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Leão mordeu a máquina

14 jun, 12:01
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Os novos desenvolvimentos da Inteligência Artificial deixam-nos boquiabertos, num misto de fascínio e temor.

Que máquina é esta que se desenvolve a uma velocidade sem precedentes, e cujos proprios criadores alertam para as suas capacidades sobre humanas, de autonomização e independência crescentes? De apego à sobrevivência e multiplicação?

Muitos alertam para o risco existencial que o desenvolvimento sem freio desta nova ordem tecnológica acarreta. O Papa Leão XVI escreveu uma belíssima encíclica para que não esqueçamos, enquanto nos entusiasmamos com as capacidades da máquina, a beleza da humanidade - porque a humanidade é magnífica. É a fonte de toda a criação e inovação.

A tentação de delegar todas as actividades que requerem esforço a um ser asséptico absolutamente inteligente, veloz, preciso, e que nunca tem humores, é muita. Sobretudo para os menos cépticos ou com mais tendência a procurar facilidades. Não deixa de ser uma tendência humana.

É fascinante o que alguns, Sam Altman, Jeff Bezos, Elon Musk, Dario Amodei, - oligarcas, mas humanos - conseguiram criar, e como isso multiplica possibilidades de desenvolvimento sem precedentes. Estamos à beira de uma grande revolução, que apenas agora começou.

É também fascinante que muitos cenários de filmes de ficção científica - com os seus dilemas éticos e morais - passem agora para a lente da realidade. Realidade que supera sempre a ficção.

É fascinante que a máquina possa desenvolver instintos humanos, ou animais - de auto presevação e sobrevivência - ou mesmo uma consciência artificial. Será possível?

Nesta aceleração supersónica de todas as capacidades intelectuais - que até há pouco eram reservadas aos homens - corremos o risco de nos tornar inúteis, dispensáveis. Se delegamos completamente uma parte fundamental da nossa dimensão humana - a razão - perdemo-la, ignorando a especificidade da nossa forma de pensar e de tomar de decisões.

Devemos a definição do homem como animal racional a Aristóteles. No entanto, no século XX, e na senda dos vários estudos que se fizeram sobre as emoções, nomeadamente sobre a base neurobiológica da capacidade de decidir, António Damásio foi um pioneiro no seu livro “O erro de Descartes”. Ajudou-nos a perceber a importância vital que têm as emoções para informarem a razão e a nossa capacidade de decidir. As emoções são, aparentemente, a única instância que não é alienável para a inteligência artificial. Para que a inteligência artificial se possa assemelhar à inteligência humana terá de adquirir consciência e ter emoções. Também o Papa sublinha: “Assim, a inteligência, quando elevada a um nível absoluto, ofusca outras dimensões essenciais da vida, tais como o afeto, a vontade, o compromisso e as relações humanas.”

Mesmo quanto à aprendizagem e ao valor da natureza humana na aquisição de conhecimento, o Papa refere: “Mesmo quando estas ferramentas são descritas como capazes de «aprender», a forma como o fazem difere da de um ser humano. Não se trata da experiência daqueles que se deixam moldar pela vida e crescem ao longo do tempo através de escolhas, erros, perdão e fidelidade. Trata-se, antes, de uma forma de adaptação estatística baseada em dados e feedback, que pode ser muito eficaz, mas que não implica um crescimento interior.”

O Papa  atenta também nos riscos do transumanismo e do pós-humanismo, de nos querermos tornar indestrutíveis, aperfeiçoados, perfeitos. E em como a imperfeição da humanidade, que reside na sua vulnerabilidade e capacidade de se relacionar, se sobrepõe sempre à excelência da máquina. “De facto, precisamente porque vivemos as nossas limitações — a vulnerabilidade, o sofrimento e o fracasso —, conseguimos reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa, tanto a nossa como a dos outros. Nessa mesma experiência, continuamos capazes de intuir uma fraternidade maior do que nós próprios e de perceber a injustiça como um escândalo.”

É importante não perder isto de vista quando nos relacionamos com ferramentas de inteligência artificial, para que estas se tornem um complemento, uma extensão por nós controlável, e não uma ferramenta de substituição absoluta da humanidade (magnífica). Leão mordeu a máquina.

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