O que precisa saber sobre a tensão na fronteira da Ucrânia com a Rússia

CNN , Matthew Chance e Laura Smith-Spark
21 jan, 16:20
Tensão Ucrânia-Rússia Foto: AP

As tensões entre a Ucrânia e a Rússia estão no ponto mais alto dos últimos anos, com o acumular de soldados russos junto à fronteira das duas nações a fazer temer uma invasão por parte de Moscovo.

A Ucrânia alertou que a Rússia está a tentar desestabilizar o país antes de levar a cabo qualquer invasão militar. As potências ocidentais alertaram várias vezes a Rússia contra novos movimentos agressivos contra a Ucrânia.  

O Kremlin nega que esteja a planear um ataque e argumenta que o apoio da NATO à Ucrânia - incluindo o aumento do fornecimento de armas e treino militar - constitui uma ameaça crescente no flanco ocidental da Rússia.

Toda a situação é complicada, mas eis um resumo do que sabemos.

Qual é a situação na fronteira?

Os Estados Unidos e a NATO descreveram os movimentos e concentrações de tropas dentro e à volta da Ucrânia como "invulgares".

Cerca de 100 mil soldados russos permanecem concentrados na fronteira com a Ucrânia, apesar de o presidente dos EUA, Joe Biden, e de vários líderes europeus terem advertido sobre as graves consequências se Putin avançar com uma invasão. Pelo que as agências de informações dos EUA descobriram, em dezembro, a Rússia poderia dar início a uma ofensiva militar na Ucrânia “já no início de 2022”.

Falando ao lado do seu colega ucraniano em Kiev, a 19 de janeiro, o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que a Rússia "aumentou o nível de ameaça e acumulou quase 100 mil soldados na fronteira com a Ucrânia, um número que poderia duplicar num período relativamente curto.” 

No final de 2021, imagens de satélite revelaram equipamentos russos – incluindo armas autopropulsadas, blindados de batalha e veículos de combate de infantaria – em movimento num campo de treino a cerca de 300 km da fronteira.

A última avaliação das agências de informações do Ministério da Defesa ucraniano diz que a Rússia já enviou mais de 127 mil soldados para perto da Ucrânia, incluindo cerca de 21 mil militares de ar e mar, já transferiu mais mísseis táticos operacionais Iskander para a fronteira e aumentou a atividade de informações secretas contra o país.  

A avaliação surgiu depois de três rondas de conversações diplomáticas entre a Rússia e o Ocidente, com o objetivo de atenuar a crise, não terem conseguido chegar a uma resolução.

As autoridades norte-americanas disseram que uma invasão russa à Ucrânia pode acontecer a qualquer momento no próximo mês ou dois.

Muitas das bases militares da Rússia estão a oeste do vasto país - a direção de onde a história sugere que quaisquer ameaças provavelmente virão. O Ministério da Defesa russo diz que está a realizar “regulares” exercícios militares de inverno na região sul, partes da qual fazem fronteira com a Ucrânia.

Enquanto isso, Donetsk e Luhansk, as regiões orientais da Ucrânia na fronteira com a Rússia, uma área conhecida como Donbas, estão desde 2014 sob o controlo dos separatistas apoiados pela Rússia. As forças russas também estão presentes na área, referida pela Ucrânia como "território temporariamente ocupado", embora a Rússia o negue.

As linhas da frente do conflito mal se moveram em cinco anos, mas há confrontos frequentes em pequena escala e ataques de atiradores-furtivos. 

A Rússia não gostou que as forças ucranianas tivessem usado pela primeira vez, em outubro, um drone de combate fabricado na Turquia para atacar uma posição mantida pelos separatistas a favor da Rússia.

A Rússia também tem dezenas de milhares de soldados na sua enorme base naval na Crimeia, território ucraniano que anexou em 2014. A península da Crimeia, que fica ao sul do resto da Ucrânia, está agora ligada por uma ponte rodoviária ao continente russo.

Qual é a história do conflito entre a Ucrânia e a Rússia?

As tensões entre a Ucrânia e a Rússia, ambos antigos estados soviéticos, aumentaram no final de 2013 devido a um histórico acordo político e comercial com a União Europeia. Depois de o então presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovych, ter suspendido as conversações, supostamente por pressões de Moscovo, semanas de protestos em Kiev deram origem a violência. 

