Sanaz Zadegan tem 35 anos, é iraniana, vive em Portugal desde 1999 e não voltou ao Irão desde então. Quando fala de Ali Khamenei, não começa pela geopolítica nem pelo ataque. Começa pela infância. “A cara dele estava nos livros, tanto a dele como a do aiatola Khomeini. Aquilo foi sempre uma daquelas caras que tínhamos presentes em todo o lado como a fonte da repressão e a fonte de tudo o que era mal dentro do Irão.” Agora, perante a notícia da morte de Khamenei, Sanaz olha para a queda dessa figura-pilar como o princípio de outra luta: a da transição. Acredita que ela pode acelerar se a Artesh, o exército regular, romper com a Guarda Revolucionária, se colocar ao lado do povo e abrir caminho a uma liderança transitória de Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão e principal figura da oposição iraniana no exílio, seguida de um processo constitucional e referendado
A notícia entra antes da entrevista. O telefonema ainda mal começou e o plano inicial cai para segundo plano. Benjamin Netanyahu acabara de lançar a informação de que Ali Khamenei estaria morto. Vinda de Israel, com eco imediato nos órgãos de referência internacionais, a notícia impõe outra ordem às perguntas. Antes de qualquer recuo histórico, antes de qualquer discussão sobre o futuro do Irão, há uma questão mais urgente: o que significa, para os iranianos, a morte do homem que durante décadas encarnou o regime.
Sanaz Zadegan não hesita. Fala depressa, com a ideia ainda a ganhar forma enquanto responde, mas a frase sai inteira, sem rodeios. “Pelo menos dentro do Irão, e para os iranianos, é efetivamente a morte do Hitler. Aquela pessoa representava morte, representava medo, representava pobreza. Todas aquelas decisões que levaram o Irão a estar neste ponto da história, com colapso económico total e sem um lugar legítimo na comunidade internacional como um ator positivo. Era apenas um Estado patrocinador do terrorismo.”
Aos 35 anos, iraniana a viver em Portugal desde 1999, Sanaz fala de Khamenei não apenas como Líder Supremo da República Islâmica, mas como presença material de uma infância. Viveu no Irão até aos oito anos. Lembra-se dos manuais escolares, da iconografia do regime, da rotina diária de crescer com um rosto sempre presente. “Para nós, obviamente, é um momento histórico vermos cair uma figura que eu tinha nos meus livros quando estudava no Irão. A cara dele estava nos livros, tanto a dele como a do Ruhollah Khomeini, o primeiro aiatola. Aquilo foi sempre uma daquelas caras que tínhamos presentes em todo o lado como a fonte da repressão e a fonte de tudo o que era mal dentro do Irão.”
Na leitura de Sanaz Zadegan, a eventual morte de Khamenei não significa automaticamente o fim do regime. O sistema, diz, foi montado para sobreviver aos homens que o representam. Ainda assim, a queda de uma figura-pilar altera o equilíbrio interno do poder, mexe na cadeia de comando e, sobretudo, atinge o imaginário de quem foi educado para lhe prestar obediência. “Para mim é só isto: finalmente caiu uma das peças importantes do tabuleiro de xadrez; agora faltam os restos. E acho que esse sempre foi um dos objetivos destes ataques: atingir aquilo que é toda a alta patente, tanto do próprio regime como da Guarda Revolucionária e dos Basij.”
É aí que introduz uma das distinções que mais a preocupam. Os Basij, a milícia religiosa do regime, cresceram à sombra de Khamenei (e, antes, de Khomeini) como quem cresce debaixo de uma autoridade paternal e sagrada. A morte do líder pode abrir duas respostas contrárias. “Os Basij sempre olharam para Khamenei como o líder deles. Verem aquela figura paternal morta, uma figura com a qual cresceram a ser doutrinados, quase como se ele fosse a representação de Alá na Terra, pode culminar em duas coisas: uma é a raiva e ficarem ainda mais violentos na repressão; a outra é o medo e sentirem-se decapitados, dizendo ‘agora não temos líder’.” Mas há uma figura de sucessão no regime da República Islâmica: Ali Larijani, ex-presidente do parlamento iraniano e um dos nomes apontados há anos à continuidade do sistema. “E quem é o Larijani? Ele nem sequer é aiatola. Em termos religiosos, não tem significância nenhuma. Pode acontecer que, com isto, a cabeça da cobra dos Basij tenha sido decapitada.”
