Teerão encontra-se entre a espada e a parede. Nos próximos dias, o regime teocrático deve reunir-se com uma delegação norte-americana em Omã para negociações, incluindo nucleares, uma cedência inédita desde a chamada Guerra dos Doze Dias, quando EUA e Israel lançaram ataques cirúrgicos contra centrais iranianas em junho. Não é, contudo, certo o que estará em cima da mesa nem o que poderá sair dos encontros, ressalta Samuele Abrami, investigador do Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona, à CNN. Ao final desta quarta-feira, depois da entrevista, o Axios noticiou que as negociações nucleares estão em risco de colapsar ainda antes de arrancarem
Num artigo publicado esta semana diz que “a questão preocupante deixou de ser se Washington vai agir, mas quando é que as condições que considera aceitáveis irão alinhar-se” para uma potencial ação. O que o leva a considerar isso? E mantém essa opinião perante as notícias de negociações iminentes entre os EUA e o Irão?
Basicamente, o que nós queríamos frisar nesse artigo é que tudo pode acontecer. Na altura da Guerra dos Doze Dias havia negociações em curso em Genebra, os europeus estavam envolvidos nelas também, e no final do dia os EUA decidiram atacar à mesma. Não parece haver uma estratégia clara da parte da administração norte-americana, é uma abordagem mais de ‘esperar para ver’, mas mantendo sempre abertura para agir de uma forma diferente. E portanto é impossível fechar uma ou outra porta quanto às opções que possam estar em cima da mesa.
Fala-se muito de uma possível ação militar, mas até isso pode significar todo e qualquer tipo de ação – pode ser um ataque estratégico, um ataque espetacular, um ataque momentâneo ou um mais simbólico. Por outro lado, os Estados Unidos também podem estar a planear forçar uma mudança de regime, ou pelo menos forçar o colapso do regime atual. Os esforços de paz – não quero chamar-lhe esforços de paz, mas os esforços para reduzir as tensões – não são claros.
O que diria que podemos então esperar destas negociações?
As posições dos diferentes atores são desequilibradas e as condições que os Estados Unidos estão a impor tornam difícil um cenário em que todos saem a ganhar. Por um lado, estamos diante de uma abordagem muito ao estilo Trump, de diplomacia através da força, impondo todo o tipo de condições, das mais clássicas às mais duras, em relação a Teerão, em relação ao resto da região, quanto ao chamado eixo da resistência, e exigindo que o Irão reduza as suas capacidades balísticas, para além da questão do programa nuclear.
Por outro lado, temos a posição iraniana e também a posição regional, não apenas do Irão mas também da Turquia e do Catar, a tentarem impor os seus termos, e existem claras diferenças entre eles. Para o Irão, as negociações nucleares são no sentido de alcançar um compromisso, não necessariamente para abdicar do enriquecimento de urânio, o que, por outro lado, é uma linha vermelha para os EUA, nesse ponto os EUA são mais taxativos.
Nestas negociações, o que vemos é os EUA a apresentarem condições que são insustentáveis ou inaceitáveis para o Irão. Agora, com o Irão à mesa, a questão final é: um possível acordo terá a ver com quê? Os EUA sabem o que querem? Ou será tudo isto só uma desculpa para poderem manter todas as opções em aberto?
Do ponto de vista regional, também devemos olhar para Israel, que segundo algumas fontes tem pressionado Trump para intervir no Irão.
Essa é a outra questão: sendo o maior aliado regional dos EUA, Israel quer um acordo nuclear? E para além disso, ainda há a situação interna no Irão, dentro do Irão e dentro do regime, onde parece haver algumas divisões quanto a um possível acordo nuclear. De um lado, as fações reformistas mais moderadas, especialmente no seio do governo, podem estar mais dispostas a aceitar um acordo, mas do outro lado, temos as fações mais radicais do regime, para quem qualquer tipo de acordo sobre o programa nuclear que favoreça os interesses dos EUA é visto como uma derrota.
Será difícil para o Irão capitular, mas também apresentar isto como uma vitória. Até porque aceitar um acordo nos termos norte-americanos pode ser visto pelos manifestantes mobilizados nas ruas como um sinal de que o regime já não é forte, tal como a possibilidade real de um ataque pode enfraquecer e minar o regime.
Voltando aos interesses regionais: na última noite, o Axios noticiou que os iranianos pediram para mudar o local dos encontros com os norte-americanos, que inicialmente estavam marcados para a Turquia mas que agora vão ter lugar em Omã. Que leitura pode ser feita disto?
