Do ADN às redes sociais: como as autoridades brasileiras se preparam para identificar os invasores de Brasília

10 jan, 09:58
Bolsonaristas invadem as sedes dos três poderes em Brasília (Foto: André Borges/EPA)

Governo e Polícia Federal esperam também contar com a ajuda da sociedade civil para identificar as pessoas que participaram no protesto

Já está em marcha o processo de identificação dos milhares de bolsonaristas que invadiram a Praça dos Três Poderes em Brasília no passado domingo.

Até agora, mais de 1500 pessoas foram detidas por participarem no protesto. O ministro da Justiça do Brasil, Flávio Dino, afirmou que deverão ser acusadas de tentativa de golpe de Estado, danos ao património histórico e lesões corporais, devido às agressões a jornalistas e polícias. “As pessoas que participaram neste evento, estejam onde estiverem, serão detidas”, avisou o governante, citado pela BBC News Brasil, que disse que as penas podem atingir os 20 anos de prisão.

Para identificar os participantes na invasão ao Congresso, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal, as autoridades brasileiras vão recorrer a todos os meios disponíveis. Segundo a Globo, a Polícia Federal vai analisar as imagens de videovigilância do circuito interno dos locais invadidos, bem como o ADN deixado para trás pelos atacantes, quer nos objetos pessoais e armas improvisadas, quer nas superfícies dos edifícios. As autoridades vão também recorrer as imagens capturadas pelos seus drones que sobrevoaram a Praça dos Três Poderes durante o protesto, precisamente com a finalidade de ajudar o processo de identificação dos invasores.

Por decisão de Alexandre de Moraes, magistrado do Supremo Tribunal Federal, as empresas de telecomunicações estão obrigadas a guardar os dados de geolocalização dos clientes que estiveram na Praça dos Três Poderes, para que possam ser identificados. “Determinação às empresas de telecomunicações, em particular as provedoras de serviço móvel pessoal que guardem pelo prazo de noventa dias os registos de conexão suficientes para a definição ou identificação de geolocalização dos utilizadores que estão nas imediações da Praça dos Três Poderes e do Quartel-General do Distrito Federal para apuração de responsabilidade nas datas dos eventos criminosos”, pode ler-se na ordem decretada por Alexandre de Moraes, citada pela CNN Brasil.

Outra das armas utilizadas pelas autoridades são os registos dos hóspedes de hotéis, pousadas e pensões da capital brasileira do passado fim de semana e dias anteriores. A Polícia Federal vai, também, investigar os donos dos autocarros que viajaram de todo o país para Brasília, que as autoridades estimam que tenham sido mais de uma centena, de modo a poder identificar os passageiros e os financiadores da operação.

As próprias imagens e vídeos publicados nas redes sociais pelos manifestantes estão a servir para os identificar. No Instagram, a página @contragolpebrasil, que conta já com mais de um milhão de seguidores, tem divulgado fotografias dos invasores já devidamente identificados.

Para além da investigação ativa, o Ministério da Justiça e Segurança disponibiliza um email, denuncia@mj.gov.br, para onde a sociedade civil pode enviar as informações sobre os atacantes. Segundo o próprio ministério, até à tarde desta segunda-feira, já tinham sido feitas 13 mil denúncias através desta ferramenta.

Investigação poderá tomar rumo semelhante à da invasão do Capitólio

O evento do passado domingo foi bastante semelhante ao ocorrido em Wahshington D.C. no dia 6 de janeiro de 2021, quando milhares de apoiantes de Donald Trump e do movimento MAGA (Make America Great Again) invadiram o Capitólio, a sede do poder legislativo dos Estados Unidos.

Ao longo dos últimos dois anos, as autoridades americanas têm identificado os participantes na invasão – estima-se que cerca de duas mil pessoas tenham invadido o edifício do Congresso – com recurso às ferramentas acima mencionadas, principalmente aos vídeos e fotos gravados não só pelos próprios atacantes, como também pelas agências de notícias presentes no local.

Segundo o Insider, até ao dia 5 de janeiro, a justiça americana acusou 978 pessoas ligadas à insurreição. A maioria dos arguidos é acusada de conduta imprópria, atividade disruptiva e presença num local restrito. No entanto, há acusações mais graves, como a de conspiração sediciosa, obstrução de justiça e posse de arma de fogo num edifício restrito. Guy Reffitt, texano de 49 anos, foi acusado e condenado a pouco mais de sete anos de prisão por estes dois últimos crimes e mais outras três acusações, dado que ficou provado que levou para a invasão uma arma semiautomática e amarras. Os procuradores do Departamento de Justiça argumentaram para que Reffitt fosse considerado pela justiça como um terrorista doméstico, mas a juíza do caso, Dabney Friedrich, negou o pedido, considerando que outros participantes demonstraram uma conduta pior sem que tivessem sido acusados do mesmo.

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