Ceferín e a situação de Israel: «Sou contra banir atletas»

3 set, 12:38
Faixa da UEFA: «Parem de matar crianças, parem de matar civis»

Aleksander Ceferin falou sobre uma faixa exibida na Supertaça Europeia que dividiu opiniões

Não há como fugir - as repercurssões dos conflitos bélicos transparecem no desporto. Isso é visível há muito tempo mas, atualmente, existem dois que chamam mais a atenção mediática. E envolvem países-membro da UEFA.

No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, a UEFA prontamente exclui a Rússia, o agressor, de todas as suas competições, em 2022. Porém, no caso de Israel, que tem tentado lidar com a ameaça terrorista do Hamas às custas de mais de 60 mil palestinianos mortos, não houve sanções.

Tanto a seleção israelita como os seus clubes continuam a disputar competições europeias (sendo que o país localiza-se no Médio Oriente). O presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, deu uma entrevista ao Politico em que aborda essa questão. Parece rejeitar impôr sanções.

«O que está a acontecer com os civis magoa-me. É impossível continuar a ver estas coisas. Por outro lado, não sou a favor de banir os atletas. O que pode um atleta fazer a um governo para parar a guerra? É muito, muito difícil. As equipas russas foram banidas. A guerra parou? Não parou. Portanto, por enquanto, não sei», começou por explicar.

«Devo dizer que, com a situação na Rússia e na Ucrânia, houve uma pressão política muito forte. Agora, é mais uma pressão da sociedade civil do que dos políticos, porque os políticos são, obviamente, muito pragmáticos quando se trata de guerras e vítimas. Não posso dizer o que vai acontecer. Há conversas sobre tudo, mas, pessoalmente, sou contra punir os atletas», disse. 

Ceferin, esloveno, deu o exemplo de um grande futebolista balcânico sobre esta questão. 

«Um ex-jogador da Jugoslávia, [Dejan] Savićević, que agora é presidente da Federação de Futebol de Montenegro, disse que em 1992, quando a Jugoslávia foi banida do Campeonato Europeu, todos eles [os jogadores] eram contra [Slobodan] Milošević. Todos eram contra o sistema. Mas eles foram expulsos. E, devido às sanções políticas, o resultado foi o ódio contra o Ocidente, que ainda permanece. Na Sérvia, por exemplo, se fizer-se um referendo para a entrada na NATO, 80% serão contra», recordou.

A UEFA foi criticada (e também elogiada) por exibir uma faixa na Supertaça Europeia em que se lia em inglês «parem de matar crianças, parem de matar civis». Ceferin garante que esta ideia partiu do organismo e não da pressão do futebolista egípcio Mohamed Salah.

«Quem pensa que essa é uma mensagem política é um idiota, na minha opinião. É terrível que crianças estejam a morrer por causa de interesses políticos, morrendo de fome. O Mohamed, que estava a entregar as medalhas comigo [na Supertaça], perdeu a mãe e o pai e ficou gravemente ferido. Nunca vi uma criança abraçar-me tanto como ele. Ele precisa de amor. Não precisa de outra bomba na cabeça por causa de interesses geopolíticos», disse.

«Mas sabe o que aconteceu no final? Recebi cartas de uma organização populista extremista de Israel dizendo que, por causa disso, somos anti-semitas. Por outro lado, recebi mensagens de grupos de extrema esquerda e pró-palestinianos dizendo que aquilo não é nada, que estamos apenas a lavar as mãos. Na vida, muitas vezes, provavelmente, o melhor é não fazer nada. Mas se algo tão grave está a acontecer, algo tão terrível que não me deixa dormir, ninguém nesta organização disse que não devíamos fazer nada. Ninguém. Então, temos de fazer o que está certo», finalizou.

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