É uma ótima pergunta. Morei muitos anos na Turquia, então tenho alguma experiência e conhecimento do país e da sua posição. Por um lado, claro, a Turquia já fazia parte dos interesses, já tinha desempenhado um papel no passado recente, mas do ponto de vista do Irão, a posição da Turquia é hoje vista como um risco. A prioridade dos turcos é evitar qualquer tipo de escalada, qualquer tipo de confronto direto ou guerra que prejudique ainda mais a estabilidade, ou instabilidade, regional. E nesse aspeto a posição da Turquia acaba por ser vista como mais próxima e mais favorável aos EUA.
Agora, questionando porquê Omã e não a Turquia, algumas fontes dizem que, ao mudar o local, as autoridades iranianas também estão a tentar, de alguma forma, excluir as outras potências regionais. Omã é mais neutro em assuntos regionais, tem uma posição diferente em comparação com outros países. E nesse sentido o Irão pode estar a tentar desvincular estas negociações da dinâmica regional mais ampla – não excluindo a Turquia, o Catar e outros países da mesa de negociações, mas pelo menos sinalizando que estão sentados em Omã e não na Turquia, para que a Turquia tenha menos influência.
Os protestos continuam em curso no Irão desde o final de dezembro, os manifestantes continuam a ser reprimidos e o apagão cibernético imposto pelas autoridades continua a dificultar o rastreamento e acompanhamento da situação no terreno, onde haverá já milhares de mortos. Há um mês, Trump disse aos manifestantes que “a ajuda vai a caminho”, mas nada aconteceu. Como é que isto pode ou não ser afetado pelas negociações?
Acho que, ultimamente, a situação mudou. No início dos protestos, Trump fez uma promessa que não podia cumprir, ou pelo menos os EUA pensaram que os protestos iam minar o regime muito mais, de uma forma muito mais ampla, mas com a escalada militar, a opção de abalar o regime por via dos manifestantes nas ruas provou-se pouco viável. Infelizmente, e lamento muito dizê-lo, essa ideia inicial, a hipótese de apoio externo dos EUA e da comunidade internacional [aos manifestantes], está a dissipar-se, as esperanças estão a esvair-se.
Além disso, sou muito cético em relação a toda a população do Irão aceitar o que quer que seja imposto a partir de fora. Depois dos ataques da Guerra dos Doze Dias, o que vimos foi os iranianos a unirem-se em torno da bandeira, foi muito além de apoiarem ou não apoiarem o regime. Claro que a situação hoje é diferente, a probabilidade de o regime mudar é outra, mas a ideia forte é que, contas feitas, independentemente do custo, de qualquer fator ou variável que possa ou não ser aceitável, os iranianos vão lidar com isso internamente.
Por enquanto, o regime tem-se provado muito mais resiliente do que se antecipava, embora, para fins internacionais e também domésticos, precise de encontrar uma saída... Só que um interesse mais amplo dos EUA na região também pode ser apresentado como uma derrota para o regime, independentemente de ele cair ou não. Os EUA podem dizer ‘OK, este é o acordo que preparámos, pressionamos muito e o regime aceitou o nosso acordo’ – o regime tem medo de perder o poder.
Tem havido comparações entre o que pode vir a acontecer no Irão e o que aconteceu na Venezuela há um mês, a começar com as movimentações militares norte-americanas. Os EUA passaram meses a enviar navios e a montar uma armada no Caribe antes de intervir na Venezuela da noite para o dia e agora vemos algo semelhante a acontecer no Médio Oriente. Há alguma comparação entre os dois casos, considerando o quão diferentes são as situações, os países e até as regiões?
As comparações são muito limitadas e dizem apenas respeito a essa questão da preparação militar, dos sinais vindos de Washington e desta demonstração de força. Isto não é uma questão secundária, obviamente, mas dito isto, o sistema iraniano e o próprio Irão não são a Venezuela.
As capacidades militares iranianas, no final de contas, são diferentes. E na Guerra dos Doze Dias não só foram muito pouco atingidas como as forças militares iranianas provaram ter capacidade de contra-atacar, bem como de ativar os seus 'proxies' regionais, apesar de estes estarem agora mais fracos do que antes. As capacidades militares do Irão, o tamanho do país, o tamanho da população, são tudo fatores que não podem ser ignorados e que devemos ter em conta ao falar sobre um possível ataque militar dos EUA.