A Europa está em alerta por causa do Irão e "um ataque de lobo solitário é uma possibilidade". E Portugal? "Nós estamos na periferia, o terrorismo quer as manchetes"

2 mar, 07:00
PSP

ANÁLISE || O risco de retaliação iraniana em solo europeu existe, mas não surge, para já, como cenário de ataque maciço e organizado. Mesmo que o regime de Teerão se mantenha de pé, "não haverá certamente um risco muito elevado para a Europa", ainda que seja preciso estar atento a ameaças mais difusas

A guerra voltou a chegar à Europa pela margem. Não com colunas de tanques nem com uma frente aberta no continente, mas com o sobressalto de dois mísseis iranianos lançados na direção de Chipre, Estado-membro da União Europeia no Mediterrâneo Oriental, e com o sinal político que isso transporta: o conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão deixou de ser apenas uma crise distante, confinada ao Golfo, a Teerão ou a Telavive, e passou a tocar, mesmo que lateralmente, território europeu. Foi o suficiente para reforçar alertas, apertar vigilâncias e reabrir uma pergunta que regressa sempre que o Médio Oriente entra em combustão: haverá risco de retaliação terrorista na Europa?

Jorge Silva Carvalho responde por cenários. José Manuel Anes responde por prudência. Os dois olham para o mesmo mapa, mas com lentes diferentes. O antigo chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa coloca desde logo um travão ao alarmismo: “Se o regime iraniano se mantiver enfraquecido, não haverá certamente um risco muito elevado para a Europa”. José Manuel Anes, antigo presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, não afasta a ameaça, mas desloca-a para um terreno menos linear, mais fragmentado, mais difícil de antecipar: “Um ataque de algum lobo solitário é uma possibilidade”.

Pode ter sido isso mesmo que aconteceu na América na madrugada deste domingo, quando um homem abriu fogo sobre a multidão, matando duas pessoas. Sem adiantar para já muitos pormenores, o FBI admitiu que está a investigar o caso como um possível ataque terrorista de inspiração islâmica.

É nesse espaço, entre o risco limitado e a possibilidade difusa, que a Europa se move agora. A história recente do terrorismo em solo europeu ajuda a perceber porquê. Durante décadas, o terror que matou em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, Nice, Berlim ou Viena teve sobretudo matriz sunita, ligado à Al-Qaeda, ao autoproclamado Estado Islâmico ou às suas "franjas". O Irão, potência xiita, sempre operou de outra maneira: mais pelo Estado, pela clandestinidade controlada, pelos serviços, pelos intermediários, pelas milícias aliadas, pelos chamados "proxies". Menos pela vaga descentralizada de células autogeradas que marcou o jihadismo sunita. Essa diferença não elimina o perigo. Mas muda-lhe a forma. “Os atentados terroristas na Europa têm sido patrocinados por organizações islâmicas sunitas. Não são muito vulgares atentados ligados ao Irão por essa Europa fora”, enquadra José Manuel Anes. A ressalva surge logo a seguir: “Pode haver, de facto, retaliação por via dos proxies. O Hezbollah é claramente um candidato. Hamas, Jihad Islâmica Palestiniana: quem é que pode assegurar que alguém não poderá fazer um atentado na Europa?”

Jorge Silva Carvalho constrói a mesma ideia a partir de uma lógica mais estrutural. Para ele, o problema central não está, para já, num Irão ainda inteiro, mesmo que golpeado. Está no que pode sobrar se esse poder se partir. “Nós temos dois cenários, basicamente.” O primeiro é o de um regime enfraquecido, ferido, com menos autoridade, menos capacidade de imposição e um aiatola, que suceda a Khamenei, já sem o peso de outros tempos. “Vai tentar sarar feridas, restabelecer-se internamente, assegurar o controlo do país. Vamos assistir a uma morte lenta do regime: o regime acabou; pode não acabar é já.” Ou seja, um regime encostado à parede tende primeiro a olhar para dentro. A rua antes da fronteira. A sobrevivência antes da vingança. O controlo dos aparelhos antes da aventura externa. Na leitura do antigo responsável do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, o poder iraniano, se sobreviver enquanto estrutura, "procurará antes de mais tempo, coesão e algum medo interno que lhe permita não cair de imediato". E, enquanto esse poder procurar durar, "não terá interesse em se expor a uma escalada cega que o ponha ainda mais em risco".

