou nada disseram ao longo da semana. Sobre a mudança de regime, o presidente americano disse na sexta-feira à CNN que não está preocupado se o Irão passa ou não a ser uma democracia e que não se opõe a que continue a ter um líder religioso – desde que seja ele, Trump, a escolhê-lo – isto depois de ter passado meses a prometer que ajudaria os manifestantes nas ruas a derrubar o regime teocrático dos aiatolas.

  • “Não tenho nada contra os líderes religiosos, lido com muitos líderes religiosos e são fantásticos”, disse Trump à CNN. Horas antes, dezenas de pastores evangélicos rodeavam o presidente na Sala Oval para o abençoar, depois de mais de 200 soldados americanos terem enviado queixas aos seus superiores pelo uso de retórica cristã extremista para justificar a guerra – segundo as chefias militares, foi-lhes pedido que dissessem às suas tropas que “tudo isto faz parte do plano divino de Deus”, com citações do Livro do Apocalipse referentes ao iminente retorno de Jesus Cristo.

  • Marco Rubio, o secretário de Estado de Trump, começou por assumir que a guerra começou porque Israel estava prestes a atacar o Irão e que isso iria pôr em risco as forças norte-americanas na região; um dia depois, como noticiou o New York Times, “recuou na sugestão” de que teriam sido os israelitas a forçar a mão de Washington. O Washington Post noticiou que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita também teria pressionado por ataques ao longo do último mês – uma informação desmentida de imediato pelos sauditas.

  • Desde sábado, a guerra já provocou mais de 1.300 mortos no Irão, na sua maioria civis, incluindo centenas de crianças, bem como dezenas de dirigentes religiosos e civis, à cabeça o aiatola Ali Khamenei, supremo líder do Irão desde 1989. Israel lançou uma nova ofensiva terrestre no Líbano. 

  • Em retaliação, Teerão fechou o Estreito de Ormuz e lançou ataques contra vários países da região que apoiam os EUA, incluindo Israel, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita. Também lançou um míssil balístico contra a Turquia, que foi travado pelos sistemas de defesa da NATO; mas, ao contrário do que chegou a ser noticiado, não atingiu o maior porta-aviões das forças americanas, nem foi o responsável pelo ataque a uma base britânica em Chipre, no coração da União Europeia.

  • A contragosto, Estados-membros da UE destacaram forças para o Mediterrâneo; o único a criticar abertamente a guerra, e de imediato ameaçado por Trump, foi Espanha, com Pedro Sánchez a garantir que os espanhóis não serão “cúmplices de algo mau para o mundo e contrário aos nossos valores e interesses apenas por medo de represálias de alguém”.

  • Num dos ataques retaliatórios do Irão, que teve como alvo um centro de operações dos EUA improvisado no Kuwait, morreram seis soldados norte-americanos; no espaço de horas, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, veio acusar os jornalistas de quererem pôr Trump a “fazer má figura” por noticiarem essas mortes. O mesmo Pete Hegseth conseguiu dizer uma coisa e o seu contrário sobre até quando é que esta guerra vai durar – dizendo que EUA e Israel vão deter o controlo do espaço aéreo iraniano “em poucos dias”, mas que a guerra pode arrastar-se por semanas. Um memorando interno do Pentágono consultado pelo POLITICO aponta mais para a frente, prevendo a possibilidade de a guerra durar pelo menos até setembro.

  • Não será preciso esperar por setembro para sentir os efeitos desta guerra. Com o fecho do Estreito de Ormuz, os preços do petróleo dispararam – a partir de segunda-feira, quando for abastecer o seu carro, prepare-se para pagar mais 7 a 20 cêntimos por litro de combustível. O próprio Trump, que numa carta ao Congresso admitiu que não sabe qual a direção deste conflito, assumiu esta semana que os consumidores norte-americanos vão sentir o impacto da guerra nos bolsos.

  • Numa guerra dominada por drones e Inteligência Artificial, as esperanças de alguns estão depositadas nos curdos, o maior povo sem Estado, que por ora dizem que não vão avançar Irão adentro apenas armados com AK47 - e que a CIA tem estado a armar, como noticiado pela CNN. “Não é uma questão de horas ou dias”, disse um membro das guerrilhas curdas à Reuters. “[Os combatentes] não podem mover-se se o céu não estiver limpo. Precisamos de ver os reservatórios de armas [do regime] destruídos; caso contrário, seria suicida.”

  • Para acompanhar a cobertura diária da CNN Portugal, pode explorar as últimas edições da newsletter Admirável Mundo Trump. Também recomendamos o podcast diário Fúria Épica, para entender os meandros de um conflito sem fim à vista. Vale ainda a pena ler as conversas que a CNN manteve ao longo da semana com duas jovens iranianas que continuam no país, à espera de ver o regime teocrático cair; sai na manhã de sábado.

Leia mais na edição semanal da newsletter Admirável Mundo Trump da CNN

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