Livro Branco sobre IA recomenda reforço do Serviço Público de Media na literacia e criação de Observatório
As barreiras à adoção da inteligência artificial pelos media em Portugal são essencialmente organizacionais e relacionadas com a capacitação sobre o uso da tecnologia, de acordo com o Livro Branco sobre a IA no Jornalismo.
Este é um dos destaques do Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo, que é apresentado esta segunda-feira e é financiando pelo European Media and Information, sob a gestão da Fundação Calouste Gulbenkian e coordenado pela Nova FCSH.
As barreiras identificadas "são sobretudo organizacionais e relacionadas com capacitação, com 67,5% dos/as profissionais a reportarem ausência de formação e mais de 80% a indicarem não possuir formação especializada em IA, apesar da procura latente", lê-se no documento.
"Estas fragilidades são especialmente visíveis nos meios locais e regionais", acrescenta o Livro Branco, que faz 10 recomendações.
O documento aponta que, "paralelamente, proliferam usos casuísticos e 'invisíveis' de IA, frequentemente sem protocolos que assegurem a necessária monitorização humana (human-in-the-loop)".
Refere-se ainda que, em vários contextos, o denominado "paradoxo da eficiência" torna-se latente, "onde os ganhos de rapidez e automatização não são acompanhados por métricas claras ou reinvestimento editorial que permitam consolidar melhorias efetivas".
"Identificam-se ainda necessidades setoriais específicas de capacitação, por exemplo, na televisão, a prioridade recai sobre competências forenses para a análise de artefactos de vídeo e voz; na rádio, sobre mecanismos de deteção de clonagem de voz; e, na imprensa e no online, sobre práticas de verificação multimodal e rotulagem consistente de conteúdos assistidos ou gerados por IA", acrescenta o Livro Branco.
No que respeita à independência editorial e plataformas tecnológicas, o Livro Branco refere que a "plataformização do ecossistema noticioso configura um regime de intermediação algorítmica que desloca funções críticas de distribuição e monetização para infraestruturas externas, reconfigurando poderes editoriais e condicionando a autonomia jornalística".
Em Portugal, "a dependência de soluções comerciais é particularmente elevada, sendo que neste cenário apenas 6,8% dos/as profissionais referem ter controlo direto sobre algoritmos ou modelos de IA e só 26,4% reconhecem possuir capacidade técnica para avaliar criticamente estas soluções".
As assimetrias são maiores nos media locais e regionais, "com menor probabilidade de desenvolvimento de experiências-piloto internas e de estabelecimento de parcerias", prossegue, adiantando que surgem "estratégias defensivas para preservar identidade editorial, incluindo não subordinar a agenda a métricas definidas pelas plataformas e autonomizar arquivos próprios".
Quanto aos Direitos de Autor e Direitos Conexos (CDADC), o Livro Branco salienta tensões em quatro pontos: autoria e originalidade; treino de modelos com conteúdos protegidos; fronteiras entre obra e prestação (voz/imagem); e exigências de transparência e proveniência.
Em Portugal, pouco mais de metade (52,2%) dos jornalistas "indicam que não existe autorização para uso de conteúdos jornalísticos no treino de modelos e 19% não sabem ou não respondem, coexistindo com apenas 6,8% que declaram propriedade ou controlo direto sobre algoritmos ou modelos de IA utilizados nas suas operações jornalísticas".
Os profissionais de rádio e de televisão "salientam riscos nos Direitos Conexos de voz e imagem (clonagem, recriação), defendendo cláusulas contratuais específicas e rotulagem consistente" e registam-se opções de "não ceder dados para treino, a par de apelos a programas próprios e cooperação intermedia".
Sobre regulação e políticas públicas, "predomina prudência face a riscos editoriais, acompanhada de expectativa de orientação institucional" e "valorizam-se recomendações de transparência, explicabilidade e cartas de princípios, mas reconhece-se que, sem capacidade interna mínima — governação, literacia aplicada e processos de validação —, a regulação é percebida como uma exigência difícil de cumprir".
A mediação algorítmica na distribuição "é entendida como fator que aumenta a incerteza e desloca custos de conformidade para as redações, reforçando a necessidade de políticas acompanhadas de instrumentos operacionais que permitam traduzir princípios em rotinas verificáveis", refere o Livro Branco.
Larga maioria dos jornalistas em Portugal nunca teve formação em IA
A larga maioria dos jornalistas em Portugal nunca tiveram formação em inteligência artificial, revela o Livro Branco sobre Inteligência Artificial no Jornalismo, o primeiro estudo de âmbito nacional sobre esta matéria, que é hoje apresentado em Lisboa.
O Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo é financiando pelo European Media and Information, sob a gestão da Fundação Calouste Gulbenkian e coordenado pela Nova FCSH.
De acordo com os dados, 83,8% dos jornalistas portugueses nunca receberam formação em inteligência artificial e quase dois terços (64%) afirmam que não existe qualquer código de conduta sobre IA nas suas redações.
Outro dos dados é que 64,4% acreditam que a IA "vai agravar a disseminação de desinformação" e 48% "antecipa impactos negativos na ética e deontologia profissional".