O segundo cenário é outro. Mais irregular. Mais difícil de travar. “Se o regime cair, vamos ter um problema.” Jorge Silva Carvalho recua então a exemplos que a história recente já deixou: o Afeganistão depois da retirada norte-americana, o Iraque depois da queda de Saddam Hussein, os aparelhos militares e de segurança que deixam de existir no papel mas não desaparecem realmente, os homens que se dispersam, as lealdades que se recompõem noutro lado, a técnica e o ressentimento que não evaporam. “O problema, quando está monolítico, quando tem um assento de poder, é um; mas depois, quando se parte a pedra, a pedra transforma-se em várias pedrinhas que rolam.”

É essa imagem, a da pedra que se desfaz em fragmentos, que sustenta a parte mais inquietante da sua análise. Não porque preveja uma ofensiva maciça contra a Europa. Pelo contrário. “Eu, apesar de tudo, não vejo um risco acrescido para a Europa em qualquer dos cenários.” Mas porque admite que um Irão fragmentado pode libertar quadros da Guarda Revolucionária, operacionais, homens treinados, redes secundárias, "gente muito ligada ao centro do poder anterior e com vontade de fazer vingança”. A ameaça, nesse caso, deixaria de obedecer a uma hierarquia nítida. "Passaria a ser mais difusa, mais oportunista, mais solta."

José Manuel Anes chega a um ponto semelhante por outro caminho. O tema que mais o preocupa não é tanto a grande operação centralizada, mas a capacidade de contágio de um discurso de retaliação. “O Irão põe muito acento na sua propaganda, na ação psicológica, nessa narrativa bastante assustadora para os adversários.” E é aí que introduz uma hipótese que pesa mais nas democracias abertas do que nos cenários clássicos de guerra: a influência sobre indivíduos isolados, sobre gente que não precisa de ordens formais para passar ao ato. “Pode influenciar, e sobretudo os lobos solitários. Essa é que é a questão.” A frase de Anes tem por trás um raciocínio sobre a forma como a violência política circula hoje. O Estado Islâmico ensinou a Europa a temer não apenas a célula, mas também a inspiração. A propaganda, a internet, a narrativa de humilhação e vingança, a transformação de causas distantes em ação íntima. José Manuel Anes vê a possibilidade de um mecanismo semelhante, ainda que em moldes diferentes, na atual crise iraniana. “Aquele discurso, aquela narrativa iraniana, pode entusiasmar alguns lobos solitários que por aí estão, ou mesmo alguém ligado à Guarda Revolucionária iraniana.”

Isto não significa que o Irão opere como o universo jihadista sunita operou. Jorge Silva Carvalho insiste muito nessa diferença e volta a ela várias vezes, com uma nuance importante. O Irão tem redes. O Irão usou a sua proximidade ao Hezbollah para criar ramificações em várias geografias. “O que o Irão tem feito é criar, através da diáspora, sobretudo da diáspora libanesa e da diáspora iraniana direta, ramificações e células em várias partes do mundo.” Mas acrescenta logo o limite dessa expansão: “O Irão não tem uma tradição de dispersão de grupos autocomandados, de células que não tenham uma lógica estatal por trás.” É uma distinção decisiva. O xiismo, sublinha, "está mais contido", menos espalhado, menos dado à autonomização caótica que marcou o jihadismo sunita. O Hezbollah, na sua leitura, "aproxima-se mais da guerrilha organizada", com territorialidade, direção política e racionalidade de poder, "do que da lógica errante da célula solta". Os houthis pertencem igualmente "a um quadro de ocupação territorial e de guerra localizada". O Hamas, por seu lado, "é sunita e não nasce do mesmo universo religioso", mesmo que tenha mantido relações de cúpula com Teerão. Tudo isto conta quando se tenta medir o risco europeu: "Não basta saber quem odeia quem; é preciso perceber como cada ator costuma agir, com que meios, com que tradição e com que grau de disciplina".

Ao mesmo tempo, nenhum dos dois especialistas embarca na ilusão de que a Europa está fora do raio de ação. José Manuel Anes formula-o de forma mais direta. “Os alvos prioritários são os Estados Unidos e Israel.” Jorge Silva Carvalho acompanha sem hesitação. Mas Anes introduz uma consequência prática: por serem também os alvos mais protegidos, com sistemas antimíssil, segurança reforçada, serviços mais musculados e uma infraestrutura de defesa incomparavelmente mais densa, "não é impossível que uma eventual ação passe a procurar espaços menos blindados". Não necessariamente mais importantes em termos estratégicos, "mas talvez mais acessíveis em termos operacionais".

