Se nasceu entre 1980 e 1996, este artigo pode ser chocante. Se nasceu depois de 1997, é provável que queira gozar com isto tudo

6 nov, 09:00
Mulher a olhar para o smartphone. (AP Photo/Andy Wong)

Quando começar a ler este artigo pode parecer-lhe que vamos falar sobre tecnologia e redes sociais. Não, não é mesmo sobre isso: é sobre mais, tão mais. É sobre o estado do mundo, das pessoas, das gerações. Vai sorrir e vai espantar-se. Pode chocar-se também (mas é aquele choque etário e não outro género de choques). É provável também que discorde e que se reveja em partes do que aqui será dito. Portanto: pode acontecer-lhe de tudo

O Facebook é para velhos, determinou a geração millennial. Nascidos entre a década de oitenta e o final do milénio, cresceram a acompanhar a evolução das redes sociais e a familiarizar-se com certos padrões de linguagem e comportamento exigidos ao utilizador cibernético. Quando a geração dos pais começou a aderir significativamente a redes sociais como o Facebook, multiplicaram-se os gracejos sobre os "velhos" na internet: a eloquência e pontuação exageradas, as frases inspiradoras, a incapacidade de compreensão de memes partilhados em massa. Ao Facebook sucedeu-se o Instagram; o Instagram esforça-se por recuperar uma audiência cada vez mais atraída pelo TikTok; no TikTok a geração Z reina. Os millennials veem-se hoje ultrapassados por uma geração ainda mais jovem e desenvolta com as novas normas virtuais - embora ainda jovens em termos demográficos, os millennials são já "velhos" para a internet. Num mundo em permanente evolução tecnológica, quanto tempo restará até a geração Z ser também ultrapassada? 

Em primeiro lugar, importa esclarecer o que são estas categorias geracionais - e quais os critérios que as definem e separam. "A literatura geracional tem duas vertentes: a sociológica e a do marketing", explica Cláudia Álvares, professora associada do Departamento de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). O desfasamento entre gerações costuma oscilar entre os 15 e 30 anos, dependendo de factores como "acontecimentos políticos, culturais ou sociais de grande influência na memória coletiva", ou, simplesmente, a interpretação de cada investigador. A renovação de gerações é factual mas a sua divisão em fatias etárias específicas e categorização em "geração X, Y ou Z" é arbitrária - e controversa. "No marketing faz-se muita referência a essas classificações geracionais mas os sociólogos são mais críticos", nota Cláudia Álvares. "Consideram-nas redutoras e defendem que não se pode abarcar todos os elementos desses grupos como tendo as mesmas características."

O que diferencia, então, as etiquetas X, Y ou Z? A geração X, referente às pessoas nascidas entre as décadas de 60 e 80, é a "geração híbrida: experimentou uma vida sem tecnologia e outra com tecnologia", enquanto as seguintes "já nasceram numa época em que se usava o digital". As linhas que apartam os millennials e a geração Z são mais esbatidas - afinal, pouco separa uma pessoa nascida em 1995 de outra nascida em 1998. De acordo com Cláudia Álvares, estas classificações são sobretudo ferramentas de marketing - particularmente oportunas na era pós-digital do marketing 4.0, centrado no perfil do consumidor e "nos valores sociais refletidos pelo produto", em que a categorização do público em "grupos-alvo" permite adequar a estratégia de venda. Ainda assim, os utilizadores das redes sociais adoptam orgulhosamente estas etiquetas geracionais como o símbolo de uma comunidade a que pertencem. E mais: demarcam-se firmemente das gerações anteriores. 

A geração millennial é também conhecida por "geração da internet", por ter nascido e crescido em pleno desenvolvimento tecnológico. Foram pioneiros na nova realidade de comunicação, aderindo a fóruns, trocando opiniões com estranhos do outro lado do mundo e partilhando o dia-a-dia em redes sociais. Mas o envelhecimento desta geração - ou o rejuvenescimento da internet - começa a acusar-se em maneirismos linguísticos e comportamentais considerados "fora de moda", particularmente em plataformas mais recentes como o TikTok. Especificar a casa de Hogwarts (a escola fictícia do universo Harry Potter) na biografia, usar expressões como "doggo" (nome carinhoso para "cão") ou tirar "selfies" com a câmara posicionada acima do nível dos olhos são exemplos de crimes imperdoáveis na perspetiva crítica da geração Z. Mais embaraçoso, talvez só mesmo a "#MillennialPause", da qual até a estrela pop Taylor Swift é culpada: uma breve hesitação no início de um vídeo antes de começar a falar para verificar se a gravação está de facto a decorrer normalmente. A geração Z ri-se e faz vídeos a parodiar a situação, exagerando os olhos perdidos no ecrã e a expressão desconcertada da geração anterior - quase tão inapta no TikTok como os "velhos" no Facebook. 

