Como Trump está a intensificar a pressão sobre o regime iraniano

CNN , Mitchell McCluskey
12 jan, 09:27
Nesta foto divulgada pelo site oficial do gabinete do líder supremo iraniano, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei discursa numa reunião, em Teerão, Irão, no sábado, 3 de janeiro de 2026. (Gabinete do líder supremo iraniano via AP)

Como Trump está a intensificar a pressão sobre o regime iraniano

ANÁLISE || Governo teocrático do Irão reprime protestos furiosos mas controlo do poder parece frágil

À medida que os protestos furiosos entram na terceira semana e levam o Irão à beira da mudança, o governo teocrático do país tenta sobreviver reprimindo duramente as manifestações cada vez mais amplas.

O clero governante do Irão já muitas vezes antes enfrentou grandes protestos. Mas o controlo do poder pelo regime de longa duração parece agora mais frágil do que nunca, à medida que o crescente movimento de oposição exige mudanças substanciais.

Os protestos centraram-se inicialmente em queixas económicas, mas evoluíram entretanto para um movimento mais amplo contra o regime que há décadas controla o Irão.

"Há má gestão sistémica, corrupção e repressão. É por isso que as pessoas querem que a República Islâmica desapareça", afirma Holly Dagres, investigadora sénior do Washington Institute, à CNN.

Enquanto o regime enfrenta uma pressão interna crescente por parte de manifestantes indignados, o presidente dos EUA, Donald Trump, acrescentou a sua própria voz de advertência à liderança iraniana.

Trump expressou repetidamente o seu apoio ao movimento de protesto e pediu o fim do regime islâmico do Irão, há muito adversário dos EUA.

"O Irão está a olhar para a LIBERDADE, talvez como nunca antes», publicou Trump nas redes sociais no sábado. "Os EUA estão prontos para ajudar!!!"

O presidente norte-americano está a ponderar uma série de opções militares potenciais no Irão, mas ainda não tomou uma decisão final sobre como a intervenção dos EUA se poderá manifestar, segundo explicam autoridades americanas à CNN.

"Parece que algumas pessoas que não deveriam ter sido mortas foram mortas", disse Trump aos jornalistas este domingo à noite, a bordo do Air Force One. "Eles são violentos, se é que se pode chamá-los de líderes. Não sei se os seus líderes governam apenas através da violência, mas estamos a analisar isso com muita seriedade."

"Os militares estão a analisar a situação e estamos a considerar algumas opções muito fortes. Tomaremos uma decisão", disse Trump.

Mas alguns analistas alertam que uma intervenção militar dos EUA pode ter um impacto limitado.

"O regime é frágil, mas está brutalmente intacto", detalha HA Hellyer, membro sénior do Royal United Services Institute (RUSI), à CNN.

Crise económica

Ao longo dos anos, o Irão tem visto ondas de protestos que resultaram em poucas mudanças sociais ou políticas. Mas agora a raiva está a aumentar, à medida que os iranianos desafiadores ficam cada vez mais cansados e impacientes.

Desde que chegou ao poder em 1989 — uma década após uma grande revolução ter derrubado o autoritário xá do Irão, apoiado pelos EUA, e dado início à República Islâmica —, o líder supremo ayatollah Ali Khamenei tem enfrentado uma série de desafios políticos e de segurança.

Khamenei manteve o apoio de alguns leais e instituições estatais, mas as suas políticas repressivas têm encontrado um apoio público cada vez menor.

Iranianos reúnem-se e bloqueiam uma rua durante um protesto em Teerão, Irão, em 9 de janeiro de 2026. Khoshiran/AFP/Middle East Images/Getty Images

A frustração com a economia em dificuldades do Irão tem aumentado. O Irão continua a enfrentar pesadas sanções internacionais, incluindo a reativação das chamadas sanções “snapback” relacionadas com o seu programa nuclear.

Os líderes dos países que impuseram sanções costumam dizer que as medidas têm como objetivo pressionar o governo e os líderes do Irão.

No entanto, investigadores afirmam que as sanções ocidentais também prejudicaram a classe média iraniana — base do movimento de reforma do país —, que vê poucas oportunidades de crescimento económico.

Ao mesmo tempo, a liderança iraniana está numa situação vulnerável depois de vários dos seus pontos de influência terem sido neutralizados.

Os ataques israelitas enfraqueceram os grupos armados regionais aliados do Irão, como o Hamas e o Hezbollah, enquanto os ataques dos EUA causaram danos significativos ao programa nuclear do país, no qual o governo gastou milhares de milhões para desenvolver.