Israel como aliado

A Europa é "menos blindada" e "mais acessível", pelo menos por comparação com norte-americanos e israelitas. E é aqui que Jorge Silva Carvalho traz Israel para o centro da análise. Não apenas como alvo ou beligerante, mas como ator que melhor conhece o adversário. “A entidade que melhor conhece o Irão e este regime do Irão, e que tem melhores fontes no terreno, é Israel.” Na sua leitura, o componente decisivo desta guerra não é apenas o músculo militar norte-americano no terreno, nem o alcance dos bombardeamentos. É o conhecimento, acumulado e infiltrado, que os israelitas têm do aparelho iraniano. E isso tem uma consequência para a Europa: “A cooperação com Israel e com a Mossad é fundamental para garantir a nossa segurança”.

A observação arrasta outra, mais política. Nos últimos meses, as capitais europeias "afastaram-se parcialmente de Israel por causa de Gaza", dos custos humanos da guerra e da radicalização do executivo israelita, "porque é um regime, enfim, com algumas ligações à extrema-direita e conservadorismo religioso". Jorge Silva Carvalho percebe esse afastamento. Mas lembra que uma coisa é a distância diplomática, outra é a dependência operacional. Ao nível das tecnologias de defesa e da contraterrorismo, argumenta, "Israel tornou-se um parceiro incontornável". Ainda mais agora, quando o problema em causa é a projeção internacional de redes ligadas ao Irão e à Guarda Revolucionária.

O pano de fundo regional também pesa. O Irão não enfrenta apenas Israel. Disputa há décadas a hegemonia do Médio Oriente com a Arábia Saudita, numa rivalidade que mistura religião, poder regional e história longa. Jorge Silva Carvalho convoca precisamente essa profundidade para enquadrar o presente: “Os grandes rivais do Irão sempre foram a Arábia Saudita. Primeiro, pelo conflito religioso, pelos lugares santos. O mundo árabe sempre se acanhou em relação ao mundo persa; mesmo historicamente, a Pérsia teve uma tradição muito mais rica.” E, ao recuar a essa fratura entre o universo persa e o universo árabe, afasta a ideia de uma frente homogénea, como se toda a região respondesse da mesma maneira ao mesmo choque.

É também por isso que, na leitura do antigo chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, a resposta iraniana deve ser lida com gradações. “O Irão não atacou propriamente esses países, porque o Irão ataca bases americanas e interesses americanos nesses países. Não ataca propriamente os países.” A nuance importa. Não absolve Teerão de nada, mas ajuda a perceber que a retaliação procurou atingir alvos que o regime identifica como diretamente ligados ao ataque, e não abrir, pelo menos para já, uma guerra indiscriminada com todo o arco árabe onde os Estados Unidos mantêm presença militar.

Esse detalhe ajuda também a relativizar outro medo europeu: o de uma expansão cega, indiferenciada, sem critério político nem hierarquia de inimigos. Jorge Silva Carvalho não ignora o risco, mas insiste em que o Irão continua a distinguir planos e alvos. Mesmo quando a conversa chega à Guarda Revolucionária, trava a tentação de simplificar. “Tenho dificuldades em catalogá-la especificamente como grupo terrorista pela existência do Estado do Irão.” A reserva não o impede de deixar o aviso principal: enquanto este regime se mantiver, a lógica será uma; se cair, a natureza da ameaça muda. “Grande parte da Guarda está dentro do país, do Irão. Os problemas vão ser dentro do Irão.” Cá fora, admite, o risco sobe sobretudo para “interesses israelitas” e “interesses americanos”, mais do que para a Europa em geral.

A base das Lajes pode ser algo "secundaríssimo", mas uma "possibilidade"

A pergunta chega sempre assim, quase por reflexo nacional: e Portugal? E a base das Lajes? E o facto de o território português continuar a cruzar-se, mesmo na periferia do mapa, com a logística militar norte-americana? A hipótese não é descartada por Jorge Silva Carvalho, mas é rapidamente remetida para a escala certa. “Imagine o pior cenário: vários grupos terroristas a emanar do atual regime iraniano, por vingança, uns mais ligados à Guarda Revolucionária, outros mais religiosos ou radicais, e queriam começar a pôr bombas por aí. Há muito alvo.” É a partir dessa hierarquia de alvos que coloca Portugal no seu devido lugar: “Mesmo as Lajes e mesmo Portugal seriam uma coisa secundaríssima”.

A formulação não serve para tranquilizar de forma ingénua. Serve para medir o que pesa mais numa lógica terrorista: visibilidade, centralidade, eco mediático. Jorge Silva Carvalho leva o raciocínio até ao fim. “Por exemplo, uma bomba posta em Londres não tem o significado que uma bomba posta em Lisboa.” E logo a seguir sintetiza a regra que, na sua leitura, continua a ordenar este tipo de violência: “O terrorismo privilegia-se por aquilo que lhe dá manchetes, sempre. O importante é a comunicação e a parte mediática”. É por isso que fala numa diferença entre centro e periferia, não apenas do ponto de vista geográfico, mas também simbólico. “Nisso nós estamos um bocadinho sempre na periferia.”

