No Afeganistão, há pais a venderem filhas para terem dinheiro para comer

2 nov, 13:03

Prática ressurgiu em força com a tomada do poder por parte dos Talibãs. “Tenho de a vender para manter o resto da família vivo”, disse um pai

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Abdul Malik perdeu o emprego há quatro anos. Ele e a sua família vivem num campo de refugiados na província da Baghdis, no noroeste do Afeganistão. Perante a falta de rendimentos, e o longo inverno que se avizinha, Malik teve de tomar a decisão que nenhum pai quer ter de tomar: vender a sua filha, Parwana, de 9 anos.

Somos uma família de oito pessoas. Tenho de a vender para manter os outros vivos”, diz Malik à equipa da CNN.

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O comprador, de nome Qorban, um homem que diz ter 55 anos, prometeu “não bater” na menina e trata-la como um membro da sua família. Mas Malik, que se confessa “devastado” com a sua decisão, não alimenta muitas esperanças.

O homem disse-me: ‘Eu vou comprar a menina. Não tem nada a ver com o que eu faça com ela’”.

A transação fica completa com o pagamento de 200 mil afghanis, pouco menos de dois mil euros. À saída, Parwana chora copiosamente e tenta agarrar-se à mãe. Mas é demasiado tarde.

Este não é caso único no Afeganistão. Com a ascensão dos Talibãs ao poder, a prática ressurgiu um pouco por todo o país. Um relatório da ONU estima que mais de metade da população viva com escassez de alimentos, e que três milhões de crianças com menos de cinco enfrentem malnutrição severa nos próximos meses.

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Apesar das Nações Unidas se terem comprometido a doar cerca de 860 milhões de euros para apoiar a população afegã, menos de metade desse valor foi recebido. Muitos contribuidores temem que a ajuda legitime o governo dos Talibãs, e escolhem não o fazer.

Isabelle Moussard Carlsen, chefe de gabinete no Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, deixou um apelo à comunidade internacional.

Ao não libertarem essas verbas, são os mais vulneráveis, os pobres e as raparigas que vão sofrer”, afirmou Carlsen à CNN.

Reconhecendo que o resto do mundo tem de escrutinar os Talibãs por violações dos direitos humanos, Carlsen avisou que, se a situação se arrastar, mais famílias irão morrer à fome e mais raparigas irão ser vendidas.

De volta ao campo de Baghdis, Abdul Malik não se ilude. Quando o dinheiro da venda de Parwana acabar, sabe que vai enfrentar outra decisão difícil.

Não temos futuro, está destruído. Terei de vender outra das minhas filhas caso a situação financeira não melhore. Provavelmente, será a de dois anos”, disse.

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