Avarias em cabos submarinos deixam milhões de africanos com problemas de acesso à Internet

CNN Portugal , MTR
25 mar, 21:07
Hacker (Jakub Porzycki/Getty Images)

Bolsa de valores do Gana fechou uma hora mais tarde do que o habitual devido a problemas de ligação que interromperam as negociações

Vários países africanos enfrentam cortes no acesso à internet desde a manhã da passada quinta-feira, devido a falhas detetadas em cabos submarinos, conforme relatado por operadoras de telecomunicações no continente e confirmado por jornalistas da agência France-Presse.  A MTN, operadora sul-africana, mencionou que "danos em inúmeros cabos submarinos têm impactado a qualidade da ligação de maneira significativa em vários países da África Ocidental", enquanto trabalha em "operações" para redirecionar o tráfego por rotas alternativas.

A bolsa de valores do Gana fechou uma hora mais tarde do que o habitual devido a problemas de ligação que interromperam as negociações, a qualidade da ligação caiu para menos de 20% dos níveis normais na Libéria e no Benim, enquanto que na Costa do Marfim a qualidade de ligação caiu para apenas 3%, quando comparadas com os valores previstos e normais. 

Os países mais afetados incluem a Libéria, Gana, Benim, Burkina Faso e Costa do Marfim, com interrupções de ligação também registadas, ainda que com menos impacto, no Togo, Camarões, Gabão, Namíbia e Níger, segundo a ONG Netblocks ,especializada em cibersegurança internacional.

Os correspondentes da France-Presse por todo o continente africano foram impactados pelas falhas, especialmente em Abidjan, capital económica da Costa do Marfim. A operadora Vodacom, da África do Sul, relatou "problemas de ligação com alguns clientes", enquanto que uma empresa de cimento nigeriana se viu obrigada a cancelar uma conferência de revisão de resultados.

O problema reside nos graves danos em quatro dos principais cabos submarinos de dados que servem todo o continente, incluindo o Sistema de Cabos da África Ocidental. Inicialmente, os cabos afetados estavam próximos da Costa do Marfim e muito embora a causa da avaria não seja clara, de acordo com o geologista Peter Talling, que está a liderar um projeto de pesquisa na região, estas falhas podem estar ligadas a um deslizamento de terras subaquático no desfiladeiro submarino Trou sans Fond, perto da Costa do Marfim.

A empresa MainOne, que opera um dos cabos da África Ocidental, diz ter descartado causas humanas (tais como pesca) e acredita que o dano foi causado por atividade sísmica no leito marinho. O deslizamento de terras não é a única fonte dos problemas de Internet que, neste momento, têm potencial para afetar ligações um pouco por todo o mundo.

Sabe-se que os Houthis, um grupo rebelde do Iémen, dispararam mísseis contra um navio de carga no Mar Vermelho e uma âncora solta pelo navio  terá causado danos a cabos submarinos na região, responsável por infraestruturas que são também "cruciais" para a transferência de dados da Ásia para a Europa, segundo a HGC Global Communications. Os cortes afetaram cerca de 25% do tráfego que atravessa o Mar Vermelho, sendo que a HGC indicou já ter começado a reencaminhar o tráfego.

Os cabos submarinos carregam 99% do tráfego da Internet intercontinental de todo o mundo, um fluxo de dados vital para as economias. África é, ainda assim, particularmente vulnerável a este tipo de cortes. O tráfego é mais dificilmente redirecionado quando comparado, por exemplo, com um cabo que faz a ligação entre a América do Norte e a Europa que poderá ser facilmente restabelecido através de ligações entre duas dezenas de outros.

Os países africanos "têm menos margem de erro", diz Paul Broadsky da empresa de pesquisa americana TeleGeography, citado pelo The Economist, sendo que apenas cinco cabos submarinos (incluindo um em construção) passam pela costa oeste de África entre a África do Sul e a Nigéria.. A Autoridade Nacional de Comunicação do Gana estima, por exemplo, que o problema levará pelo menos cinco semanas para ser resolvido.

Estes cortes ressalvam ainda mais a dependência do continente africano dos cabos submarinos de fibra óptica para toda a sua comunicação digital, destacando a fragilidade dos sistemas de comunicação de toda a África, especialmente quando comparado com a Europa.

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