Presidente do Irão lamenta “incidente trágico” da morte de Mahsa, mas promete mão pesada contra o “caos” 

29 set, 06:08
Ebrahim Raisi

Ebrahim Raisi garantiu que “todos estão tristes” com a morte de Mahsa Amini, mas avisou que “caos” e “tumultos” nas ruas são “inaceitáveis”

 

Com dezenas de cidades do Irão a ferro e fogo, por causa dos protestos contra a morte de Mahsa Amini - a jovem que terá sido assassinada enquanto estava detida pela “polícia da moral”, por não usar devidamente o véu islâmico -, o presidente iraniano terá tentado ontem à noite deitar água na fervura. Numa entrevista televisiva, Ebrahim Raisi deu um raro sinal de empatia, afirmando que a morte da estudante de 22 anos enquanto estava detida "entristeceu" todos no país. 

"A todos nos entristece este trágico incidente”, disse Raisi, sem, no entanto, admitir a responsabilidade da “polícia da moral” no assassinato da jovem, que entrou em coma depois da detenção, revelando marcas de espancamento e maus tratos.

Mas, uma vez pronunciada essa frase, o Presidente da República Islâmica mudou de tom, para ameaçar com mão pesada sobre os milhares de manifestantes que há quase duas semanas protestam nas ruas, desafiando a repressão da política e das milícias pró-governo.

“O caos é inaceitável", disse Raisi. "A linha vermelha do governo é a segurança do nosso povo ... Não se pode permitir que as pessoas perturbem a paz da sociedade através de tumultos", frisou o presidente iraniano, referindo-se exclusivamente aos manifestantes anti-governo, mas ignorando a violência perpetrada há décadas pela “polícia da moral”, cujos elementos, muitas vezes trajando à civil, aterrorizam, agridem e detém cidadãos de forma aleatória, quase sempre mulheres cuja indumentária é considerada “imoral”.

Na mesma entrevista, Raisi incentivou e apoiou as forças de segurança iranianas, dizendo que "sacrificam as suas vidas para proteger o país". 

Segundo os dados oficiais, reproduzidos pelos meios de comunicação estatais, 41 pessoas já morreram durante os protestos, incluindo membros da polícia e de uma milícia pró-governamental - seria a estas mortes das “forças de segurança” que o presidente iraniano se estaria a referir quando falou em sacrifício. No entanto, as organizações de defesa dos direitos humanos no Irão apontam para um número muito mais alto de mortes, sobretudo do lado de manifestantes desarmados, que tanto têm enfrentado milícias como a polícia de choque. Diversas ONG apontam para entre 60 e 80 mortos.

Bastões, gás lacrimogéneo e munições reais

Os protestos e os confrontos já se estenderam a dezenas de cidades (a Reuters indica mais de 80 cidades), com as forças de segurança a recorrer a métodos de repressão cada vez mais ferozes, incluindo bastões, gás lacrimogéneo e até munições reais. Ontem de manhã, o comandante da política iraniana avisou que irá responder “com toda a força” contra os manifestantes. “Os agentes da polícia opor-se-ão com toda a força às conspirações dos contra-revolucionários e dos elementos hostis, e agirão firmemente contra aqueles que perturbam a ordem pública e a segurança em todo o país”, prometeu o comandante da polícia num comunicado citado pela AFP.

Segundo este responsável, “os inimigos da República Islâmica do Irão e certos arruaceiros tentam perturbar a ordem e a segurança da nação recorrendo a todos os pretextos”. 

O “pretexto”, neste caso, é a morte de Mahsa Amini, uma jovem do Curdistão iraniano que estava numa visita turística a Teerão com os pais e o irmão. Estava acompanha destes e outros familiares quando foi presa de forma violenta pela “polícia da moral”, por alegadamente não estar a usar o hijab (lenço islâmico) de forma apropriada. Segundo o testemunho de familiares, a jovem foi agredida com um bastão ainda em frente aos pais e ao irmão, enquanto os “guardas da moral” prometiam ensiná-la a usar o hijab e a vestir-se.

Depois da detenção, a jovem estudante, descrita pelos seus amigos como “tímida” e desinteressada de questões políticas, acabou por entrar em coma, com sinais visíveis de agressões no corpo, na cara e na cabeça. Viria a morrer no hospital ao fim de três dias em coma. 

O caso desencadeou protestos anti-governamentais por todo o Irão, nas maiores manifestações anti-governo desde 2019. Uma revolta liderada pelas mulheres, mas à qual milhares de homens se têm juntado. Os manifestantes apelam ao fim do regime clerical islâmico instituído há mais de quatro décadas, após a revolução de 1979 liderada pelo aiatolá Khomeini. Segundo a agência Reuters, vídeos divulgados nas redes sociais mostram multidões a gritar palavras de ordem como “Morte ao ditador!”, “Morte ao líder [aiatolá Khamenei]” ou "Mulás desapareçam!” (mulá é um título dado a clérigos islâmicos).

Relatório forense nos próximos dias

Na entrevista da noite passada, Raisi prometeu que em breve haverá conclusões da investigação que ele mesmo ordenou sobre a morte da estudante. "Os [peritos] forenses apresentarão um relatório sobre a sua morte nos próximos dias", garantiu o presidente iraniano. 

Um familiar de Amini garante que a jovem faleceu devido a “um golpe na cabeça”, mas as autoridades negam qualquer responsabilidade na sua morte.

Raisi prometeu também que "quem quer que tenha participado e incendiado o caos e tumultos será responsabilizado" - uma ameaça dirigida, não apenas aos milhares que têm enchido ruas e praças, mas também contra dezenas de celebridades - incluindo jogadores e ex-jogadores de futebol, atores e outros artistas iranianos, a viver dentro e fora do país - que têm apoiado as manifestações com publicações nas redes sociais. Segundo os meios de comunicação estatais, a magistratura da linha dura do Irão irá apresentar queixa contra eles.

O Líder Supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, que tem sido um dos alvos da fúria dos manifestantes, ainda não se pronunciou sobre os protestos. Mas o Conselho Guardião, um organismo de vigilância de linha dura do regime, apelou ao poder judicial "para lidar decisivamente com os principais perpetradores e os responsáveis por matar e ferir pessoas inocentes e forças de segurança".

Entretanto, numa nova escalada para travar os protestos, a Guarda Revolucionária Iraniana anunciou na quarta-feira que disparou mísseis e drones contra alvos militantes na região curda no norte do Iraque, matando pelo menos nove pessoas.

Como Mahsa Amini era uma iraniana da minoria curda, Teerão está a alimentar a ideia de que a agitação social está a ser alimentada por dissidentes curdos iranianos, apoiados por “estrangeiros inimigos da República Islâmica”, nomeadamente dos Estados Unidos e de países europeus.

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