Nova investigação contraria teoria de que os indígenas australianos caçaram grandes animais até à extinção

CNN , Mindy Weisberger
7 dez 2025, 17:00
Alguns mamíferos extintos da Mammoth Cave, na Austrália, incluíam (da esquerda para a direita) um equidna gigante de nariz comprido, um canguru de focinho curto, um marsupial semelhante a um wombat e um tilacino da Tasmânia. (Peter Schouten)

Uma análise recente a dois fósseis da Austrália, com uma idade estimada de cerca de 50 mil anos, sugere que os primeiros povos da Austrália valorizavam os grandes animais tanto pelos seus fósseis como pela sua carne, recolhendo ossos e transportando-os por grandes distâncias.

Durante décadas, os cientistas viram as marcas de corte nos fósseis como sinais de que os Indígenas Australianos caçavam grandes presas — possivelmente até à extinção. Quando os humanos chegaram à Austrália, há cerca de 65 mil anos, o continente albergava animais enormes que já desapareceram, como equidnas gigantes de bico longo, cangurus de focinho curto com quase três metros de altura e marsupiais com presas semelhantes a vombates, tão grandes como rinocerontes. Mas há cerca de 46 mil anos, todos estes grandes animais tinham desaparecido.

Na década de 1960, os cientistas detetaram uma marca de corte feita por humanos numa tíbia de canguru fossilizada encontrada entre 1909 e 1915 na Mammoth Cave, no sudoeste da Austrália. Na altura em que o corte foi identificado, os investigadores propuseram que a marca provava que os primeiros povos esquartejavam a megafauna antiga.

No entanto, investigadores analisaram recentemente a estrutura interna do osso e apresentaram uma nova interpretação: o corte no osso foi feito muito depois de o animal estar morto — talvez depois de os seus restos terem fossilizado. Esta descoberta afastaria a hipótese de talho, sugerindo, em vez disso, que o osso preservado do canguru era o prémio, relataram os cientistas na quarta-feira na revista Royal Society Open Science.

Um segundo fóssil examinado pelos autores no estudo — um pré-molar do vombate gigante extinto Zygomaturus trilobus — forneceu outra pista sobre a recolha de fósseis pelos Primeiros Povos. Esta espécie de marsupial é comum em depósitos fósseis no sul da Austrália, mas desconhecida no norte. No entanto, um homem indígena no norte da Austrália guardou o dente como amuleto, montado em resina e preso a um fio feito de cabelo humano. (Ele ofereceu o amuleto a um antropólogo no final da década de 1960, mas desconhecia-se há quanto tempo o homem indígena tinha o amuleto ou qual a sua origem).

Para o dente ir parar à parte norte do país, "pareceu-nos provável que tivesse sido recolhido como fóssil no sudoeste da Austrália Ocidental e depois comercializado ao longo da costa até à região de Kimberley", disse Michael Archer, autor principal do novo estudo e professor e investigador na Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney.

Sem provas de "caça excessiva"

Depósitos minerais revestem um osso fóssil (à esquerda) proveniente de um sítio arqueológico em Mammoth Cave. A falecida Lindsay Hatcher (à direita), coautora do estudo, indica onde a amostra foi obtida. (Jon Woodhead)

Juntos, o dente e a tíbia contam uma história dos Primeiros Povos como colecionadores de fósseis, disse Archer à CNN num email. Também põem em causa a hipótese de longa data de que os Primeiros Povos caçaram a megafauna da Austrália até à extinção, uma vez que essa suposição foi obtida a partir de marcas em ossos fósseis que poderiam ter sido feitas por colecionadores e não por caçadores.

As descobertas demonstram a falta de provas concretas para apoiar a hipótese de que os Primeiros Povos da Austrália "estavam potencialmente a fazer uma 'caça excessiva' a estes animais logo após a chegada humana ao continente", referiu. "De facto, as provas sugerem que os humanos e estes animais da megafauna coexistiram durante pelo menos 15.000 anos, provavelmente até que as alterações climáticas levaram à extinção progressiva desses animais".

