“Se calhar em 2035 ou 2040 estaremos em Marte a fazer uma viagem”

1 mar, 19:02
Sérgio Ferreira, consultor da EY

ENTREVISTA || Sérgio Ferreira, consultor da EY, tem procurado perceber como a inteligência artificial vai transformar os negócios, identificando oportunidades para que eles resistam às mudanças e definam novos papéis. Nesta conversa com a CNN Portugal, o foco está no universo das viagens. Possibilidades há muitas: dos assistentes às visitas virtuais, que nos podem ajudar a decidir melhor aonde queremos mesmo ir

Com a inteligência artificial, que agências de viagens vamos ter no futuro?

Poderá ser uma agência de viagens totalmente diferente daquela que temos hoje. Um dos desafios de uma agência de viagens passa por ter informação, para poder disponibilizar de forma rápida aos seus clientes. Já temos um conjunto de ferramentas que permitem fazê-lo.

Mas a verdade é que os próprios clientes já fazem essas pesquisas, por exemplo, no ChatGPT. Que papel fica para os agentes de viagens?

Diria que a maior parte dos clientes vai continuar a querer a mesma coisa. Quando vou a uma agência de viagens, vou à procura de um pacote. Há segmentos. Há clientes que gostam de pesquisar na Internet e fazer o seu próprio pacote. E há clientes que vão continuar a recorrer às agências de viagens.

É aí que as agências de viagens têm de se reinventar, proporcionando, por exemplo, através de realidade aumentada, a possibilidade de visitar um destino antes de eu ter lá ido.

Estamos longe da morte das agências de viagem à custa da inteligência artificial…

As agências de viagens só vão desaparecer se não se reinventarem. Têm de se adaptar à tecnologia para poderem estar mais próximas daquilo que é a expectativa do cliente.

Esteve em Macau, para o último congresso da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT). O mercado asiático revela-se interessante pelo seu poder de compra. Que caminhos podem as agências de viagens portuguesas adotar para chegarem a este universo que está tão distante?

A tecnologia é, claramente, o veículo. É muito mais fácil distribuir em vários canais. Por exemplo, percebendo como funcionam as redes sociais na China. A grande vantagem está agora em produzir conteúdos para segmentos específicos, inclusive na língua materna desses segmentos. É possível, com estas ferramentas, produzir um vídeo em língua portuguesa e, depois, distribuí-lo em chinês, à distância de um clique. Isso, antes, era muito caro.

Há coisas importantes nesta transformação. Tudo o que consigamos digitalizar e desmaterializar, vamos conseguir tornar mais barato e democratizar. É isso que as agências de viagens têm de fazer também.

Ainda assim, a nossa relação com a inteligência artificial continua a ser um bocadinho difícil. Temos receio em confiar em conteúdos feitos por esta tecnologia. Parece que toca uma campainha qualquer no nosso cérebro…

Acho que os avatares toscos a que estamos habituados desaparecerão. Conseguiremos fazer figuras reais, nossas, e colocá-las a falar diretamente com os clientes através destes canais. Acredito que a barreira entre o mundo físico e o mundo digital vai esbater-se sem que nós consigamos perceber. Como é evidente, isso tem riscos.

E a diferença entre o planeta Terra e o que está para lá dele? Vai ser possível ultrapassá-la com a tecnologia?

Sim, acho que o futuro daquilo que é o turismo espacial vai estar disponível no espaço de uma década, até pelo que está a ser feito para reduzir o custo de lá ir. O que provavelmente vai acontecer é que não será só uma coisa de bilionários. O cidadão comum vai poder ir a uma agência de viagens e dizer que quer visitar a Lua. Se calhar em 2035 ou 2040 estaremos em Marte a fazer uma viagem.

É possível em 10 anos?

É, resultado da aceleração. As primeiras naves da NASA tinham um custo de 50 mil euros por cada quilo que era transportado para o espaço. Com a Starship [de Elon Musk] estamos a reduzir esse custo para menos de 100 dólares. Isto faz com que tudo mude, com que mude o paradigma: vai fazer com que se torne acessível para todos. Essa é a grande oportunidade. Ao tornarmos acessível, como é óbvio, haverá mais pessoas a poder entrar.

Claro que terá de ser sequencial. Hoje são os bilionários, daqui a um ou dois anos vão ser as pessoas ricas. Daqui a 10 anos vamos ser todos nós a poder viajar, tal como vamos de Portugal a Macau. A decisão do destino é que vai ser, se calhar, para a Estação Espacial Orbital Lunar.

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