O verdadeiro teste ao acordo de Trump com o Irão só deverá chegar se os ataques pararem
Os combates de artes marciais mistos realizados na festa do 80.º aniversário do presidente dos EUA, Donald Trump, exibiram o poder da dominância e das vitórias inequívocas.
O evento na Casa Branca, sob céus tempestuosos, serviu de cenário extraordinário ao anúncio de Trump de que tinha alcançado um memorando de entendimento para pôr fim à guerra com o Irão.
Mas quaisquer paralelos que Trump estivesse a traçar com a sua própria marca de política baseada na força só iam até certo ponto, já que o impasse no Médio Oriente entre a superpotência norte-americana e o seu rival mais fraco carece da clareza de um nocaute aplicado no octógono instalado no relvado sul da Casa Branca.
O entendimento suspenderia os combates durante 60 dias, acabaria com o controlo iraniano sobre as rotas marítimas de petróleo no Estreito de Ormuz e colocaria um ponto final no bloqueio naval dos EUA. Está previsto entrar em vigor após uma cerimónia de assinatura na Suíça, na sexta-feira.
O vice-presidente JD Vance disse à Fox News que o acordo inclui uma garantia de que o Irão nunca produzirá, obterá ou comprará uma arma nuclear.
A notícia alimenta as esperanças de que a crise energética provocada pela guerra, que teve consequências económicas globais devastadoras, possa dissipar-se e aliviar a pressão sobre os consumidores.
Qualquer acordo para terminar um conflito — especialmente um que abalou a economia mundial, matou 13 militares norte-americanos, um número desconhecido de civis iranianos e voltou a colocar o Líbano na posição de ser apanhado nas guerras de outros — é um desenvolvimento bem-vindo.
Mas a escassez de detalhes e os termos já conhecidos deixam Trump perante três questões imediatas que irão determinar o futuro equilíbrio estratégico do Médio Oriente, o lugar desta guerra na História e a forma como tudo isto influenciará o legado presidencial de Trump:
► A reabertura do estreito e o fim do bloqueio significam apenas um regresso ao status quo anterior à guerra, uma vez que a questão nuclear continua por resolver?
► Trump está mais perto de alcançar um acordo nuclear superior ao pacto internacionalmente apoiado e monitorizado negociado pela administração Obama, que o Irão cumpria até Trump o abandonar durante o seu primeiro mandato?
► E, mais fundamentalmente, para além da redução da capacidade militar convencional do Irão, uma guerra que a maioria dos norte-americanos não queria e que desencadeou enormes dificuldades globais produziu resultados que justifiquem o seu custo?
Também se perfilam implicações a mais longo prazo — caso o memorando se mantenha — incluindo a forma como o Irão utilizará no futuro a influência demonstrada sobre o estreito e se procurará rentabilizar essa posição.
O fracasso dos EUA e de Israel, após a morte do anterior líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em destruir o regime iraniano — que se define pela hostilidade aos Estados Unidos e pretende eliminar o Estado judaico — parece igualmente anunciar futuras tensões capazes de reacender a guerra.
Dentro do Irão, se as condições de guerra abrandarem, a atenção voltará a centrar-se na questão de saber se o regime remanescente saiu profundamente enfraquecido pela guerra e pelo bloqueio norte-americano ou se, pelo contrário, a sua sobrevivência o fortaleceu e o preparou para uma nova era de repressão.
De forma mais ampla, o pós-guerra mostrará se a aposta de Trump na força militar foi eficaz ou se conduziu a mais uma humilhação dos EUA no Médio Oriente, alimentando a perceção — especialmente na China — de que o poder norte-americano está em declínio.
Razões para o optimismo de que a guerra pode terminar
Foi significativo que, após semanas de Trump anunciar acordos de paz aparentemente iminentes, o memorando de domingo tenha sido igualmente reconhecido pela República Islâmica.
“Muitos presidentes tentaram fazer a paz com o Irão, e todos falharam antes de mim”, declarou Trump nas redes sociais, numa aparente tentativa de construir uma narrativa de triunfo adequada ao ambiente festivo do seu aniversário.
Vance acrescentou: “O que o presidente realmente nos levou a fazer foi eliminar a ameaça nuclear iraniana. Isso está feito.”
É uma afirmação forte. Mas, se o optimismo do presidente e do vice-presidente for confirmado pelas futuras negociações e por um acordo final, Trump terá legitimidade para reclamar o mérito de resolver um confronto com o Irão que atormenta presidentes norte-americanos há quase 50 anos.
Essa validação histórica, contudo, ainda está distante.
A questão mais crítica — a que levou à guerra — é o futuro do programa nuclear iraniano e das suas reservas de urânio altamente enriquecido. Essa matéria foi deixada pelo memorando para negociações que prometem ser altamente complexas e tensas. O Irão tem afirmado repetidamente que não procura armas nucleares, pelo que uma nova garantia nesse sentido, por si só, vale pouco.
Houve também poucas referências por parte dos EUA à necessidade de limitar o apoio iraniano a grupos como o Hezbollah ou de travar os seus programas de mísseis e os esforços para reconstituir um arsenal reduzido pela guerra. Ambas são questões fundamentais para Israel e, se permanecerem por resolver, podem comprometer todo o entendimento.
Já surgem divergências sobre o significado do memorando
Estão já a surgir interpretações distintas sobre o alcance do acordo. Os EUA insistem que qualquer libertação de activos iranianos ou levantamento de sanções estará rigidamente ligado ao cumprimento dos compromissos por parte de Teerão. Já o Irão afirma que o período de 60 dias só começará quando Washington começar a libertar milhares de milhões de dólares em fundos congelados.