A conversa segue então para o ponto em que a guerra aérea se cruza com a política interna. Donald Trump anunciou uma campanha militar “maciça e contínua”, mas aquilo que o mundo viu foram ataques cirúrgicos, sem tropas no terreno. No discurso do presidente norte-americano, a ausência de "boots on the ground" é compensada por um apelo direto aos próprios iranianos e às forças militares do país: terminem vocês o trabalho. A questão é saber se isso é realista num regime que respondeu às últimas vagas de contestação com repressão em massa.
Sanaz Zadegan acredita que a ausência de tropas estrangeiras não torna impossível uma mudança, desde que uma peça se mova dentro do próprio aparelho do Estado: a Artesh, o exército regular. “Há uma coisa muito importante no discurso do Trump, que é ele dizer ao exército e às forças militares para baixarem as armas, renderem-se e juntarem-se ao povo, com a suposta promessa de imunidade. Eu acho que não será necessário haver tropas no terreno no momento em que a Artesh se mover. O Irão tem dois exércitos, na realidade. Um é o exército tradicional, a Artesh. A minha mãe, por exemplo, fazia parte da Artesh na altura da pré-revolução. E depois temos a Guarda Revolucionária.”
A distinção é central na interpretação que faz do momento. A Guarda Revolucionária foi criada, recorda, precisamente da desconfiança do regime em relação à lealdade histórica da Artesh ao xá e ao Estado pré-revolucionário. Se o topo da Guarda for sendo abatido e se a Artesh sentir que a correlação de forças mudou, então pode surgir uma aliança entre militares e manifestantes. “Não só porque o próprio Reza Pahlavi criou aquele canal de desertores e sempre tem vindo a chamar à ação as pessoas da Artesh, como também porque, agora que isto está a acontecer e eles começam a ver as cabeças da Guarda Revolucionária a serem decapitadas, isso pode dar azo a que a Artesh finalmente venha ao de cima e se coloque do lado do povo.”
Nessa hipótese, a figura que Sanaz Zadegan vê como ponto de reunião da oposição é Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, Mohammad Reza Pahlavi, antigo príncipe herdeiro e hoje uma das principais figuras da oposição iraniana no exílio. Sanaz refere-se a um vídeo divulgado por Pahlavi a partir da sua plataforma Iran Rising, no qual surge com um conselho que junta representantes de várias etnias e sensibilidades políticas e insiste na ideia de que aquela reunião em exílio deveria ser a última. “Muito provavelmente já há planos. E ele tem vindo a dizer isso há muito tempo: que, assim que houver condições, vai para o Irão antes da queda do regime. Juntando estes sinais, e obviamente sem certeza absoluta do que vai acontecer, acho que é mais este conjunto de peças de dominó que começa a cair do lado do regime, ao mesmo tempo que outros atores podem aparecer, nomeadamente a Artesh a aliar-se ao povo e a virar-se contra a Guarda Revolucionária, e também Reza Pahlavi como a figura do xá, o filho do antigo xá, que possa vir aqui e fazer esta mobilização da Artesh e também das pessoas nas ruas.”
Pahlavi na transição mas não como dono
O problema começa logo a seguir. A queda de um regime não resolve a questão da legitimidade do que vem depois. Reza Pahlavi, filho do último xá, tem 65 anos, vive há 50 fora do país, nos Estados Unidos, e carrega, além do nome, todo o peso contraditório da memória da monarquia. Pode ser o homem da transição? E essa transição deve conduzir a quê: a uma liderança provisória com rosto definido ou a um processo que se dissolva rapidamente nas urnas.