Depois, em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia, uma península autónoma no sul da Ucrânia com fortes ligações à Rússia, sob o pretexto de estar a defender os seus interesses e os dos cidadãos de língua russa. Primeiro, milhares de soldados de língua russa, apelidados de "pequenos homens verdes" e mais tarde reconhecidos por Moscovo como soldados russos, invadiram a península da Crimeia. Em poucos dias, a Rússia completou a anexação num referendo que foi criticado pela Ucrânia e pela maior parte do mundo como ilegítimo. 

Soldados russos patrulham a área ao redor da unidade militar ucraniana em Perevalnoye, nos arredores de Simferopol, na Crimeia, a 20 de março de 2014.


Pouco depois, separatistas pró-Rússia nas regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk declararam a sua independência de Kiev, provocando meses de intensos combates. Apesar de Kiev e Moscovo terem assinado um acordo de paz em Minsk, em 2015, intermediado pela França e pela Alemanha, houve repetidas violações do cessar-fogo.

Segundo números da ONU, houve mais de 3000 mortes de civis relacionadas com conflitos no leste da Ucrânia, desde março de 2014.

A União Europeia e os EUA impuseram uma série de medidas em resposta às ações da Rússia na Crimeia e no leste da Ucrânia, incluindo sanções económicas contra indivíduos, entidades e setores específicos da economia russa.

O Kremlin acusa a Ucrânia de aumentar as tensões no leste do país e de violar o acordo de cessar-fogo de Minsk.

Soldados ucranianos preparam-se para apoiar a retirada das tropas a 19 de fevereiro de 2015, em Artemivsk, na Ucrânia.

Qual é a perspetiva da Rússia?

O Kremlin negou repetidamente que a Rússia pretenda invadir a Ucrânia, insistindo que a Rússia não representa uma ameaça para ninguém e que um país que movimente tropas no seu próprio território não deve ser motivo de alarme.

Moscovo vê o crescente apoio da NATO à Ucrânia - em termos de armamento, treino e pessoal - como uma ameaça à sua própria segurança. Também acusou a Ucrânia de aumentar o seu número de tropas em preparação para uma tentativa de recuperar a região de Donbas, uma alegação negada pela Ucrânia.

O presidente russo, Vladimir Putin, pediu acordos legais específicos que excluam qualquer expansão da NATO para o leste, em direção às fronteiras da Rússia, dizendo que o Ocidente não cumpriu as anteriores garantias verbais.

Putin também disse que o facto de a NATO fornecer à Ucrânia armas sofisticadas, como sistemas de mísseis, é o cruzar de uma "linha vermelha" para a Rússia, no seio de preocupações em Moscovo de que a Ucrânia esteja a ser cada vez mais abastecida de armas por parte das potências da NATO.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse em novembro que armas e conselheiros militares já estavam a ser fornecidos à Ucrânia pelos EUA e outros países da NATO. "E tudo isso, obviamente, leva a um agravamento ainda maior da situação na fronteira", disse ele.

Se os EUA e os seus aliados da NATO não mudarem de rumo na Ucrânia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, alerta que Moscovo tem “o direito de optar por formas de garantir os seus legítimos interesses de segurança”.  

Qual é a opinião da Ucrânia?

O governo da Ucrânia insiste que Moscovo não pode impedir Kiev de construir laços mais estreitos com a NATO, se assim o desejar.

“A Rússia não pode impedir a Ucrânia de se aproximar da NATO e não tem o direito de opinar em discussões relevantes”, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros em comunicado à CNN, em resposta aos apelos russos para que a NATO interrompa a sua expansão para o leste.

“Quaisquer propostas russas para discutir com a NATO ou os EUA as chamadas garantias de que a Aliança não se expandiria para o Leste são ilegítimas”, acrescentou.

A Ucrânia insiste que a Rússia está a tentar desestabilizar o país, com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a dizer que planos para um golpe envolvendo ucranianos e russos, foi recentemente descoberto. 

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, alertou que tal golpe poderia fazer parte do plano da Rússia, antes da invasão militar. “A pressão militar externa anda de mãos dadas com a desestabilização interna do país”, disse.

