Legião de Cristo: depois do escândalo de pedofilia, os milhões em offshores revelados nos Pandora Papers

7 out, 11:07
Religião (Reuters)
Religião (Reuters)

Documentos do Pandora Papers revelam que a ordem católica tinha cerca de 260 milhões de euros em fundos na Nova Zelândia

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Os Pandora Papers, a investigação divulgada esta semana pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), encontrou ligações entre a Ordem religiosa Legionários de Cristo (ou Legião de Cristo) e milhões investidos em companhias proprietárias de vários edifícios residenciais, nos Estados Unidos. Milhões com origem em fundos offshore, que permitiam ocultar os verdadeiros proprietários. Durante a pandemia, estas companhias despejaram centenas de pessoas que passavam por dificuldades financeiras. Segundo o ICIJ, só na Florida foram contabilizados 100 processos, nos tribunais, contra as ordens de despejo.

Depois do escândalo de abuso sexual de menores que abalou a Legião de Cristo e levou o Vaticano a abrir uma investigação em 2010 – e a tentar restruturar a ordem religiosa -, surgem agora novas informações que fazem questionar os caminhos “católicos” escolhidos pela instituição.

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Segundo a informação agora tornada pública pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, através de três fundos, com sede na Nova Zelândia, e com cerca de 260 milhões de euros em bens, os Legionários de Cristo, tornaram-se, por exemplo, sócios de uma estrutura chamada “Complexo de Apartamentos Lomena”. Mas não só, acabaram por investir milhões noutros edifícios residenciais, espalhados pelos Estados Unidos - Florida, Texas, Iowa, Indiana e Illinois.

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Quando a investigação foi anunciada pelo Vaticano, há onze anos, membros bem colocados da Ordem começaram a “montar” um trio de fundos na Nova Zelândia com o objetivo de lá colocar o dinheiro da instituição. Dois desses fundos movimentaram milhões, um pouco por todo o mundo. Entre estes, os 14 milhões de investimento em complexos residenciais que a empresa Pensam Capital, dona do Complexo de apartamentos Lomena, estava a adquirir em vários estados norte-americanos. Em resposta ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, a Pensam Capital descartou ter qualquer informação sobre dinheiro proveniente da Legião de Cristo.

Uma decisão inédita do Vaticano

Estes fundos foram criados numa altura em que decorriam em tribunal os processos das vítimas de abuso sexual dos padres desta ordem, que exigiam compensações financeiras. O próprio Vaticano tinha criado uma comissão para acompanhar os processos e tentar chegar a acordo com as vítimas. O escândalo dos abusos levou o Vaticano a tomar uma decisão drástica, nunca antes vista, contra uma ordem católica. O Vaticano queria examinar as finanças, investigar os crimes de abuso sexual e tentar reestruturar a ordem religiosa.

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Questionados pelos jornalistas do Consórcio se tinham informado o Vaticano sobre a existência destes fundos, a Legião de Cristo respondeu: “As instituições religiosas não têm a obrigação de enviar informações detalhadas ao Vaticano sobre suas decisões financeiras internas ou sobre a sua organização”. No entanto, ao ICIJ, a instituição admitiu ter ligação a um dos fundos, mas não aos outros dois, que detinham a maioria do capital. A Legião de Cristo acrescentou desconhecer as operações que foram levadas a cabo por esses fundos.

Os documentos revelam que esses fundos foram fundados por familiares do Padre Luis Garza Medina, um dos mais altos líderes da Legião de Cristo. De acordo com o jornal espanhol El País, foi ele o arquitecto das finanças da Legião de Cristo. Mas o Padre Luis Garza Medina, através de um porta-voz, garantiu não ter qualquer controlo sobre os fundos.

Os três fundos geridos pelos mesmos responsáveis e com a mesma morada na Nova Zelândia, serviriam, segundo o porta voz do Padre Luis Garza Medina, para guardar dinheiro que se destinava à caridade e se dedicava a apoiar padres mais idosos e outras causas católicas. Garantindo que apenas fizeram a distribuição dessas verbas.

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"Os milionários de Cristo"

A Congregação dos Legionários de Cristo é uma congregação católica, fundada pelo padre mexicano Marcial Maciel, na cidade do México, em 1941, e declara como missão “a extensão do Reino de Cristo na sociedade conforme as exigências da justiça e caridade cristã, através da formação integral de leigos e sacerdotes, em colaboração com os bispos”.

A forma como conseguiam angariar dinheiro, junto dos mais abastados, tornou-os conhecidos, de forma irónica, como “os milionários de Cristo”. O padre Marcial Maciel, segundo o El País, foi considerado o maior angariador de fundos da igreja moderna.

Já em 2017,  jornal italiano o L’Espresso divulgou que mais 250 milhões de euros tinham passado por uma companhia sediada nas Bermudas, 10 anos antes. Ou seja, em 2007. Na altura, a Legião respondeu que não tinha nenhuma companhia offshore e não colocava os seus recursos nessas companhias.

Segundo o jornal El País, cinco fundos de capital de risco espanhóis receberam mais de quatro milhões de euros transferidos de um destes fundos na Nova Zelândia. Entre os beneficiários destes milhões estão, por exemplo, a Seaya Ventures, fundada pela filha do ex-presidente do BBVA, Francisco González, e que tem entre os seus unicórnios a Glovo, o Cabify e o Wallbox.

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Recorde-se que o escândalo de pedofilia que abalou a instituição chocou o mundo. Um relatório interno terá concluído que entre 1941 e 2019 pelo menos 175 menores foram vítimas de abuso por mais de 30 padres. Entre eles, o fundador da congregação, o padre Marcial Maciel, que terá abusado próprios filhos, que teve clandestinamente. No caso do padre Marcial Maciel, que morreu em 2008, foram contabilizadas cerca de 60 vítimas.

 

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