@nisipisa #stitch with @taylorswift ♬ All Too Well (10 Minute Version) (Taylor's Version) (From The Vault) - Taylor Swift

"Em termos de redes sociais, principalmente no TikTok, o consumo por parte dos millennials é muito diferente", reconhece Sofia da Costa Martins, estrategista de marca numa agência internacional. "É mais focado em vídeos de DIY [do-it-yourself], receitas rápidas e também muito 'gossip' e entretenimento." As gerações seguintes "são mais viradas para as danças e trends do momento", acompanhando em tempo real as tendências em voga ao redor do mundo. Os velhos clichés das biografias são trocados, por exemplo, pela menção dos pronomes preferidos, algo "tipicamente americano" que começa a normalizar-se muito devido ao exemplo de influenciadores. A informação é consumida de forma cada vez mais imediata e efémera, com hashtags sobrepondo-se a hashtags e tendências entrando e passando de moda a ritmo imprevisível. "Tudo é rápido e volátil, nada parece destinado a durar muito tempo: nem a moda, nem as notícias, nem sequer os resultados empresariais", aponta Oriol Bartomeus, professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Barcelona, citado pelo El País. "São outros tempos. E o resultado é um ser humano alterado, em constante tensão, que se aborrece quando não acontecem coisas novas." 

O ritmo acelerado desta nova realidade parece ter consequências até na própria perceção do tempo - tanto no consumo de conteúdos virtuais como na apreciação da juventude. Selena Gomez é frequentemente presenteada com o título "queen of aging" (traduzível como "rainha do envelhecimento") pela beleza que parece desafiar as leis do tempo - apesar de ter completado 30 anos em julho deste ano. "O Jin não envelhece. Será um vampiro?", lê-se em plataformas como o Twitter e o TikTok, em referência ao membro mais velho do grupo de K-Pop BTS, de apenas 29 anos. Os sucessos de rádio da década de 2010 são recordados em compilações "nostálgicas"; filmes como Pretty Woman, de 1990, são considerados "clássicos vintage". Uma utilizadora do TikTok cunhou um termo para categorizar tendências de moda ou expressões linguísticas que foram outrora tendência mas que caíram agora em desuso: "cheugy". Exemplos? A frase "live, laugh, love", citar letras de canções na descrição de fotografias, proclamar a necessidade de uma chávena de café pela manhã. Não é coincidência que a maioria dos fenómenos considerados "cheugy" sejam ainda populares entre os millennials - no frenesim do atual cenário virtual, as barreiras geracionais intensificam-se e a moda de ontem é rapidamente descartada como velha, gasta e ultrapassada por uma nova tendência. "Então não se torna tudo cheugy a certo ponto?", questiona uma seguidora na secção de comentários. "Ding, ding, ding, estás correta", responde a criadora do vídeo. 

@webkinzwhore143 Expand 👏 your 👏 vocabulary 👏 to 👏 include 👏 made 👏 up 👏 words 👏#greenscreen #cheugy #cheug ♬ original sound - Hal

O futuro da geração Z parece encaixado nesta sequência que o El País descreve em tom mordaz como "velha e sempre prestes a caducar como um iogurte". O grupo demográfico seguinte, a geração alfa, cresceu com os olhos colados ao ecrã e começa agora a aproximar-se da faixa dos 13 anos - a idade mínima para se criar conta na maioria das redes sociais. "Acredito que vai haver uma nova adaptação", afirma Sofia da Costa Martins, citando a realidade alternativa do metaverso como o exemplo mais evidente de uma evolução já incipiente. "Isto já desperta muito o interesse de uma geração que ainda não está bem definida mas que cresceu 100% em atualização digital." 

A geração Z pode continuar, por enquanto, a gracejar sobre pausas embaraçosas nos vídeos de TikTok e tendências démodé que os millennials insistem em perpetuar. Mas a evolução galopante da internet é implacável: num futuro não muito distante, muitos dos traços da geração moderna de hoje vão ser o "cheugy" de amanhã. 

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