As tensões entre os dois países foram exacerbadas pelo aprofundamento da crise energética ucraniana que Kiev acredita ter sido provocada intencionalmente por Moscovo.

Ao mesmo tempo, o governo de Zelensky enfrenta desafios em muitas frentes. A popularidade do governo estagnou devido a vários problemas políticos domésticos, incluindo uma recente terceira onda de infeções por covid-19 e uma economia em dificuldades.

Muitas pessoas também estão descontentes porque o governo ainda não cumpriu a promessa dos benefícios nem acabou com o conflito no leste do país. Protestos contra o governo ocorreram em Kiev.

Num discurso em vídeo a 19 de janeiro, Zelensky apelou ao povo ucraniano para que se “acalmasse” no meio do crescente desconforto com uma possível invasão russa. “Estamos cientes de tudo, estamos prontos para tudo”, disse ele, antes de acrescentar que “acredita sinceramente” que este ano “passará sem uma guerra” com a Rússia.

Kuleba também procurou tranquilizar os ucranianos que temem que os EUA, os seus aliados da NATO e a Rússia possam deixar Kiev fora das discussões. “Um dos nossos princípios é que não há decisões sobre a Ucrânia sem a Ucrânia ", disse ele.

Combatentes pró-Rússia chegam a 20 de fevereiro de 2015 a Debaltseve, no leste da Ucrânia.

O que diz a NATO?

O Secretário-Geral da NATO, Jens Stoltenberg, disse que “a Rússia terá um alto preço a pagar” se invadir novamente a Ucrânia, parceira da NATO.

“Temos uma ampla gama de opções: sanções económicas, sanções financeiras, restrições políticas", disse Stoltenberg, numa entrevista à CNN, a 1 de dezembro.

Depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia em 2014, a NATO aumentou as suas defesas "com grupos de batalha prontos para o combate na região oriental da Aliança, nos países bálticos, na Letónia... mas também na região do Mar Negro”, disse Stoltenberg.

A Ucrânia não é membro da NATO e, portanto, não tem as mesmas garantias de segurança que os membros da Aliança.

Mas Stoltenberg deixou em cima da mesa a possibilidade de a Ucrânia se tornar membro da NATO, dizendo que a Rússia não tem o direito de dizer à Ucrânia que não pode procurar a adesão à Aliança.

As altas negociações entre a Rússia e a NATO, em meados de janeiro, em Bruxelas, "não foram uma discussão fácil”, segundo Stoltenberg, que acrescentou que “as divergências não serão fáceis de ultrapassar”. No entanto, os aliados da NATO e a Rússia “expressaram a necessidade de retomar o diálogo”, disse ele.  

O que dizem os Estados Unidos?

O presidente Joe Biden disse a Zelensky, num telefonema no início deste mês, que os EUA e os seus aliados “responderão de forma determinada se a Rússia invadir ainda mais a Ucrânia”.  

Mas Biden pareceu minar essa mensagem quando sugeriu depois, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca, que uma “pequena incursão” da Rússia provocaria uma resposta menor do que uma invasão em grande escala.  

Embora Biden tenha prometido duras consequências económicas para a Rússia caso Putin envie as tropas para lá da fronteira, incluindo a restrição das transações financeiras em dólares americanos, também deu a entender que as nações ocidentais não estão em sintonia sobre o que fazer se acontecer uma violação menor. “Há divergências na NATO quanto ao que os países estão dispostos a fazer, dependendo do que acontecer”, disse ele.

As observações do presidente levaram a um rápido esclarecimento da Casa Branca. “O presidente Biden foi claro com o presidente russo: se quaisquer forças militares russas cruzarem a fronteira ucraniana, será considerada uma nova invasão, e será recebida com uma resposta rápida, severa e unida por parte dos Estados Unidos e dos nossos aliados", escreveu em comunicado a secretária de imprensa Jen Psaki.

Uma fonte ucraniana disse à CNN estar “chocada com o facto de o presidente dos EUA, Joe Biden, fazer a distinção entre uma incursão e uma invasão” e sugerir que uma pequena incursão não desencadearia sanções. “Isso dá luz verde a Putin para entrar na Ucrânia a seu bel-prazer”, acrescentou.