Essa periferia, no entanto, não significa neutralidade. Portugal integra o sistema atlântico, mantém compromissos estratégicos com os Estados Unidos e tem nos Açores uma infraestrutura que, em certos momentos, pode voltar a ganhar relevância operacional. O antigo chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa não ignora esse ponto, mas enquadra-o sem dramatização. “Se houvesse um alvo específico - alguém que viesse por aqui, ou as Lajes, porque aterram lá uns aviões, ou porque lá estivesse um C-5 Galaxy, daqueles maiores -, poderia haver essa possibilidade.” Mas Jorge Silva Carvalho trava logo a hipótese e devolve-a à escala real do problema: “Só que a base das Lajes também praticamente não tem tido utilização, tem estado ao abandono, tirando agora neste momento e quando foi a guerra dos 12 dias, em junho do ano passado".

É nesse equilíbrio - risco acrescido, mas risco lateral - que fixa a sua conclusão para o caso português. “Existe, sim, um aumento do risco, mas não seria um aumento de risco significativo, por esta lógica da periferia versus centralidade.” O ponto central da sua análise mantém-se: numa eventual vaga de retaliação, "os alvos preferenciais continuariam a ser os interesses norte-americanos e israelitas mais centrais, mais expostos, mais carregados de valor político e mediático". Portugal surgiria depois, muito depois, na lista implícita dessa ameaça.

José Manuel Anes aproxima-se do mesmo tema por outro caminho, menos centrado na hierarquia dos alvos e mais na capacidade nacional para prevenir. “Temos que estar prevenidos, sem dúvida nenhuma.” A frase abre uma resposta menos teórica, mais institucional, quase mais doméstica, no melhor sentido do termo. Quando olha para Portugal, o antigo presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo não começa pela vulnerabilidade: começa pelos instrumentos. “Portugal tem, através do Serviço de Informações de Segurança, a parte interna, o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, a parte externa, muita competência. Também temos a Polícia Judiciária, que tem a sua Unidade Nacional de Contraterrorismo, igualmente competente.”

Não é um elogio abstrato ao aparelho de Estado. É uma leitura assente na ideia de articulação e de experiência acumulada. José Manuel Anes conhece esse ecossistema por dentro e, por isso, insiste menos na retórica do medo do que no trabalho de bastidores que uma conjuntura destas exige. “Isso é, de facto, uma garantia, porque temos gente competente, dedicada.” Mas a verdadeira chave da sua resposta vem a seguir e desloca o foco do plano nacional para a rede internacional em que o país se apoia. “Temos, sobretudo, uma questão fundamental, que é a permuta de informações com os países amigos.” E enumera esses países: “Além de Espanha e França, também com Marrocos. É extremamente importante.” Quando a conversa chega a Israel, não hesita: “É fundamental, para trocar informações, haver confiança mútua". Essa confiança, no seu caso, tem até uma memória pessoal. José Manuel Anes recua a 1986, ao estágio de explosivos que fez em Israel por indicação de Marques Vidal, então diretor nacional da Polícia Judiciária. O episódio poderia soar lateral, mas não é. Serve para mostrar que a cooperação entre serviços não nasce do nada quando a crise explode. Faz-se ao longo de décadas, entre instituições que se reconhecem. “Os israelitas diziam: em Portugal só temos confiança na Polícia Judiciária.” Na altura, recorda, os serviços de informações portugueses estavam ainda a começar e não inspiravam a mesma segurança aos interlocutores israelitas. O que lhe interessa sublinhar, porém, não é a fotografia desse tempo, mas a diferença para o presente: “Estamos hoje mais preparados do que nessa altura, certamente".

O seu retrato de Portugal, por isso, não é o de um país blindado, mas o de um país menos vulnerável do que seria há algumas décadas. “Hoje em dia, ninguém pode estar descansado. Não há risco zero. Risco zero não existe” A frase não alivia nem agrava: coloca as coisas no seu lugar. "Mas lá que estamos melhor do que estávamos aqui há 10 anos, há 20, estamos. E a cooperação internacional é uma chave fundamental para isto.” Portugal não é o centro desta ameaça. Mas também não está fora dela. Fica fora do centro da mira, mas sem o direito de descer a guarda. “Existe, sim, um aumento do risco, mas não será um aumento de risco significativo”, enquadra Jorge Silva Carvalho. José Manuel Anes não alivia mais do que isto: "Convém prevenir para não remediar”.

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