O Irão também perdeu um aliado crucial quando o presidente sírio Bashar al-Assad foi deposto em dezembro de 2024.

Esses acontecimentos levaram a uma "situação insustentável para a República Islâmica", explica Dagres.

"Agora, eles estão a lidar com essas questões externas e internas com um sentimento antirregime historicamente alto que não desaparecerá até que este regime seja derrubado", acrescenta Dagres.

No meio da desordem, o regime recorreu a um manual familiar de repressão à dissidência.

Milhares foram presos e centenas mortos quando as forças de segurança reprimiram violentamente os protestos, informou a organização Human Rights Activists in Iran.

O Irão também impôs cortes generalizados na Internet e nas comunicações telefónicas durante os protestos, limitando a visibilidade da situação no terreno.

Com poucas opções, o regime está a envidar esforços para reforçar o seu apoio.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, exortou os cidadãos do seu país a não se juntarem ao que chamou de "amotinados e terroristas" que participam em manifestações em todo o Irão.

Pezeshkian atribuiu a responsabilidade pelos distúrbios a "terroristas" ligados ao estrangeiro, que, segundo ele, estão a incendiar bazares, mesquitas e locais de culto.

"Se as pessoas têm preocupações, é nosso dever resolvê-las, mas o dever maior é não permitir que um grupo de manifestantes venha perturbar toda a sociedade", afirmou num discurso televisionado no sábado.

Aparato de segurança intacto

A televisão estatal transmitiu imagens de partidários do regime a marchar em algumas cidades.

O governo convocou uma marcha nacional para esta segunda-feira em apoio ao regime e em oposição ao que as autoridades descreveram como atos recentes de profanação e insultos contra símbolos islâmicos, incluindo o Alcorão, por parte de manifestantes.

Mas qualquer resposta severa aos protestos poderá tornar o regime vulnerável a uma forte reação dos EUA e dos seus aliados.

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian fala com Martha MacCallum, da Fox News Channel, durante uma entrevista em 25 de setembro de 2025, na cidade de Nova Iorque. John Lamparski/Getty Images

No início deste mês, Trump advertiu que os EUA estão "prontos para agir" se o Irão matar manifestantes pacíficos.

Após a recente ação dos EUA na Venezuela e o assassinato de Qasem Soleimani, o principal general da guarda revolucionária do Irão, durante o primeiro mandato de Trump, o Irão é obrigado a considerar seriamente as ameaças de Trump, diz Ali Vaez, diretor do Projeto Irão do International Crisis Group, à CNN.

Mas a crescente rebeldia dos iranianos que marcham por todo o país pode representar uma ameaça existencial ainda maior ao regime.

"Pelo menos ter as suas próprias ruas sob o seu controlo é o que eles consideram essencial para a sua própria sobrevivência, mesmo que isso provoque um ataque dos EUA", afirma Vaez.

Hellyer, no entanto, observa que, por enquanto, o poderoso establishment de segurança do Irão permanece intacto.

"Não houve nenhuma deserção séria da elite ou da segurança até agora. E se não houver isso, então qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos provavelmente não será muito útil a curto e médio prazo."

"Há muito esvaziamento, é claro. Há graves desafios económicos, se não um colapso total. Há uma coligação de protesto muito ampla, é claro, mas [o regime] está unido e é mantido unido por forças muito coesas e coercivas», declara Hellyer.

O governo liderado por reformistas tentou aliviar a pressão económica oferecendo subsídios diretos em dinheiro de quase sete dólares seis euros por mês.

E alguns funcionários adotaram um tom conciliador ao responder aos distúrbios.

O ministro do Interior, Eskandar Momeni, disse que as forças de segurança mostram “máxima contenção”, mas admitiu que houve “algumas falhas”.

O responsável disse também, à televisão estatal, que um “futuro económico melhor” está reservado para os iranianos.

Em declarações televisivas no domingo, Pezeshkian disse aos manifestantes que o governo "deve ouvir os vossos protestos e responder às vossas preocupações".

A oposição, que tem apelado fervorosamente a uma mudança de regime, pode considerar que este é o momento certo para tal iniciativa, numa altura em que a liderança parece vulnerável à pressão externa.

 

Fotografia no topo: o líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, fala durante uma reunião em Teerão, Irão, a 3 de janeiro. Créditos: Gabinete do líder supremo iraniano via AP

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