A desconfiança entre os dois países é tão profunda, e as tensões entre Israel e o Irão continuam tão elevadas, que será uma conquista significativa se o entendimento resistir até à assinatura de um acordo formal.
“Isto é essencialmente uma pausa temporária numa guerra aberta entre a América e o Irão. Vamos voltar a uma situação de guerra fria com o Irão”, afirmou Karim Sadjadpour, analista de assuntos globais da CNN.
“Mas não resolve o conflito. As questões mais difíceis foram adiadas para futuras negociações e não estou particularmente optimista de que sejam resolvidas num prazo de 60 dias”, acrescentou Sadjadpour, investigador sénior da Carnegie Endowment for International Peace, em declarações à CNN.
A desconfiança mútua que dificultou as negociações e poderá marcar as conversações futuras ficou evidente no domingo. Um responsável norte-americano revelou que o Irão atrasou o anúncio até depois da meia-noite em Teerão. A sequência permitiu ao Irão evitar qualquer associação ao aniversário de Trump, mas deu ao presidente norte-americano a possibilidade de apresentar o acordo como um presente de ocasião.
Esperanças de alívio económico podem reduzir a pressão política sobre Trump
O memorando reforçará o optimismo dos mercados de que um período de forte perturbação económica poderá estar a chegar ao fim, sobretudo se dezenas de petroleiros retidos no Golfo Pérsico durante meses puderem voltar a navegar.
O choque energético provocado pela guerra fez disparar os preços dos combustíveis em todo o mundo e contribuiu para o agravamento da inflação, aumentando as dificuldades financeiras enfrentadas por milhões de norte-americanos.
Ainda assim, os analistas alertam que, mesmo que o preço do petróleo comece a descer, serão necessários meses para reparar os danos causados nas cadeias de abastecimento e ultrapassar as consequências económicas. A intenção do Irão de cobrar taxas aos navios que atravessem o estreito é também um factor a considerar.
“Pode dizer-se que foi o Irão quem fechou o Estreito de Ormuz ou que foi o bloqueio dos EUA, mas, na realidade, foram as seguradoras”, afirmou Tom Kloza, principal analista energético da Gulf Oil, à CNN. “Enquanto não estiverem plenamente confiantes de que o tráfego marítimo será seguro, poderão recusar segurar alguns destes navios gigantes.”
Politicamente, Trump precisa que os efeitos se façam sentir rapidamente. Se os preços do petróleo baixarem, os combustíveis poderão acompanhar essa tendência, aliviando parte da pressão causada pela inflação. A incapacidade do presidente em cumprir a promessa eleitoral de 2024 de reduzir os custos da alimentação e da habitação prejudicou a sua posição junto de segmentos decisivos do eleitorado.
Os líderes republicanos, que já temiam perder o controlo da Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de novembro, enfrentam agora também uma batalha potencialmente difícil para manter o Senado.
Os republicanos alegaram que Trump foi retirado do contexto quando afirmou na semana passada que “adora a inflação”, mas a frase foi politicamente imprudente, independentemente da intenção, reforçando a imagem de um presidente indiferente às dificuldades financeiras dos norte-americanos.
Ainda assim, é discutível que Trump consiga retirar grandes benefícios políticos por terminar uma guerra que, segundo as sondagens, a maioria dos norte-americanos rejeitava e que ele próprio teve dificuldade em justificar. Isso torna o sucesso das negociações sobre o programa nuclear iraniano — e a eficácia do memorando alcançado no domingo — ainda mais importante para demonstrar que os norte-americanos obtiveram algo em troca dos sacrifícios feitos.
Teerão, porém, demonstrou ao longo do conflito — iniciado em fevereiro — que compreende a pressão política enfrentada por Trump em casa, e tem um longo historial de prolongar negociações.
Os democratas procurarão associar as mensagens públicas frequentemente erráticas de Trump sobre o Irão, bem como o incumprimento da promessa de não iniciar novas guerras no estrangeiro, à ansiedade económica que pesa sobre muitas famílias norte-americanas.
Adam Smith, principal democrata na Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Representantes, afirmou à CNN que terminar uma guerra com um impacto tão devastador no mundo era “algo muito positivo”. Mas argumentou que o conflito “não alcançou nada para os Estados Unidos. (...) Estamos exactamente onde estávamos a 27 de fevereiro, mas numa situação pior porque agora discutimos a reabertura do Estreito de Ormuz. Isso demonstra a insensatez de ter iniciado esta guerra.”
O facto de Trump estar a celebrar um acordo cujas primeiras medidas consistem simplesmente em reabrir o Estreito de Ormuz — que estava aberto antes da guerra — enfraquece os esforços da Casa Branca para apresentar uma grande vitória política.
E a subestimação, por parte da administração norte-americana, da disposição do Irão para fechar o estreito — algo que praticamente todos os especialistas e antigos responsáveis de política externa em Washington consideravam inevitável — levanta dúvidas sobre uma cultura de governação em que os palpites arriscados de Trump raramente são contrariados.
A História poderá chegar a uma conclusão diferente se as próximas semanas de negociações com o Irão conduzirem ao fim verificável das suas ambições nucleares. Mas o acordo alcançado no domingo, por si só, ainda não representa a vitória inequívoca nem a saída definitiva da guerra que Trump procura.
