Porque há protestos em grande escala no Irão? Podem os EUA envolver-se?

CNN , Mostafa Salem
12 jan, 18:00
Iranianos reúnem-se e bloqueiam uma rua durante um protesto em Teerão, Irão, na sexta-feira. MAHSA/Middle East Images/AFP/Getty Images

À medida que a raiva pública continua a crescer, eis o que precisa saber

Protestos antigovernamentais eclodiram em todas as 31 províncias do Irão, numa onda de agitação que representa o maior desafio ao regime em anos.

Uma interrupção contínua das comunicações — que, segundo especialistas, acontece a uma escala sem precedentes — foi imposta pelas autoridades na quinta-feira e isolou o país do mundo exterior, no meio de uma agitação mortal.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou atacar o Irão se as forças de segurança responderem com força contra os manifestantes, centenas dos quais terão sido mortos. Milhares de outros foram presos.

À medida que a raiva pública continua a crescer, eis o que precisa saber.

O que desencadeou os protestos?

Os protestos começaram há cerca de duas semanas nos bazares de Teerão devido à inflação galopante, mas espalharam-se por mais de 180 cidades e vilas em todo o país, transformando-se em protestos gerais contra o regime.

As preocupações com a inflação chegaram ao auge quando os preços de produtos básicos, como óleo de cozinha e frango, dispararam dramaticamente, com alguns produtos a desaparecer completamente das prateleiras.

A agravar a situação esteve a decisão do banco central de pôr fim a um programa que permitia a alguns importadores aceder a dólares americanos mais baratos em comparação com o resto do mercado, o que levou os lojistas a aumentar os preços e alguns a fechar as portas, desencadeando as manifestações.

A medida tomada pelos bazaaris, como são conhecidos os lojistas, é uma decisão drástica para um grupo que tradicionalmente apoia a República Islâmica.

O governo reformista tentou aliviar a pressão com doações diretas em dinheiro de quase seis euros por mês a toda a população, mas a medida não conseguiu acalmar a agitação.

 

Manifestantes marcham no centro de Teerão, Irão, a 29 de dezembro de 2025. Agência de Notícias Fars/AP

Qual é a extensão dos protestos e quantas pessoas morreram?

A agitação é a maior em escala desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini, de 22 anos, sob custódia da polícia religiosa, provocou os protestos generalizados "Mulher, Vida, Liberdade".

Alimentadas pela pobreza e, por vezes, pela desigualdade étnica, multidões gritavam "Morte a Khamenei", desafiando diretamente o líder supremo do Irão, o ayatolla Ali Khamenei, que detém a autoridade máxima sobre os assuntos religiosos e estatais do país.

Quase 500 manifestantes, incluindo pelo menos oito crianças, foram mortos desde o início dos protestos, de acordo com a Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA), sediada nos Estados Unidos. A agência afirmou que mais de 10 mil pessoas também foram detidas. A CNN não conseguiu verificar de forma independente o número de mortos e detidos.

Em que medida os protestos desta vez são diferentes?

O facto de os recentes protestos terem começado com os bazaaris — uma força poderosa de mudança na história do Irão e vista como leal ao regime — é notório.

A aliança duradoura entre os bazaaris e o clero no Irão fez com que os lojistas desempenhassem um papel crucial como formadores de opinião ao longo da história do Irão. Foi o apoio deles a esses mesmos clérigos que acabou por ajudar a Revolução Islâmica de 1979 a ter sucesso, dando aos rebeldes uma base financeira que levou à queda do xá, ou monarca.

"Por mais de 100 anos da história iraniana, os bazaaris têm sido atores-chave em todos os principais movimentos políticos do Irão", explica Arang Keshavarzian, professor de estudos do Médio Oriente e islâmicos na Universidade de Nova Iorque e autor de "Bazaar and State in Iran" (à letra, "Bazar e Estado no Irão"), à CNN. "Muitos observadores acreditam que os bazaaris são alguns dos mais leais à República Islâmica."

O seu papel como força política importante tornou-se mais simbólico, mas o impacto das flutuações cambiais nos seus negócios foi o que os levou a desencadear os protestos que se tornaram mortais.

As autoridades também procuraram diferenciar entre manifestantes económicos e aqueles que clamam por uma mudança de regime, rotulando estes últimos como "desordeiros" e "mercenários" apoiados por forças estrangeiras e alertando para uma repressão mais dura contra eles.

Manifestantes bloqueiam uma rua durante uma manifestação em Kermanshah, Irão, na quinta-feira. Kamran/Middle East Images/AFP/Getty Images

Ferido pela infiltração e ataques em grande escala de Israel no ano passado, o regime iraniano agiu rapidamente para rotular aqueles que exigiam mudanças como inimigos do Estado. O surgimento de Reza Pahlavi, filho exilado do xá deposto, como líder alternativo, foi igualmente impressionante, pois ele reuniu ativamente os manifestantes e os convocou a irem às ruas.

