Ataques ao Irão aumentaram as pressões inflacionistas e fizeram subir as taxas de juro. O efeito vai já sentir-se já na prestação a pagar ao banco em abril: quem tiver o seu contrato a ser revisto vai sentir uma subida que, por agora, ainda será pouco significativa. Confira o seu caso
Estamos perante um verdadeiro choque (...) provavelmente para além do que conseguimos imaginar neste momento”, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu.
Os detentores de contratos de crédito à habitação que sejam revistos em abril já vão sentir na conta bancária os efeitos dos ataques ao Irão, iniciados no final de fevereiro pelos Estados Unidos (EUA) e por Israel.
Com o início do conflito, a que se seguiu o fecho do Estreito de Ormuz, os preços dos produtos petrolíferos dispararam, as pressões inflacionistas aumentaram e, com elas, os receios de uma subida de taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE). Mas não foi sequer preciso que o Conselho de Governadores da instituição com sede em Frankfurt, na Alemanha, aumentasse as taxas diretoras para que, no mercado monetário, os juros começassem a subir. Em março, dia após dia, as taxas Euribor quase não pararam de subir e, em termos médios, subiram em todos os prazos face ao mês anterior, algo que já não acontecia desde o final do ano passado.
O “choque” a que a presidente do BCE, Christine Lagarde, se refere no início deste texto, começará, assim, a materializar-se também para quem tem crédito à habitação a ser revisto em abril. Haverá subida das prestações para todos os que têm crédito a taxa variável e, apesar de a subida ainda não ser substancial, a continuidade do conflito parece deixar quase certo que o BCE irá mesmo subir taxas de juro, o que levará a novas subidas das prestações a pagar ao banco.
Usando como exemplo um crédito de 200 mil euros com um prazo de 30 anos, com um spread (margem do banco) de 1%, indexado à Euribor 6 meses, a subida da prestação deverá ultrapassar os 20 euros. Para o mesmo exemplo, mas utilizando como indexante a Euribor 3 meses ou 12 meses, as subidas serão, respetivamente de 5,92 e 13,80 euros.
Estas subidas poderão ser, no entanto, só o princípio de aumentos mais substanciais caso o BCE venha a optar por uma subida de juros para controlar uma inflação que, segundo as previsões mais recentes do próprio banco, vai mesmo acelerar.
Nos mercados, a convicção é de que Christine Lagarde e os seus pares poderão mesmo subir taxas de juro até três vezes este ano. Mas a volatilidade de toda a situação é enorme e, na mais recente sondagem feita pela agência Reuters, a maioria dos economistas inquiridos ainda diziam acreditar que não haveria subida de juros em 2026. Ainda assim, na referida sondagem, mais de um terço dos inquiridos já prevê que haja um aumento de juros este ano.
Independentemente do que vier a acontecer, tal como na crise inflacionista que ocorreu em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o BCE tem mantido o mantra de que se irá guiar por dados. Na reunião de março, a decisão foi deixar os juros inalterados, com a taxa de depósito nos 2%, mas ainda não havia dados concretos sobre qual o efeito da subida do petróleo na inflação. Na próxima reunião do BCE, no dia 30 de abril, a situação já será diferente, uma vez que já serão conhecidos os dados da inflação de março, que serão divulgados esta terça-feira pelo Eurostat, o órgão estatístico da União Europeia, e também os de abril, que serão divulgados na manhã da reunião do BCE.
Confira o seu caso:
Como vai evoluir a prestação da casa em abril
Empréstimo a 30 anos com spread de 1% || Dados de março até dia 27
EURIBOR 3 MESES
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EURIBOR 6 MESES
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EURIBOR 12 MESES
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NOTA 1 | Como foram feitos os cálculos
Os cálculos partem do princípio de que há três anos o capital em dívida era de 50, 100, 150 ou 200 mil euros, consoante o exemplo, e que o prazo de pagamento era de 30 anos, com um spread (margem do banco) de 1%. A partir desse ponto, a cada revisão do contrato, aplica-se a taxa de juro correspondente e diminui o montante em dívida e o prazo de pagamento do crédito.
NOTA 2 | O que são as taxas Euribor
Euribor é a abreviatura de Euro Interbank Offered Rate. As taxas Euribor baseiam-se nas taxas de juro que um conjunto de bancos europeus está disposto a pagar para emprestar dinheiro uns aos outros. No cálculo, os 15% mais altos e mais baixos de todas as cotações recolhidas são eliminados. As restantes taxas são calculadas como média e arredondadas a três casas decimais. O valor das taxas Euribor é determinado e publicado diariamente. Existem cinco taxas Euribor diferentes, todas com diferentes maturidades (uma semana, um mês, três meses, seis meses e 12 meses).