"Apenas 11,9% dos órgãos de comunicação social têm colaborações ativas com universidades ou centros de investigação", refere o Livro Branco, que conclui que "Portugal enfrenta um défice estrutural de preparação, que poderá comprometer a qualidade da informação, a proteção das audiências e a sustentabilidade das empresas jornalísticas, sobretudo num contexto marcado pela intensificação da desinformação e pela crescente utilização de conteúdos sintéticos".
O documento, que faz 10 recomendações estratégicas, pretende servir de base para a definição de políticas públicas e estratégias editoriais que garantam que a integração da IA nas redações decorre de forma ética, transparente e orientada para o interesse público.
"A publicação do Livro Branco sobre a IA no Jornalismo representa a importância de definição de políticas públicas suportadas por evidência, reflexão crítica e participação informada", afirma o coordenador Paulo Nuno Vicente.
Com este documento, "procuramos sistematizar os principais desafios e oportunidades que se abrem com a adoção de sistemas de IA nas organizações de media em Portugal, disponibilizando uma base sólida para o diálogo e a colaboração entre decisores políticos, agentes públicos e privados do setor e a sociedade civil", prossegue o responsável, citado em comunicado.
"Esperamos que este contributo sirva de referência para a construção de soluções sustentáveis, tecnicamente robustas e socialmente legítimas", acrescenta o coordenador do Livro Branco, referindo que este "foi concebido como uma ferramenta de orientação estratégica, apoiada em dados representativos da realidade nacional e no estado da arte do conhecimento internacional sobre o tema".
"Identificámos áreas críticas de intervenção e propomos um conjunto de recomendações, com especial enfoque na necessidade de cooperação interinstitucional e intersetorial, na inovação e na salvaguarda de direitos fundamentais. Trata-se de um ponto de partida para um processo que assume como princípio e fim a preservação de uma base de informação pública de qualidade, essencial à vitalidade das sociedades democráticas", remata Paulo Nuno Vicente.
Livro Branco sobre IA recomenda reforço do Serviço Público de Media na literacia e criação de Observatório
O Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo faz 10 recomendações estratégicas, entre as quais o reforço do Serviço Público dos Media na literacia mediática e a criação de um Observatório Nacional sobre IA e os media.
O Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo, que é hoje apresentado em Lisboa, é financiando pelo European Media and Information, sob a gestão da Fundação Calouste Gulbenkian e coordenado pela Nova FCSH.
Entre as recomendações consta o "reforçar o papel do Serviço Público de Media na literacia mediática e no combate à desinformação", desenvolvendo conteúdos regulares, multiplataforma e de acesso livre, incluindo formatos adaptados ao público infanto-juvenil, lê-se no documento.
O Livro Branco recomenda ainda a criação de um Observatório Nacional sobre IA e jornalismo, "com a missão de produzir conhecimento, monitorizar a aplicação de IA no ecossistema informativo nacional, mapear riscos e oportunidades, apoiar processos de decisão e promover a literacia algorítmica da sociedade civil".
Refere ainda a necessidade de estabelecer um quadro nacional de recomendações para o uso de IA no setor, coordenado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e o estabelecimento de diretrizes editoriais e operacionais para a utilização de IA generativa no jornalismo "através do desenvolvimento e implementação de um Manual de Políticas de Boas Práticas de IA aplicável a todas as áreas das empresas de media".
Recomenda também a implementação de "normas obrigatórias de sinalização pública de conteúdos generativos, assegurando que operadores de media adotam procedimentos técnicos e editoriais de identificação visível, verificável e consistente" e a revisão do Código do Direito de Autor e dos Diretos Conexos, "incorporando os desafios colocados pela IA e alinhando o regime jurídico nacional com as orientações europeias e internacionais".
Entre as 10 recomendações constam ainda a criação de um programa de apoio à inovação em IA aplicada ao jornalismo, "articulando diferentes tipos de entidades parceiras e assegurando a disponibilidade de laboratórios de experimentação e capacitação distribuídos regionalmente", bem como "criar convocatória pela FCT (futura AI) para financiamento a projetos de investigação exploratórios em IA aplicada ao jornalismo português, com base em dados e necessidades do contexto nacional".
Criar um programa nacional de formação de competências (‘upskilling’ e ‘reskilling’) em inovação interdisciplinar para os media "desenvolvido em colaboração entre Cenjor, universidades, institutos politécnicos e empresas de media" e integrar competências em inteligência artificial nos cursos de jornalismo "através de um referencial nacional co-construído, que incorpore de forma transversal conteúdos sobre IA e tecnologias emergentes, acompanhados de formação certificada para docentes, promovendo uma abordagem interdisciplinar" são outras duas recomendações.
O Livro Branco e os dois estudos que o sustentam – Relatório de Diagnóstico e Análise Temática e Relatório de Contributos Participativos – resultam de uma colaboração interinstitucional que reuniu instituições académicas nacionais (Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Minho, Universidade Católica Portuguesa, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade Europeia, Universidade da Beira Interior, Universidade de Coimbra) e duas universidades brasileiras (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).