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As maiores dúvidas que o acordo de Trump com o Irão deixa por esclarecer

CNN , Análise Stephen Collinson
15 jun, 09:53
O presidente dos EUA, Donald Trump, e Dana White, presidente e diretor executivo do UFC, chegam ao evento UFC Freedom 250, no Jardim Sul da Casa Branca, no domingo, 14 de junho de 2026, em Washington. (AP Photo/Mark Schiefelbein)
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O verdadeiro teste ao acordo de Trump com o Irão só deverá chegar se os ataques pararem

Os combates de artes marciais mistos realizados na festa do 80.º aniversário do presidente dos EUA, Donald Trump, exibiram o poder da dominância e das vitórias inequívocas.

O evento na Casa Branca, sob céus tempestuosos, serviu de cenário extraordinário ao anúncio de Trump de que tinha alcançado um memorando de entendimento para pôr fim à guerra com o Irão.

Mas quaisquer paralelos que Trump estivesse a traçar com a sua própria marca de política baseada na força só iam até certo ponto, já que o impasse no Médio Oriente entre a superpotência norte-americana e o seu rival mais fraco carece da clareza de um nocaute aplicado no octógono instalado no relvado sul da Casa Branca.

O entendimento suspenderia os combates durante 60 dias, acabaria com o controlo iraniano sobre as rotas marítimas de petróleo no Estreito de Ormuz e colocaria um ponto final no bloqueio naval dos EUA. Está previsto entrar em vigor após uma cerimónia de assinatura na Suíça, na sexta-feira.

O vice-presidente JD Vance disse à Fox News que o acordo inclui uma garantia de que o Irão nunca produzirá, obterá ou comprará uma arma nuclear.

A notícia alimenta as esperanças de que a crise energética provocada pela guerra, que teve consequências económicas globais devastadoras, possa dissipar-se e aliviar a pressão sobre os consumidores.

Qualquer acordo para terminar um conflito — especialmente um que abalou a economia mundial, matou 13 militares norte-americanos, um número desconhecido de civis iranianos e voltou a colocar o Líbano na posição de ser apanhado nas guerras de outros — é um desenvolvimento bem-vindo.

Mas a escassez de detalhes e os termos já conhecidos deixam Trump perante três questões imediatas que irão determinar o futuro equilíbrio estratégico do Médio Oriente, o lugar desta guerra na História e a forma como tudo isto influenciará o legado presidencial de Trump:

► A reabertura do estreito e o fim do bloqueio significam apenas um regresso ao status quo anterior à guerra, uma vez que a questão nuclear continua por resolver?

► Trump está mais perto de alcançar um acordo nuclear superior ao pacto internacionalmente apoiado e monitorizado negociado pela administração Obama, que o Irão cumpria até Trump o abandonar durante o seu primeiro mandato?

► E, mais fundamentalmente, para além da redução da capacidade militar convencional do Irão, uma guerra que a maioria dos norte-americanos não queria e que desencadeou enormes dificuldades globais produziu resultados que justifiquem o seu custo?

Também se perfilam implicações a mais longo prazo — caso o memorando se mantenha — incluindo a forma como o Irão utilizará no futuro a influência demonstrada sobre o estreito e se procurará rentabilizar essa posição.

O fracasso dos EUA e de Israel, após a morte do anterior líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em destruir o regime iraniano — que se define pela hostilidade aos Estados Unidos e pretende eliminar o Estado judaico — parece igualmente anunciar futuras tensões capazes de reacender a guerra.

Dentro do Irão, se as condições de guerra abrandarem, a atenção voltará a centrar-se na questão de saber se o regime remanescente saiu profundamente enfraquecido pela guerra e pelo bloqueio norte-americano ou se, pelo contrário, a sua sobrevivência o fortaleceu e o preparou para uma nova era de repressão.

