ANÁLISE || Governo teocrático do Irão reprime protestos furiosos mas controlo do poder parece frágil
À medida que os protestos furiosos entram na terceira semana e levam o Irão à beira da mudança, o governo teocrático do país tenta sobreviver reprimindo duramente as manifestações cada vez mais amplas.
O clero governante do Irão já muitas vezes antes enfrentou grandes protestos. Mas o controlo do poder pelo regime de longa duração parece agora mais frágil do que nunca, à medida que o crescente movimento de oposição exige mudanças substanciais.
Os protestos centraram-se inicialmente em queixas económicas, mas evoluíram entretanto para um movimento mais amplo contra o regime que há décadas controla o Irão.
"Há má gestão sistémica, corrupção e repressão. É por isso que as pessoas querem que a República Islâmica desapareça", afirma Holly Dagres, investigadora sénior do Washington Institute, à CNN.
Enquanto o regime enfrenta uma pressão interna crescente por parte de manifestantes indignados, o presidente dos EUA, Donald Trump, acrescentou a sua própria voz de advertência à liderança iraniana.
Trump expressou repetidamente o seu apoio ao movimento de protesto e pediu o fim do regime islâmico do Irão, há muito adversário dos EUA.
"O Irão está a olhar para a LIBERDADE, talvez como nunca antes», publicou Trump nas redes sociais no sábado. "Os EUA estão prontos para ajudar!!!"
O presidente norte-americano está a ponderar uma série de opções militares potenciais no Irão, mas ainda não tomou uma decisão final sobre como a intervenção dos EUA se poderá manifestar, segundo explicam autoridades americanas à CNN.
"Parece que algumas pessoas que não deveriam ter sido mortas foram mortas", disse Trump aos jornalistas este domingo à noite, a bordo do Air Force One. "Eles são violentos, se é que se pode chamá-los de líderes. Não sei se os seus líderes governam apenas através da violência, mas estamos a analisar isso com muita seriedade."
"Os militares estão a analisar a situação e estamos a considerar algumas opções muito fortes. Tomaremos uma decisão", disse Trump.
Mas alguns analistas alertam que uma intervenção militar dos EUA pode ter um impacto limitado.
"O regime é frágil, mas está brutalmente intacto", detalha HA Hellyer, membro sénior do Royal United Services Institute (RUSI), à CNN.
Crise económica
Ao longo dos anos, o Irão tem visto ondas de protestos que resultaram em poucas mudanças sociais ou políticas. Mas agora a raiva está a aumentar, à medida que os iranianos desafiadores ficam cada vez mais cansados e impacientes.
Desde que chegou ao poder em 1989 — uma década após uma grande revolução ter derrubado o autoritário xá do Irão, apoiado pelos EUA, e dado início à República Islâmica —, o líder supremo ayatollah Ali Khamenei tem enfrentado uma série de desafios políticos e de segurança.
Khamenei manteve o apoio de alguns leais e instituições estatais, mas as suas políticas repressivas têm encontrado um apoio público cada vez menor.
A frustração com a economia em dificuldades do Irão tem aumentado. O Irão continua a enfrentar pesadas sanções internacionais, incluindo a reativação das chamadas sanções “snapback” relacionadas com o seu programa nuclear.
Os líderes dos países que impuseram sanções costumam dizer que as medidas têm como objetivo pressionar o governo e os líderes do Irão.
No entanto, investigadores afirmam que as sanções ocidentais também prejudicaram a classe média iraniana — base do movimento de reforma do país —, que vê poucas oportunidades de crescimento económico.
Ao mesmo tempo, a liderança iraniana está numa situação vulnerável depois de vários dos seus pontos de influência terem sido neutralizados.
Os ataques israelitas enfraqueceram os grupos armados regionais aliados do Irão, como o Hamas e o Hezbollah, enquanto os ataques dos EUA causaram danos significativos ao programa nuclear do país, no qual o governo gastou milhares de milhões para desenvolver.
O Irão também perdeu um aliado crucial quando o presidente sírio Bashar al-Assad foi deposto em dezembro de 2024.
