Há portugueses a trabalhar no desenvolvimento de um futebol, acreditam, com potencialidades para outros voos. Bruno Cancela é um deles e integra os quadros técnicos da federação e do Elite SC, clube que se sagrou campeão nacional, 17 anos depois. Dos costumes locais aos episódios insólitos, a vida de um treinador português nas Caraíbas
Ilhas Caimão, sinónimo de calor, praias idílicas, de paraíso fiscal e… futebol? O plano é esse, pelo menos, e há portugueses a trabalhar nos bastidores de uma (r)evolução que visa a sua afirmação. Os sinais de que por ali algo está a mudar começam a emergir e resultam da ousadia de quem lhe reconheceu o devido potencial.
Num país onde se vive a um «ritmo muito calmo», (r)evolução deve ser escrito assim mesmo, com o “r” em perspetiva. «Se, em Portugal, vivemos com o lema de “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, lá é ao contrário. É mais “se pudermos fazer amanhã, não vamos fazer hoje”», conta Bruno Cancela, entre sorrisos, ele que integra o corpo técnico da Federação de Futebol das Ilhas Caimão e é treinador da equipa feminina, adjunto nos seniores e coordenador da formação no Elite Sport Club.
Ancoradas no mar do Caribe, onde o sol raramente se cansa de brilhar, as Ilhas Caimão, que comportam três ilhas - Grand Cayman, Cayman Brac e Little Cayman -, estendem-se ao longo de cerca de 260 quilómetros quadrados e albergam uma população de 80 mil pessoas, o equivalente, por exemplo, à da cidade de Aveiro.
O futebol, esse, é pensado “à europeia”. No masculino, há duas divisões - a principal com 12 equipas e a secundária com 10 - que jogam a duas voltas, com subidas e descidas, sem segundas fases, play-off ou finais para se encontrar o campeão. Influência, talvez, da herança britânica na sua cultura, pese embora a proximidade física com os Estados Unidos da América, onde o desporto é encarado com outras prioridades.
O escândalo de corrupção que abalou a FIFA, em 2015, teve como consequência a retirada de «todo o investimento na Liga», tornando-a amadora. «Estamos a tentar passá-la a semiprofissional. Estão a dar-se os passos certos e isso vai acontecer», acredita Bruno Cancela.
Em 2024/2025, o campeão caimanês foi o Elite SC, que não conseguia semelhante feito há 17 anos. «Toda a gente valorizou o nosso título porque sabiam que estávamos a trabalhar de uma forma diferente. E levámos a que outras equipas começassem a mudar um pouco a mentalidade. Pedem-nos para os aconselhar e ajudar. Temos a admiração dos outros, o que em Portugal não é tão comum», nota o treinador natural de Santa Maria da Feira, que se mudou para o Elite SC, no início do ano, após duas temporadas no Academy SC, onde venceu duas Taças Nacionais, o equivalente à nossa Taça de Portugal.
Mesmo naquele contexto competitivo, «ser campeão nacional é inacreditável e a realização de um sonho». «O sentimento é o mesmo, de satisfação e realização pessoal, de sentir que fomos os melhores da ilha», salienta Bruno Cancela, que se esforçou por se ligar a uma comunidade que o recebeu de braços abertos.
«Se há algo de que gosto nas Ilhas Caimão é mesmo das pessoas», assume. Foram elas que o levaram, entre outras coisas, a passar a rezar ao lado dos jogadores antes e depois de cada treino ou jogo. «Em Portugal, não o fazia. Foi um choque grande, mas agora lido perfeitamente com isso. Aprendi rápido as orações e às vezes ia à igreja com eles. São católicos e muito religiosos, dão muito valor a esse esforço», diz.
Olhar para o futebol com outros olhos
Assim que chegou à ilha, há pouco mais de dois anos, Bruno percebeu rapidamente a dimensão do trabalho que lhe estava destinado. «O maior choque foi a falta de cultura de balneário. Grande parte dos jogadores vinham equipados de casa e, no fim, orávamos e íamos embora», recorda.
Com calma, ajudou a mudar mentalidades e a criar um «clima de família» no clube. Para darem esse passo, foi fundamental que os jogadores «percebessem a importância disso para poderem ser melhores», e Bruno Cancela também aprendeu ao longo desse processo: «Levou-me a ser mais paciente e resiliente, a observar mais e a falar menos. Foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal e para olhar para o futebol com outros olhos».
Independentemente da perspetiva, o trabalho é imperativo para que a modalidade se possa desenvolver na ilha. É preciso, sobretudo, abrir portas onde o futebol está mais desenvolvido para expor os maiores talentos locais a outro tipo de exigências. «Temos 34 jogadores com bolsas de estudo nos Estados Unidos e queremos chegar à Europa. Temos jogadores na Alemanha e alguns já vieram a Portugal para integrar treinos de clubes em contexto profissional. No próximo ano, acredito piamente que dois ou três vão conseguir integrar equipas portuguesas», atira Bruno Cancela.