A confusão diplomática aconteceu enquanto Blinken se preparava para novas conversações com os aliados europeus sobre a crise Ucrânia-Rússia e para um encontro com o seu colega russo, Sergey Lavrov. Blinken já havia alertado a Rússia de que “qualquer nova agressão poderia levar a graves consequências”.  

Dois funcionários da Defesa disseram à CNN a 3 de janeiro que o Departamento de Defesa criou opções militares para Biden, se ele decidir aumentar os recursos na Europa Oriental para melhor dissuadir uma possível agressão russa contra a Ucrânia. Ambos os funcionários sublinharam que isto faz parte do planeamento de rotina dos militares e que, por enquanto, o foco permanece na diplomacia e em possíveis sanções económicas.

A Vice-Secretária de Estado dos EUA, Wendy Sherman, e o Ministro-Adjunto dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Ryabkov, reuniram-se em Genebra a 10 de janeiro, numa tentativa dos EUA de diminuir a ameaça de um avanço russo.

Os EUA entregaram cerca de 450 milhões de dólares em apoio à segurança à Ucrânia em 2021, disse o Pentágono, incluindo um pacote de armas pequenas e munições, em dezembro. A Administração Biden está agora a avaliar novas opções, incluindo o fornecimento de mais armas à Ucrânia para resistir à ocupação russa, disse um alto funcionário dos EUA à CNN.     

A Administração Obama foi apanhada de surpresa quando a Rússia invadiu a Crimeia em 2014 e apoiou uma revolta na região de Donbas, no leste da Ucrânia. As autoridades dos EUA dizem que estão determinadas a não serem apanhadas desprevenidas por outra operação militar russa.

“A nossa preocupação é que a Rússia possa cometer um grave erro ao tentar repetir o que fez em 2014, quando acumulou forças ao longo da fronteira, atravessou o território soberano da Ucrânia e fê-lo sob o falso pretexto de ter sido provocada”, disse Blinken no final do ano passado.

Que outros fatores estão em jogo?

A agitação no antigo estado soviético do Cazaquistão foi uma má notícia para Putin, no início de 2022.    

Protestos com vítimas mortais, no início de janeiro, levaram à renúncia do governo cazaque, à declaração do estado de emergência e ao envio de tropas de uma aliança militar liderada pela Rússia para ajudar a controlar os distúrbios.

Mas os especialistas alertaram que é improvável que a intervenção da Rússia seja o fim da história. Blinken disse que “assim que os russos entram em nossa casa, às vezes é muito difícil fazê-los sair”. 

Outra questão gira em torno do fornecimento de energia. A Ucrânia encara o controverso oleoduto Nord Stream 2, que liga o fornecimento de gás russo diretamente à Alemanha - como uma ameaça à sua própria segurança.  

O Nord Stream 2 é um dos dois oleodutos subaquáticos que a Rússia colocou no Mar Báltico, além da tradicional rede de oleodutos terrestres que atravessa a Europa oriental, incluindo a Ucrânia.

Kiev vê os oleodutos na Ucrânia como um elemento de proteção contra uma invasão da Rússia, já que qualquer ação militar poderia interromper o fluxo vital de gás para a Europa.

Os analistas e legisladores dos EUA levantaram preocupações de que o Nord Stream 2 venha a aumentar a dependência europeia do gás russo e possa permitir que Moscovo ataque seletivamente países como a Ucrânia com cortes de energia, sem interrupções mais amplas ao fornecimento europeu. Ignorar os países da Europa oriental também significa que essas nações se veriam privadas das taxas de trânsito lucrativas que a Rússia paga atualmente.

Em maio de 2021, o governo Biden levantou as sanções à empresa responsável pelo Nord Stream 2, dando-lhe luz verde. As autoridades norte-americanas dizem que a medida foi do interesse da segurança nacional dos EUA, pois procurava reconstruir as relações desgastadas com a Alemanha.

Em novembro, os EUA impuseram novas sanções a uma entidade ligada à Rússia e a uma embarcação ligada ao Nord Stream 2. Alguns senadores dos EUA pediram que mais sanções fossem impostas para impedir que a Rússia usasse o oleoduto como arma. A Ucrânia também pediu medidas mais duras.

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