Sanaz Zadegan separa as fases. Vê em Pahlavi o líder legítimo da transição, não o dono automático do futuro. “Há aqui duas fases. Há uma fase de transição, e ele é o líder da transição e o líder da oposição. Vimos mais de um milhão de iranianos no estrangeiro a apoiá-lo, como também apoiam dentro do Irão. Muitas vezes isso não se diz, mas nos dias 8 e 9 de janeiro foi ele que convocou as manifestações nacionais, que foram o ponto máximo em termos do número de pessoas nas ruas. Tudo começou no dia 28 de dezembro de 2025, mas foi nos dias 8 e 9 que ele convocou manifestações nacionais e juntou centenas de milhares de iranianos.”
Mais do que restaurar uma forma antiga de poder, diz, o príncipe herdeiro tem insistido noutra ideia: uma arquitetura democrática, assente em referendo e representação territorial e étnica. “Ele tem vindo sempre a dizer que o que quer é um regime democrático no Irão. Existe o chamado Projeto de Prosperidade do Irão, em que delineia não só os 180 dias de transição pós-queda do regime, como também um plano para que haja um conselho representativo das várias etnias e dos vários locais dentro do Irão, que possa fazer o rascunho da Constituição. E depois, quando esse rascunho estiver pronto, leva-se isso a referendo nacional, para que o povo diga ‘sim, gostamos disto’ ou ‘não gostamos’, e volta outra vez ao conselho de redação. Portanto, ele tem vindo sempre a dizer que o que quer é democracia para o Irão.”
A própria hipótese monárquica, acrescenta, só faria sentido, no seu entender, numa forma constitucional, sem regresso a um poder absoluto. “Mesmo que imaginemos no futuro os iranianos quererem uma monarquia, será sempre uma monarquia constitucional e não uma monarquia absolutista como a do pai dele. É isso que ele tem dito. E disse-o em tantos lugares e durante tantos anos que, sinceramente, até hoje, ele sempre cumpriu a palavra. Nunca tentou mudar a perspetiva só para agradar a uma base.”
Mas nenhuma transição no Irão se discute sem esbarrar na história. E, no caso iraniano, essa história passa por Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro que, no início da década de 1950, tentou tirar o petróleo iraniano do controlo britânico e fez dessa disputa uma causa nacional. O Irão era então uma monarquia, com o xá Mohammad Reza Pahlavi no poder, e a crise que se abriu entre os dois acabaria por marcar tudo o que veio depois: o embargo britânico, o agravamento da situação económica e, em 1953, a Operação Ajax, a operação anglo-americana que ajudou a derrubar Mossadegh e consolidou o regresso do xá. É um dos episódios mais sensíveis e divisivos da história moderna do Irão. Sanaz S. Zadegan entra nesse terreno por um ângulo diferente: mais do que discutir o simbolismo democrático de Mossadegh, insiste na forma como o poder estava então organizado. “Mohammad Mossadegh não foi eleito por um voto democrático. Havia muita popularidade em torno dele, e isso levou o xá - que nessa altura, pela Constituição iraniana, tinha o poder de nomear um primeiro-ministro e formar governo, e também o poder legal e constitucional de o depor se fosse do interesse público - a colocá-lo nesse lugar.”
A narrativa prossegue pela crise económica aberta pela nacionalização forçada do petróleo, pela incapacidade técnica do país para gerir sozinho a indústria e pelo colapso das exportações. Depois, pela ajuda americana no regresso do xá e pela leitura de que esse movimento não anulava a legitimidade monárquica que continuava formalmente a existir. “O que aconteceu foi que ele [Mossadegh] tinha os ideais nacionalistas de nacionalizar o petróleo numa fase em que o Irão não tinha nem tecnologia, nem recursos humanos, nem o know-how necessário para gerir as refinarias, a extração e toda aquela indústria. Quando nacionalizou o petróleo à força, os ingleses saíram do Irão, a venda do petróleo caiu a pique porque também começou a haver boicote, e nós não tínhamos como gerir aquela indústria. Portanto, a economia iraniana entrou em queda livre.”
