De Jesy Nelson a Kim Kardashian: o que é o "blackfishing" e porque é que há mulheres brancas que querem parecer negras

16 out, 22:12
Jesy Nelson (no videoclipe de "Boyzs", 2021)
Jesy Nelson (no videoclipe de "Boyzs", 2021)

Cantoras e outras figuras públicas aparecem com a pele mais escura e penteados tradicionalmente afroamericanos para parecerem mais "exóticas" e chegarem a uma audiência maior. Mas este tipo de apropriação cultural está a ser criticado

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A britânica Jesy Nelson acabou de se estrear a solo após uma carreira no grupo feminino Little Mix. Tudo parecia estar a correr bem para esta cantora de 30 anos, que se tornou conhecida através do concurso "The X-Factor". Mas, no videoclipe do seu single de estreia, "Boyz", com a participação de Nicki Minaj, Jesy Nelson parece ter a pele mais escura do que é habitual e todo o visual imita a cultura do "hip hop" afroamericano - o que imediatamente levou a que fosse acusada de "blackfishing", ou seja, de se fazer passar por uma mulher negra.

Numa conversa em direto no instagram de Nicki Minaj, Nelson justificou-se, dizendo que o tom bronzeado se devia ao facto de ter feito férias nas Antilhas. E, referindo-se ao ambiente do videoclipe, acrescentou: “A minha intenção nunca foi ofender as pessoas de cor. Esta foi a música com que cresci e sempre achei que os vídeos eram os melhores. Para mim, o hip hop e o R&B dos anos 90 e 2000 são os melhores géneros musicais. Eu só queria celebrar a música que eu adoro."

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"Eu adoro a cultura negra, adoro a música negra", acrescentou a cantora depois à revista Vulture. "Mas tenho a noção de que sou uma mulher branca britânica, nunca disse o contrário."

No entanto, esta já não é a primeira vez que Jesy Nelson é acusada de "blackfishing" e terá muita dificuldade em calar as vozes que entretanto se levantaram nas várias redes sociais. Entretanto, o videoclipe publicado no dia 8 de outubro já teve perto de dez milhões de visualizações.

O que é "blackfishing"?

O termo "blackfish" é um derivado de "catfish", que significa impostor, e é usado para descrever uma figura pública que utiliza maquilhagem, adereços e nalguns casos até cirurgia para mudar a sua aparência e ficar mais parecida a uma pessoa negra, com o objetivo de lucrar com essa aparência. Alguns exemplos mais comuns são tentar escurecer o tom da pele, mudar o penteado ou aumentar o tamanho dos lábios, mas também pode passar pela adoção de um determinado tipo de linguagem ou até de sotaque.

A expressão foi utilizada pela primeira vez em 2018, pela jornalista norte-americana Wanna Thompson, que identificou, na rede social Twitter, várias "influencers" brancas que faziam "cosplay" de mulheres negras. O tweet tornou-se viral e foi partilhado mais de 23 mil vezes. 

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O "blackfishing" não se confunde com o "black face" (a prática, geralmente por parte de atores ou humoristas, de pintar o rosto de preto para interpretar ou imitar personagens negras) e é diferente da chamada apropriação cultural, uma vez que, de acordo com o Cambridge Dictionary, a apropriação cultural é “o ato de usar coisas de uma cultura que não é a sua, sem mostrar que se entende ou respeita essa cultura", ou seja, é uma apropriação leviana mas que não tem uma intenção mercantil. Por exemplo, quando algumas celebridades usam "dreadlocks" ou determinados estilos de roupa, por os acharem bonitos ou por serem um tendência. Enquanto que no "blackfishing" existe uma verdadeira tentativa de se fazer passar por alguém de outra cultura.

O problema, dizem os críticos, é que as pessoas que fazem "blackfishing" querem parecer negras, mas não querem passar pela experiência da negritude.

"É um fenómeno sócio-comportamental. As pessoas usam características étnicas com intuito de tirar proveito pessoal dessa identificação", escreveu no site "Alma Preta" a brasileira Triscila Oliveira, ativista de direitos humanos. "A prática é racista de todos os ângulos, desde a pessoa que pratica o 'blackfishing', protegida pelosseus privilégios, às seguidoras que usam um escudo neoliberal de direitos da mulher, até as empresas que buscam representatividade hoje, valendo-se do colorismo para invisibilizar os negros mais retintos, e levando uma ilusão de inclusão para as suas marcas, seguindo uma nova tendência de mercado."

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O "blackfishing" é considerado ofensivo por muitas mulheres negras também porque, durante séculos, elas foram discriminadas e estigmatizadas precisamente devido às suas características raciais, numa sociedade onde o ideal de beleza feminina correspondia à mulher de pele clara e cabelo liso (e quase sempre loiro). E essa discriminação continua. As marcas querem o "exotismo" das mulheres que parecem negras mas continuam a, muitas vezes, marginalizar, as verdadeiras mulheres negras.  

"Ser negro é cool, a não ser que se seja realmente negro", comentou na altura Wanna Thompson.

Kim Kardashian e outros exemplos de "blackfishing"

Jesy Nelson não é a primeira celebridade a ser acusada de "blackfishing". O seu caso é muito semelhante ao de Iggi Azaela, cantora australiana que também interpreta hip hop e que, além de ter sido acusada de escurecer a pele, imitou o sotaque afroamericano nas suas canções.

As cantoras Rita Ora e Ariana Grande foram acusadas de escurecer a pele e a primeira foi também bastante criticada por, durante muito tempo, esconder as suas origens albanesas, de tal forma que muitos dos seus fãs estavam convencidos que ela era afroamericana. 

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Mas são as irmãs Kardashian que são geralmente apontadas como exemplo máximo do "blackfishing". Kylie Jenner e Kim Kardashian já foram ambas criticadas por escurecerem a pele, por salientarem algumas zonas do seu corpo e por usarem trancinhas - mas, neste caso, Kim justificou-se com o facto de querer estabelecer empatia com a filha, North West, filha também de Kanye West e na altura com cinco anos.

"Milhões de jovens atribuem ao efeito Kardashian o aumento na procura de cirurgias e procedimentos estéticos para aumento de lábios, seios e glúteos, características estas que sempre foram e são motivos de gozo para negros e negras", explica Triscila Oliveira.

“Elas têm sido acusadas de apropriação cultural há mais de uma década e não é segredo que adotaram muitos estilos que as mulheres negras ou a cultura negra criaram, mas tornando-os mais apetecíveis", explicou Wanna Thompson, à revista Time, num artigo publicado em junho passado. “Agora as pessoas pensam que estão a copiar as Kardashian-Jenners quando se vestem ou penteiam de determinada forma."

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