Um pai, uma filha e mais alguns parentes: cientistas identificam pela primeira vez uma família neandertal

CNN Portugal , MJC
24 out, 09:40
Escavação arqueológica (AP)

Equipa liderada pelo prémio Nobel da Medicina, Svante Pääbo, traçou o perfil genético de 13 indivíduos através de ossos encontrados em duas grutas na Sibéria. A descoberta permite-nos conhecer um pouco melhor o modo de vida destes nossos ancestrais

Os neandertais viviam em cavernas e era comum as mulheres deixarem o seu clã para se juntarem a outro grupo, para se reproduzirem. Apesar disso, os grupos eram pequenos e viviam bastante isolados, o que poderá ter contribuído para a sua extinção. Estas são algumas das conclusões a que chegou uma equipa de cientistas europeus que conseguiu obter o perfil genético da família humana mais antiga conhecida, extraído dos ossos de 13 indivíduos encontrados em duas cavernas na Sibéria.

O estudo foi liderado por Svante Pääbo, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva (na Alemanha) e vencedor do Prémio Nobel de Medicina deste ano, que conseguiu recuperar grande parte do genoma dos 13 neandertais das duas cavernas siberianas e compará-lo com o de outros 18 neandertais descobertos anteriormente. Os resultados foram publicados na Nature na semana passada.

Svante Pääbo foi galardoado precisamente por ter conseguido fazer o sequenciamento do primeiro genoma neandertal em 2010. No entanto, esta é a primeira vez que uma família neandertal é localizada, permitindo assim avançar um pouco mais no conhecimento deste povo.

Os restos humanos foram encontrados em Chagyrskaya e Okladnikov, duas cavernas no sul da Sibéria, na Rússia, onde os neandertais viveram há cerca de 54 mil anos. Ferramentas de pedra e restos de ossos de animais mostram que eram nómadas que subsistiam a perseguir as suas presas: bisontes, cavalos e cabras montesas. 

Além disso, o ADN recuperado desses fósseis não deixa dúvidas: dos 11 indivíduos encontrados em Chagyrskaya, dois eram um pai e a sua filha adolescente; pelo menos dois outros eram seus parentes, um menino pequeno e uma mulher adulta que poderia ser a prima ou avó. Eram todos neandertais, a espécie humana mais próxima da nossa, que misteriosamente se extinguiu há cerca de 40 mil anos.

Os dois vizinhos de Okladnikov, localizada a cerca de 100 quilómetros a leste, não eram familiares diretos, mas pelo menos um deles também poderia ser contemporâneo do outro clã. A variabilidade genética desses restos sugere que os grupos neandertais eram pequenos, entre 10 e 20 pessoas.

O estudo mostra ainda que o genoma mitocondrial passado de mãe para filho era muito mais variado do que o do cromossoma Y transmitido pelos pais. Isso confirma que, nas sociedades neandertais, as mulheres deixavam as suas famílias para ir morar noutros lugares e gerar filhos enquanto os homens permaneciam no mesmo clã. Esta é ainda uma prática comum em muitas sociedades atuais de caçadores-coletores que previne doenças e a esterilidade associadas à endogamia. Foi assim que os neandertais conseguiram sobreviver durante mais de 300 mil anos. Os especialistas acreditam que a sua população tenha variado entre 3 mil e 12 mil indivíduos.

Apesar dessa estratégia, a família neandertal Chagyrskaya já parecia fadada a desaparecer dentro de algumas gerações. Os cientistas estudaram a variabilidade genética entre todos os indivíduos e o nível de sequências idênticas é tão alto quanto entre os gorilas das montanhas atuais, uma das espécies mais ameaçadas do planeta. 

Os resultados também indicam que esses neandertais eram da linhagem dominante da Europa Ocidental e não tinham nenhum traço de cruzamento com os seus vizinhos asiáticos denisovanos, apesar de viverem a apenas 100 quilómetros de distância. Esses dados comprovam que o isolamento e a endogamia poderão ter contribuído para a extinção desses hominídeos.

Escavações arqueológicas anteriores já tinham mostrado que os neandertais eram mais sofisticados do que se pensava, enterrando os seus mortos e fabricando ferramentas e ornamentos elaborados. No entanto, só ultimamente se começou a saber alguma coisa sobre a sua estrutura familiar ou a forma como se organizavam em sociedade.

"O nosso estudo fornece uma imagem concreta de como poderia ser uma comunidade neandertal", disse Benjamin Peter, do Instituto Max Planck, que supervisionou o estudo juntamente com Paabo, em comunicado. "Isto faz com que os neandertais pareçam muito mais próximos dos humanos", acrescentou. "Eles viviam e morriam em pequenos grupos familiares, provavelmente num ambiente extremo. No entanto, eles conseguiram sobreviver por centenas de milhares de anos."

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