Daqui salta para outra camada da memória iraniana, muito menos ideológica e muito mais quotidiana. Uma frase curta, repetida por quem viveu antes da revolução, regressa sempre que a conversa chega aos anos do xá: zaman-e Shah, "no tempo do xá". Sanaz reconhece a ausência de liberdade política nesse período, mas descreve também a persistência de uma memória de prosperidade, mobilidade e orgulho nacional que continua viva em gerações mais velhas. “Há uma frase que se repete sempre quando se fala de um bom tempo, de uma boa altura em que as pessoas ainda podiam fazer festa, sentiam orgulho nacional de serem iranianas, tinham um passaporte que lhes permitia viajar pelo mundo, ou por muitos países do mundo, sem visto, e eram respeitadas e viviam bem. Havia um nível alto de qualidade de vida no país. E toda a gente diz: zaman-e Shah.”
Essa evocação não elimina a repressão nem resolve o que a monarquia deixou por resolver. O Irão do xá tinha polícia política, censura, prisões e um aparelho de segurança que perseguiu opositores de várias correntes, dos islamistas aos marxistas. Mas o que Sanaz Zadegan faz, aí, é comparar esse período com o que nasceu da Revolução Islâmica de 1979, quando o regime monárquico caiu, o aiatola Ruhollah Khomeini regressou do exílio e a nova República Islâmica começou a concentrar poder político e religioso nas mãos do clero xiita. É nesse contraste que a sua voz endurece. O pós-1979 aparece, na leitura dela, não como correção dos excessos anteriores, mas como uma degradação radical. “Há uma coisa que é unânime: o que veio a seguir, a República Islâmica, foi muito pior do que o pior momento que se possa ter vivido nessa década de 70. Muito pior. Na altura, a comunidade internacional mobilizava-se porque o Irão, no tempo do xá, tinha perto de duas mil pessoas presas que eram apresentadas como presos políticos. E, no meio delas, estava o Massoud Rajavi, líder dos Mujahideen, que depois, durante a guerra Irão-Iraque, se aliou aos iraquianos para matar iranianos.”
Na enumeração que se segue, aparecem nomes do novo regime e a espiral de violência que, na sua leitura, transformou antigos opositores em autores de crimes muito maiores. “Na altura do xá tinha-se Rafsanjani, que depois foi presidente; tinha-se ali um conjunto de pessoas que mais tarde viraram líderes do novo regime islâmico e cometeram crimes contra a humanidade enormes: as tais 30 mil execuções, tanto de pessoas ligadas ao governo como dos próprios comunistas, que achavam que iam conseguir ter controlo do país, mas o Khomeini esmagou-os, destruiu completamente o partido comunista e matou quase todos.”
"Com oito anos eu dizia 'morte a Israel' e 'morte aos Estados Unidos' todos os dias de manhã"
Quando a conversa regressa ao presente, regressa também uma velha suspeita: a de que qualquer mudança no Irão acabará por deixar o país excessivamente dependente de Washington e dos seus interesses, sobretudo energéticos. Sanaz Zadegan rejeita essa simplificação. Para ela, o petróleo continua a ser importante, mas já não explica sozinho o interesse americano. O centro do problema, diz, deslocou-se para a disputa geopolítica e tecnológica com a China. “Eu acho que o tema do interesse petrolífero dos Estados Unidos no Irão está um bocado exagerado. O tema aqui é, na realidade, o jogo geopolítico e a batalha económica entre Estados Unidos e China, porque neste momento o Irão está a vender à China, ilegalmente, petróleo com 40% de desconto. Portanto, a China, que não é propriamente amiga do Ocidente, está a aumentar as suas reservas energéticas para toda a transição energética e também para o crescimento da inteligência artificial, que requer muita energia.”
A partir daí, desenha um horizonte de abertura económica em que o Irão deixaria de ser apenas fornecedor de crude para passar a mercado, parceiro e destino de investimento. Fala de tecnologia, lítio, talento qualificado, startups. Fala de um país com recursos que, na sua leitura, ficou parado. “O Irão, tornando-se um aliado dos Estados Unidos, não quer dizer que dê petróleo à borla aos americanos ou que eles venham retirar-nos o poder de gestão do nosso bem natural. Não é isso que está em causa. O que está em causa é que o Irão passa a ter boas relações económicas com os Estados Unidos; passamos a ter relações comerciais uns com os outros. E, quando falamos do Irão, não nos podemos esquecer de que estamos a falar de um país com 90 milhões de pessoas, portanto um mercado bastante sedento de tecnologias americanas, de empresas americanas, das grandes tecnológicas, da indústria automóvel. Está ali um mercado por explorar.”
