Taxas de armadores mais caras, apólices de seguros inflacionadas, mais tempo no mar, menos equipamentos disponíveis e, provavelmente, combustíveis mais caros. António Nabo Martins, presidente-executivo da Associação dos Transitários de Portugal (APAT), antevê tempos mais conturbados para as transportadoras marítimas após ataques no Irão
O mundo voltou ao sítio onde estava há exatamente um ano atrás quando o Irão, face ao escalar de tensões com Israel, primeiro ameaçou e depois anunciou que fechou o Estreito de Ormuz. Os ataques dos EUA e Israel na madrugada de sábado voltaram a trazer a instabilidade a uma das regiões do globo mais importantes na exportação de petróleo.
Em declarações à CNN Portugal, António Nabo Martins, presidente-executivo da Associação dos Transitários de Portugal (APAT), garante, acerca do Estreito de Ormuz, que "ainda ninguém percebeu ao certo se está ou não fechado" mesmo após o anúncio da Guarda Revolucionária do Irão de interdição da travessia. O especialista em logística marítima explica que "a informação [vinda de quem está no terreno] continua a ser um bocadinho contraditória". "Não se está efetivamente fechado, o que sei é que não está lá quase navio nenhum", explica.
Quanto aos navios que ficaram presos para lá de Ormuz após o fecho da travessia, o presidente da APAT lembra que "houve alguns que conseguiram voltar para trás e sair" daquele mar fechado. "Os outros não sei como vão fazer, mas provavelmente para já, vão manter-se lá a aguardar algum desfecho", detalha.
António Nabo Martins realça, no entanto, que ao final da tarde de domingo, as empresas de armadores de navios anunciaram que iriam começar a aplicar taxas extraordinárias às embarcações cuja rota atravesse esta zona do globo face ao recente escalar de tensões na região.
Pelos 53,5 km que separam o Irão de Omã passam 20,1 milhões de barris de petróleo por dia ou, dito de outra forma, a cada 24 horas passam por ali 1,29 mil milhões de euros de petróleo. Após os ataques, como demonstra o timelapse da Marine Traffic, 70% do tráfego marítimo no estreito parou.
Strait of Hormuz traffic drops sharply amid regional escalation
— MarineTraffic (@MarineTraffic) March 2, 2026
Vessel activity in the Strait of Hormuz has shifted materially following recent US strikes on Iran and the subsequent regional escalation. According to real-time traffic analysis, transits through the chokepoint… pic.twitter.com/COoh0W9jfk
António Nabo Martins explica que grande parte dos transportadores já deram sinais de que estão a ponderar divergir as rotas e passar a circular pelo Cabo da Boa Esperança. "Isto significa que vamos ter mais tempo de trânsito e de viagem", refere, lembrando que esta alteração pode não se prender tanto com a subida repentina das taxas, mas sim com questões de segurança.
A decisão de trocar o Estreito de Ormuz pelo Cabo da Boa Esperança vai atrasar, em média, entre 15 a 20 dias de trânsito a todas estas embarcações, antevê o presidente da APAT. Mais tempo em viagem pressupões obrigatoriamente mais combustível e um corte no número de transportes realizados por mês, o que torna cada transporte mais caro e que, no fim da cadeia económica, será pago pelo consumidor final através de um aumento dos preço dos bens de consumo.
Para além da hipótese Cabo da Boa Esperança, outra rota possível seria através do Mar Vermelho, ao largo Iémen, rumo ao Canal do Suez, mas presidente da APAT lembra que este é um percurso que "nunca se chegou a normalizar" desde o início dos ataques dos rebeldes Houthis contra embarcações no Estreito de Bab al-Mandeb, em resposta à guerra na Faixa de Gaza.
"Apesar de ter acalmado muito, nunca se chegou a normalizar e agora voltamos outra vez a esta fase de expectativa. Voltámos à fase do gato e do rato", desabafa.
Para além das taxas dos armadores, António Nabo Martins destaca que, perante o escalar de tensões, também é expectável que o custo com seguros do navio e da carga aumentem. O especialista reconhece que ainda não tem dados concretos sobre estes aumentos, mas, no mesmo dia, o Finantial Times (FT) noticia que as novas apólices devem ficar, em média, 50% mais casas.
As fontes citadas pelo FT sob condição de anonimato familiarizadas com o tema estimam que "para um navio de 100 milhões de dólares o aumento esteja entre 250 mil dólares (cerca de 214 mil euros) e 375 mil dólares (aproximadamente 321 mil euros) por viagem".
Apesar das respostas dadas à CNN Portugal com base no vasto conhecimento sobre logística marítima, António Nabo Martins reconhece que "é muito difícil tentar antecipar" o que acontecer nos próximos dias, porque dependerá muito das decisões individuais das transportadoras. "É uma decisão interna, é uma decisão de cada uma delas, e tem muito a ver com a conjuntura internacional", explica.
Resta uma certeza: "O Estreito de Ormuz nunca foi efetivamente fechado" nem sequer durante a guerra entre o Irão e o Iraque, na década de 80. Passados mais de 40 anos, a ameaça iraniana é, foi e, tendo em conta o passado recente, será sempre a mesma, mas nunca chegou a ser cumprida.
Ainda assim, conjugando as viagens 20 dias mais longas, taxas acrescidas de armadores, seguros inflacionados, diminuição da disponibilidade de equipamentos como contentores que passam a estar mais tempo no mar e eventuais quebras nas exportações de petróleo e combustíveis, António Nabo Martins acredita que vamos ter um novo "aumento do preço" do transporte marítimo, que inevitavelmente acaba por ser pago pelo consumidor final através de uma inflação generalizada de alguns bens.