De forma mais ampla, o pós-guerra mostrará se a aposta de Trump na força militar foi eficaz ou se conduziu a mais uma humilhação dos EUA no Médio Oriente, alimentando a perceção — especialmente na China — de que o poder norte-americano está em declínio.

Razões para o optimismo de que a guerra pode terminar

Foi significativo que, após semanas de Trump anunciar acordos de paz aparentemente iminentes, o memorando de domingo tenha sido igualmente reconhecido pela República Islâmica.

“Muitos presidentes tentaram fazer a paz com o Irão, e todos falharam antes de mim”, declarou Trump nas redes sociais, numa aparente tentativa de construir uma narrativa de triunfo adequada ao ambiente festivo do seu aniversário.

Vance acrescentou: “O que o presidente realmente nos levou a fazer foi eliminar a ameaça nuclear iraniana. Isso está feito.”

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, discursa durante uma reunião de gabinete na Casa Branca em 27 de maio de 2026. Win McNamee/Getty Images

É uma afirmação forte. Mas, se o optimismo do presidente e do vice-presidente for confirmado pelas futuras negociações e por um acordo final, Trump terá legitimidade para reclamar o mérito de resolver um confronto com o Irão que atormenta presidentes norte-americanos há quase 50 anos.

Essa validação histórica, contudo, ainda está distante.

A questão mais crítica — a que levou à guerra — é o futuro do programa nuclear iraniano e das suas reservas de urânio altamente enriquecido. Essa matéria foi deixada pelo memorando para negociações que prometem ser altamente complexas e tensas. O Irão tem afirmado repetidamente que não procura armas nucleares, pelo que uma nova garantia nesse sentido, por si só, vale pouco.

Houve também poucas referências por parte dos EUA à necessidade de limitar o apoio iraniano a grupos como o Hezbollah ou de travar os seus programas de mísseis e os esforços para reconstituir um arsenal reduzido pela guerra. Ambas são questões fundamentais para Israel e, se permanecerem por resolver, podem comprometer todo o entendimento.

Já surgem divergências sobre o significado do memorando

Estão já a surgir interpretações distintas sobre o alcance do acordo. Os EUA insistem que qualquer libertação de activos iranianos ou levantamento de sanções estará rigidamente ligado ao cumprimento dos compromissos por parte de Teerão. Já o Irão afirma que o período de 60 dias só começará quando Washington começar a libertar milhares de milhões de dólares em fundos congelados.

A desconfiança entre os dois países é tão profunda, e as tensões entre Israel e o Irão continuam tão elevadas, que será uma conquista significativa se o entendimento resistir até à assinatura de um acordo formal.

“Isto é essencialmente uma pausa temporária numa guerra aberta entre a América e o Irão. Vamos voltar a uma situação de guerra fria com o Irão”, afirmou Karim Sadjadpour, analista de assuntos globais da CNN.

“Mas não resolve o conflito. As questões mais difíceis foram adiadas para futuras negociações e não estou particularmente optimista de que sejam resolvidas num prazo de 60 dias”, acrescentou Sadjadpour, investigador sénior da Carnegie Endowment for International Peace, em declarações à CNN.

A desconfiança mútua que dificultou as negociações e poderá marcar as conversações futuras ficou evidente no domingo. Um responsável norte-americano revelou que o Irão atrasou o anúncio até depois da meia-noite em Teerão. A sequência permitiu ao Irão evitar qualquer associação ao aniversário de Trump, mas deu ao presidente norte-americano a possibilidade de apresentar o acordo como um presente de ocasião.

Esperanças de alívio económico podem reduzir a pressão política sobre Trump

O memorando reforçará o optimismo dos mercados de que um período de forte perturbação económica poderá estar a chegar ao fim, sobretudo se dezenas de petroleiros retidos no Golfo Pérsico durante meses puderem voltar a navegar.

O choque energético provocado pela guerra fez disparar os preços dos combustíveis em todo o mundo e contribuiu para o agravamento da inflação, aumentando as dificuldades financeiras enfrentadas por milhões de norte-americanos.