Esses acontecimentos levaram a uma "situação insustentável para a República Islâmica", explica Dagres.
"Agora, eles estão a lidar com essas questões externas e internas com um sentimento antirregime historicamente alto que não desaparecerá até que este regime seja derrubado", acrescenta Dagres.
No meio da desordem, o regime recorreu a um manual familiar de repressão à dissidência.
Milhares foram presos e centenas mortos quando as forças de segurança reprimiram violentamente os protestos, informou a organização Human Rights Activists in Iran.
O Irão também impôs cortes generalizados na Internet e nas comunicações telefónicas durante os protestos, limitando a visibilidade da situação no terreno.
Com poucas opções, o regime está a envidar esforços para reforçar o seu apoio.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, exortou os cidadãos do seu país a não se juntarem ao que chamou de "amotinados e terroristas" que participam em manifestações em todo o Irão.
Pezeshkian atribuiu a responsabilidade pelos distúrbios a "terroristas" ligados ao estrangeiro, que, segundo ele, estão a incendiar bazares, mesquitas e locais de culto.
"Se as pessoas têm preocupações, é nosso dever resolvê-las, mas o dever maior é não permitir que um grupo de manifestantes venha perturbar toda a sociedade", afirmou num discurso televisionado no sábado.
Aparato de segurança intacto
A televisão estatal transmitiu imagens de partidários do regime a marchar em algumas cidades.
O governo convocou uma marcha nacional para esta segunda-feira em apoio ao regime e em oposição ao que as autoridades descreveram como atos recentes de profanação e insultos contra símbolos islâmicos, incluindo o Alcorão, por parte de manifestantes.
Mas qualquer resposta severa aos protestos poderá tornar o regime vulnerável a uma forte reação dos EUA e dos seus aliados.
No início deste mês, Trump advertiu que os EUA estão "prontos para agir" se o Irão matar manifestantes pacíficos.
Após a recente ação dos EUA na Venezuela e o assassinato de Qasem Soleimani, o principal general da guarda revolucionária do Irão, durante o primeiro mandato de Trump, o Irão é obrigado a considerar seriamente as ameaças de Trump, diz Ali Vaez, diretor do Projeto Irão do International Crisis Group, à CNN.
Mas a crescente rebeldia dos iranianos que marcham por todo o país pode representar uma ameaça existencial ainda maior ao regime.
"Pelo menos ter as suas próprias ruas sob o seu controlo é o que eles consideram essencial para a sua própria sobrevivência, mesmo que isso provoque um ataque dos EUA", afirma Vaez.
Hellyer, no entanto, observa que, por enquanto, o poderoso establishment de segurança do Irão permanece intacto.
"Não houve nenhuma deserção séria da elite ou da segurança até agora. E se não houver isso, então qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos provavelmente não será muito útil a curto e médio prazo."
"Há muito esvaziamento, é claro. Há graves desafios económicos, se não um colapso total. Há uma coligação de protesto muito ampla, é claro, mas [o regime] está unido e é mantido unido por forças muito coesas e coercivas», declara Hellyer.
O governo liderado por reformistas tentou aliviar a pressão económica oferecendo subsídios diretos em dinheiro de quase sete dólares seis euros por mês.
E alguns funcionários adotaram um tom conciliador ao responder aos distúrbios.
O ministro do Interior, Eskandar Momeni, disse que as forças de segurança mostram “máxima contenção”, mas admitiu que houve “algumas falhas”.
O responsável disse também, à televisão estatal, que um “futuro económico melhor” está reservado para os iranianos.
Em declarações televisivas no domingo, Pezeshkian disse aos manifestantes que o governo "deve ouvir os vossos protestos e responder às vossas preocupações".
A oposição, que tem apelado fervorosamente a uma mudança de regime, pode considerar que este é o momento certo para tal iniciativa, numa altura em que a liderança parece vulnerável à pressão externa.
Fotografia no topo: o líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, fala durante uma reunião em Teerão, Irão, a 3 de janeiro. Créditos: Gabinete do líder supremo iraniano via AP