O objetivo maior é o de «criar uma referência para os jovens do país», uma lenda capaz de os fazer sonhar com o mundo. Esse trabalho é ali feito, para já, pelo incontornável Cristiano Ronaldo. «Nos campos de férias, no verão, muitos dos miúdos vinham com a camisola do Al Nassr. Na altura, até enviei uma foto dos miúdos com a camisola do Ronaldo para o Nuno Batista e para o mister Luís Castro», conta o jovem treinador.
CR7 divide, ainda assim, esse protagonismo com outro craque português: «Eles acompanham muito a Premier League e há muitos adeptos do Manchester United. O Bruno Fernandes também é um grande ídolo nas Ilhas Caimão».
Sinais de evolução
Para já, a diáspora caimanesa tem na jovem Molly Kehoe, que disputa o terceiro escalão do futebol inglês pelo West Bromwich Albion, a sua principal figura.
Molly é o rosto da aposta forte da federação local no futebol feminino, que também “apanhou” Bruno Cancela. Em fevereiro deste ano, o português assumiu o comando da equipa feminina do Elite SC, conduzindo-a à final da Taça Nacional. «Começámos com seis ou sete jogadoras nos treinos e acabámos com 16 ou 17», valoriza.
Além do trabalho que desempenha no Elite SC, Bruno Cancela integra o quadro técnico da federação caimanesa de futebol. A criação de uma academia nacional é o próximo grande projeto em curso, mas são os resultados da Seleção principal que têm feito a população sonhar com outros palcos.
O recente jogo frente às Honduras, «uma Seleção “grande” naquela região», para a fase de apuramento para o Mundial, comprovou-o. «Estavam 34 graus e tivemos a bancada cheia. Toda a gente esperava que levássemos uma goleada, mas só sofremos aos 86 minutos, num autogolo (derrota por 1-0). Foi muito marcante. Quem não acreditava no futebol das Ilhas Caimão, viu ali que as coisas estão a ser bem feitas», sente o treinador português.
«Sair à rua, no dia seguinte, e ouvir as pessoas dizer “que grande jogo fizeram”, sentir a nação a apoiar, torna a experiência mais especial», admite, antes de salientar: «As pessoas estão a acreditar na transparência que estamos a passar e temos tido bons números de público mesmo nos jogos da Premier League (caimanesa)».
Foi também ao serviço da Seleção que Bruno Cancela viveu os episódios mais caricatos nas Caraíbas. Há um ano, as Ilhas Caimão falharam o jogo de apuramento para o Mundial em Cuba por motivos de índole política. «Perdemos por falta de comparência porque se os atletas que temos nos Estados Unidos viajassem para lá, não poderiam regressar num prazo de três anos. Eles estudam lá, não tínhamos jogadores para realizar o jogo».
Contra Guadalupe, «começou a chover tanto que, a meio do jogo, alguns diretores (da federação) tiveram de utilizar placares de publicidade para escoarem a água para fora do relvado». «O comissário da FIFA só repetia que o jogo tinha mesmo de se realizar…», lembra, divertido.
«Pode parecer uma maluquice...»
Em junho, depois de ter passado o primeiro Natal, aniversário e passagem de ano longe da família, Bruno pediu para antecipar o regresso a Portugal para matar saudades. «As pessoas compreenderam, deram-me essa liberdade e deixaram-me as portas abertas para voltar» às Ilhas Caimão, nota.
Na despedida, ouviu as suas jogadoras pedirem-lhe para não deixar o clube e, por estes dias, continua a receber mensagens e chamadas de atletas da formação do Elite SC. «Gostava de ficar em Portugal se tivesse um projeto que me agradasse, mas vou querer continuar a ajudar as Ilhas Caimão», garante. Mesmo agora, mantém o contacto com os restantes elementos do corpo técnico das seleções caimanesas e dá uma ajuda na vídeo-análise de jogos.
Bruno Cancela acredita mesmo que «o talento natural de lá, onde as crianças ainda jogam nas ruas, descalças e sem problemas, é superior ao de Portugal». «Depois há a falta de profissionalismo dos clubes, que estamos a trabalhar», com o anseio de, «em um ou dois anos, conseguir algo de muito positivo e marcar o mundo do futebol com uma surpresa, se calhar, nos jogos internacionais».
Para um país «com 80 mil habitantes, de que as pessoas nunca ouviram falar» e que ocupa o modesto 197.º lugar no ranking da FIFA, «pode parecer uma maluquice» apontar a surpresas numa modalidade com expressão à escala planetária, concede o português. Mas, Bruno, já se ouviram coisas bem mais desajustadas à realidade, nos últimos tempos. Resta trabalhar. E arriscar ser feliz.