Ainda assim, os analistas alertam que, mesmo que o preço do petróleo comece a descer, serão necessários meses para reparar os danos causados nas cadeias de abastecimento e ultrapassar as consequências económicas. A intenção do Irão de cobrar taxas aos navios que atravessem o estreito é também um factor a considerar.

“Pode dizer-se que foi o Irão quem fechou o Estreito de Ormuz ou que foi o bloqueio dos EUA, mas, na realidade, foram as seguradoras”, afirmou Tom Kloza, principal analista energético da Gulf Oil, à CNN. “Enquanto não estiverem plenamente confiantes de que o tráfego marítimo será seguro, poderão recusar segurar alguns destes navios gigantes.”

Um condutor abastece num posto de gasolina em Buffalo Grove, Illinois, a 8 de junho de 2026. Nam Y. Huh/AP

Politicamente, Trump precisa que os efeitos se façam sentir rapidamente. Se os preços do petróleo baixarem, os combustíveis poderão acompanhar essa tendência, aliviando parte da pressão causada pela inflação. A incapacidade do presidente em cumprir a promessa eleitoral de 2024 de reduzir os custos da alimentação e da habitação prejudicou a sua posição junto de segmentos decisivos do eleitorado.

Os líderes republicanos, que já temiam perder o controlo da Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de novembro, enfrentam agora também uma batalha potencialmente difícil para manter o Senado.

Os republicanos alegaram que Trump foi retirado do contexto quando afirmou na semana passada que “adora a inflação”, mas a frase foi politicamente imprudente, independentemente da intenção, reforçando a imagem de um presidente indiferente às dificuldades financeiras dos norte-americanos.

Ainda assim, é discutível que Trump consiga retirar grandes benefícios políticos por terminar uma guerra que, segundo as sondagens, a maioria dos norte-americanos rejeitava e que ele próprio teve dificuldade em justificar. Isso torna o sucesso das negociações sobre o programa nuclear iraniano — e a eficácia do memorando alcançado no domingo — ainda mais importante para demonstrar que os norte-americanos obtiveram algo em troca dos sacrifícios feitos.

Teerão, porém, demonstrou ao longo do conflito — iniciado em fevereiro — que compreende a pressão política enfrentada por Trump em casa, e tem um longo historial de prolongar negociações.

Os democratas procurarão associar as mensagens públicas frequentemente erráticas de Trump sobre o Irão, bem como o incumprimento da promessa de não iniciar novas guerras no estrangeiro, à ansiedade económica que pesa sobre muitas famílias norte-americanas.

Adam Smith, principal democrata na Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Representantes, afirmou à CNN que terminar uma guerra com um impacto tão devastador no mundo era “algo muito positivo”. Mas argumentou que o conflito “não alcançou nada para os Estados Unidos. (...) Estamos exactamente onde estávamos a 27 de fevereiro, mas numa situação pior porque agora discutimos a reabertura do Estreito de Ormuz. Isso demonstra a insensatez de ter iniciado esta guerra.”

O facto de Trump estar a celebrar um acordo cujas primeiras medidas consistem simplesmente em reabrir o Estreito de Ormuz — que estava aberto antes da guerra — enfraquece os esforços da Casa Branca para apresentar uma grande vitória política.

E a subestimação, por parte da administração norte-americana, da disposição do Irão para fechar o estreito — algo que praticamente todos os especialistas e antigos responsáveis de política externa em Washington consideravam inevitável — levanta dúvidas sobre uma cultura de governação em que os palpites arriscados de Trump raramente são contrariados.

A História poderá chegar a uma conclusão diferente se as próximas semanas de negociações com o Irão conduzirem ao fim verificável das suas ambições nucleares. Mas o acordo alcançado no domingo, por si só, ainda não representa a vitória inequívoca nem a saída definitiva da guerra que Trump procura.

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