E continua: “Também temos um recurso humano muito grande dentro do Irão. Cerca de 75% dos iranianos têm menos de 45 anos e são altamente qualificados, a maior parte tem licenciaturas, mestrados, doutoramentos. Houve uma grande fuga de cérebros, e continua a haver, para os Estados Unidos e para a Europa. E esse talento pode depois, com os americanos, criar polos empresariais lá, investimento em empresas iranianas, startups iranianas, porque o Irão, no pouco tempo que tivemos na altura de Rouhani com a entrada do acordo nuclear, viu o ecossistema de startups explodir.”
Na sua descrição, o atraso não é abstrato. Mede-se nas cidades, nas infraestruturas, no contraste com a riqueza potencial do país e com as capitais de outros Estados do Golfo. “O regime islâmico não investiu em nada em termos de infraestruturas. O Irão é muito mais rico do que o Catar, muito mais rico do que o Bahrein, muito mais rico do que o Kuwait, e tu vais ver a capital iraniana e ela está parada na década de 70. Portanto, nós estamos prontos para abrir a nossa economia, o nosso mercado, ao mundo ocidental.”
O último movimento da entrevista leva a conversa para a paz regional. O ataque agora em curso não é apenas americano; cruza-se com Israel, país que a República Islâmica elevou durante décadas à categoria de inimigo estrutural. A pergunta é se a queda do regime pode também abrir uma hipótese de normalização que as gerações mais novas nunca conheceram.
Sanaz responde com uma genealogia longa. Vai do Império Persa à Segunda Guerra Mundial, da ajuda aos judeus à reconstrução de Israel, do reconhecimento do Estado israelita pelo xá ao presente em que uma criança, numa escola iraniana, repetia todas as manhãs os slogans do regime. “A relação entre iranianos e judeus, ou com Israel, é muito antiga. Recua ao Império Persa, quando Ciro conquistou a Babilónia e permitiu o regresso dos judeus, ajudando na reconstrução do Templo em Jerusalém. Sempre houve essa relação. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, o Irão acolheu milhares de judeus e milhares de polacos que fugiam da guerra e da perseguição nazi. E, já no século XX, foi também o Irão, no tempo do último xá, o primeiro país do Médio Oriente a reconhecer o Estado de Israel.”
A frase seguinte encolhe o tempo histórico até caber numa sala de aula. “Eu cresci no Irão a dizer de manhã ‘morte a Israel’; eu, uma miúda pequena, com oito anos, dizia ‘morte a Israel’ e ‘morte aos Estados Unidos’ todos os dias de manhã.”
É a partir dessa memória que projeta o que mudaria com o colapso da República Islâmica: o fim do financiamento, do treino e do apoio militar a grupos como Hezbollah, Hamas e Houthis, e a possibilidade de o Irão se juntar a uma arquitetura regional diferente. “O fim da República Islâmica, para além dessa insistência e desse contínuo apoio militar e de treino a forças que só querem a destruição de Israel, significa que Israel passa a ter um aliado e que os Acordos de Abraão [acordos de normalização diplomática entre Israel e vários países árabes, promovidos pelos Estados Unidos] passem a incluir o Irão. Um Irão livre, democrático, vai ser um grande aliado de Israel. E uma coisa que o príncipe [Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão] tem andado a dizer há muito tempo é expandirem os Acordos de Abraão para Acordos de Ciro [designação usada por Reza Pahlavi para uma futura aliança regional que inclua um Irão pós-República Islâmica], e o próprio Netanyahu também já referiu isso algumas vezes.”
Sanaz Zadegan diz que os pais mantêm ligação a Portugal desde a guerra Irão-Iraque, nos anos 80, e que a família se instalou cá em 1999. Desde então, nunca mais voltou ao Irão. O futuro de que fala, por isso, não é o de um regresso pessoal, mas o de um país que, na sua leitura, terá de ser reconstruído quase do zero. “E a malta está pronta.”