Já se sabia que os Primeiros Povos utilizavam ossos e conchas como adornos ou objetos culturais, disse a arqueóloga Judith Field, professora associada honorária da Universidade de Nova Gales do Sul, que não esteve envolvida na nova investigação. Alguns exemplos são contas de conchas que datam de há mais de dez mil anos, da Ilha Barrow, ao largo da costa da Austrália Ocidental, e um colar de dentes de diabo-da-tasmânia com cerca de 7 mil anos, encontrado perto do Lago Nitchie, disse Field à CNN por email.

"Estas descobertas correlacionam-se com o que sabemos sobre o comportamento humano", acrescentou Field. "As pessoas colecionam coisas e movem-nas pela paisagem".

Além disso, "existe apenas um local no continente australiano que coloca inequivocamente a megafauna e os humanos no mesmo lugar, ao mesmo tempo: Cuddie Springs", disse Field. Embora as pessoas se tenham cruzado com algumas espécies de megafauna, a variabilidade climática provavelmente também contribuiu para a extinção dos maiores animais da Austrália, em vez de apenas a caça humana, acrescentou. O novo estudo "acrescenta outra faceta interessante à nossa riqueza de conhecimento sobre as complexidades do comportamento humano".

Nas secções transversais da tíbia da caverna Mammoth, as setas vermelhas (a) indicam três fissuras longitudinais. Noutra secção transversal, uma seta branca (b) mostra uma fissura transversal. Duas linhas vermelhas (c) indicam as posições aproximadas das secções transversais. (Blake Dickson)

Dentro do osso

Em 1980, Archer foi coautor de um artigo que descrevia a marca do corte como um sinal de que os humanos tinham esquartejado o animal. Mas em 2013, com a disponibilidade de ferramentas mais sofisticadas para análise de fósseis, Archer questionou-se se um exame mais aprofundado desse osso poderia revelar pistas que tivessem passado despercebidas anteriormente.

Archer disse que pediu ao coautor do estudo, Blake Dickson, então estudante na Universidade de Nova Gales do Sul, para realizar uma microtomografia computorizada (micro-TC) do fóssil, "apenas para descobrir o que a estrutura interna associada a este corte no osso poderia revelar". As micro-TC permitem aos cientistas observar o interior dos fósseis sem os danificar.

"Foi aí que ficámos chocados ao descobrir que as provas indicavam claramente que o corte tinha ocorrido no osso apenas depois de o osso já se ter tornado um fóssil", afirmou Archer.

Na tíbia, múltiplas fissuras longitudinais indicavam que esta tinha secado antes de se tornar parte do depósito fóssil, e a área onde o corte foi feito incluía uma fratura transversal que aconteceu após a formação das fissuras de secagem.

"Claramente não era de forma alguma uma indicação de que o animal tinha sido morto e/ou esquartejado por pessoas", disse Archer. "O corte fazia parte de um esforço para recolher o osso fossilizado como uma curiosidade pelos Primeiros Povos — eles eram colecionadores de fósseis, tal como nós".

A tíbia (a) da Caverna Mammoth com a incisão (b) no eixo. (Anna Gillespie)

Os autores não sugerem que os Primeiros Povos não caçavam grandes animais. Mas a noção de que caçavam a megafauna até não restar nenhum provavelmente teve origem em preconceitos ocidentais, estabelecidos por séculos de padrões de extinção em massa que se seguiram à colonização na Austrália, explicou Archer. Estas extinções foram impulsionadas principalmente pela agricultura europeia e pela introdução de espécies não nativas que competiram com os animais australianos.

"Devido a estes eventos modernos de extinção causados pelos europeus, alguns cientistas presumiram ingenuamente que todos os povos no passado criaram de forma semelhante o mesmo tipo de caos quando entraram pela primeira vez em novas terras", disse Archer.

"O que sugerimos é que, pelo menos na Austrália, os Primeiros Povos podem muito bem ter-se tornado rapidamente parte integrante dos ecossistemas deste continente, valorizando e utilizando de forma sustentável a biota nativa deste continente, em vez das espécies exóticas envolvidas em práticas agrícolas insustentáveis que agora infligimos a este continente".

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