Esta ronda de protestos parece diferente das anteriores devido a um sentimento de frustração e exaustão entre o povo iraniano, diz Dina Esfandiary, líder para o Médio Oriente da Bloomberg Economics, com sede em Genebra, Suíça.

"Chegou a um ponto de ebulição", afirma Esfandiary. "Prevejo que a República Islâmica que vemos hoje provavelmente não existirá em 2027. Acredito realmente que haverá alguma mudança."

A influência do regime iraniano também foi substancialmente enfraquecida em comparação com períodos anteriores de agitação, na sequência dos ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023 ao sul de Israel. Israel respondeu lançando uma campanha para erradicar os representantes de Teerão da região e tanto Israel como os Estados Unidos atacaram instalações nucleares iranianas no ano passado.

Quem governa o Irão e o que está o regime a fazer em relação à agitação?

O Irão é uma teocracia desde 1979, quando clérigos derrubaram um monarca secular aliado do Ocidente, levando à formação da República Islâmica liderada pelo antecessor de Khamenei, o ayatollah Ruhollah Khomeini.

Masoud Pezeshkian foi eleito presidente em 2024, promovendo uma política externa mais pragmática, mas os seus poderes são limitados, e Khamenei toma as decisões sobre todas as questões importantes do Estado.

No domingo, Pezeshkian atribuiu a culpa dos distúrbios em curso no seu país a "terroristas" ligados ao estrangeiro, que, segundo ele, estavam a incendiar bazares, mesquitas e locais culturais. O responsável também disse que a guerra de 12 dias do ano passado entre Israel e o Irão levou o seu país «"ao caos".

Alguns manifestantes podem enfrentar a pena de morte por causa das suas ações, disse o procurador de Teerão Ali Salehi, na sexta-feira, de acordo com a agência de notícias semioficial Tasnim.

Salehi disse que atos de vandalismo contra propriedade pública realizados como parte das manifestações contra o regime serão considerados “moharebeh”, traduzido como “guerra contra Deus”. A punição para moharebeh inclui a execução.

Pezeshkian posicionou-se anteriormente como um defensor das classes trabalhadoras, prometendo alívio económico através da redução da intervenção do governo no mercado cambial, ao mesmo tempo que culpava as sanções dos EUA, a corrupção e a impressão excessiva de dinheiro.

Mas a corrupção em todas as partes do governo, a má gestão de fundos e a convergência de problemas ambientais e liderança estagnada levaram a liderança ao limite.

"Nenhum dos líderes políticos do Irão tem um plano para tirar o Irão da crise", declara Keshavarzian, professor associado, à CNN.

"A única ferramenta que a República Islâmica realmente tem é a coerção e a força. As pessoas tentaram diferentes métodos para expressar as suas opiniões", acrescenta. "Mas, nos últimos 15 anos, grande parte da população perdeu a confiança no regime."

O que Trump e Khamenei disseram?

Trump afirmou que o seu governo está a monitorizar os protestos mortais no Irão e continua a avaliar possíveis opções militares.

“Os militares estão a analisar a situação e estamos a considerar algumas opções muito fortes. Tomaremos uma decisão”, disse Trump aos repórteres no Air Force One no domingo. O presidente dos EUA alertou Teerão várias vezes sobre as graves consequências se os manifestantes forem mortos.

 

O presidente dos EUA, Donald Trump, responde a perguntas a bordo do Air Force One este domingo. Samuel Corum/Getty Images

Trump disse que o Irão lhe ligou no sábado para negociar no meio de ameaças dos EUA. “Eles ligaram ontem”, disse Trump no domingo. “O Irão ligou para negociar.”

O Irão está pronto para negociar com os EUA com base no "respeito mútuo e interesses", disse o ministro das Relações Exteriores do Irão, Abbas Araghchi, na segunda-feira. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, também disse que um canal de comunicação entre Araghchi e o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, "permanece aberto" e que "certos pontos e ideias foram apresentados pelo outro lado".

Há apenas seis meses, Israel e os EUA lançaram ataques contra o Irão pela primeira vez, com Trump a levantar a possibilidade de novos ataques nas últimas semanas, após se reunir com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em dezembro.

Na sexta-feira, Khamenei pediu a Trump que "se concentrasse nos problemas do seu próprio país".

"Existem alguns agitadores que querem agradar ao presidente americano destruindo propriedade pública. Um povo iraniano unido derrotará todos os inimigos", afirmou.

"A República Islâmica não recuará diante daqueles que procuram destruir-nos", concluiu Khamenei.

 

Billy Stockwell, Kara Fox, Max Saltman, Adam Pourahmadi, Charlotte Reck, Aditi Sangal, Betul Tuncer, Piper Hudspeth Blackburn, Todd Symons e Helen Regan, da CNN, contribuíram para este artigo.

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