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CEO da KWAN

Inteligência Artificial: A Europa regula. Portugal fica para trás

6 fev, 08:55

A nova Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) mostra que produzimos pouco valor por hora de trabalho, mas a ambição é grande. O Governo quer usar a IA como alavanca estrutural para mudar a trajetória da economia, com impacto potencial de dezenas de milhares de milhões de euros no PIB e um salto relevante no contributo da produtividade para o crescimento. O problema é que a realidade — e os dados mais recentes — contam uma história bem menos entusiasmante.

Em 2025, a adoção de IA em Portugal subiu apenas 1,8 pontos percentuais, para 24%. Continuamos a meio da tabela europeia e mundial. Não estamos a recuperar terreno, estamos a acompanhar o pelotão. E quem está estruturalmente atrasado e anda à velocidade da média nunca apanha ninguém.
Mais preocupante ainda: o fosso entre regiões e países está a aumentar. O chamado “Global North” está a adotar IA quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo. Mesmo dentro dos países, o padrão repete-se com precisão quase matemática: grandes empresas avançam, PMEs ficam para trás, setores tradicionais ainda mais para trás. O mercado, deixado a si próprio, não está a corrigir desigualdades — está a ampliá-las.

Isto coloca a ANIA perante uma escolha que ainda não parece totalmente assumida: ou se transforma numa máquina de execução agressiva, focada precisamente onde a produtividade é mais baixa, ou será apenas mais uma estratégia bem-intencionada a surfar uma tendência medíocre.

A própria agenda assume que a Administração Pública deve ser o grande catalisador. A ideia é estrategicamente correta. Num país pequeno como o nosso, o Estado é o único cliente com escala suficiente para criar mercado, normalizar práticas e puxar o tecido económico. Mas aqui está também um dos maiores riscos: a Administração Pública portuguesa tem um talento histórico para transformar boas intenções em cemitérios de pilotos. Fragmentação, aversão ao risco, contratação pública labiríntica e ausência de métricas de impacto já arruinaram demasiadas modernizações para podermos fingir que desta vez será diferente por decreto.

Sem metas públicas por serviço, sem prazos vinculativos, sem mecanismos claros de “ou escala ou acaba”, a IA no Estado corre o risco de ser apenas mais uma camada de modernização cosmética — cara, sofisticada e irrelevante.

Depois, há o tema do talento e requalificação. Fala-se em 1,3 milhões de postos de trabalho a requalificar até 2030. O número impressiona, mas é quase vazio sem uma arquitetura concreta. Sem um mapa rigoroso de tarefas e processos, corremos o risco de produzir estatísticas de formação — não ganhos reais de produtividade.

Mas há uma tensão ainda mais profunda, e essa raramente é dita de forma frontal. A Europa quer ser simultaneamente o continente mais regulado e o mais rápido a adotar a tecnologia mais disruptiva das últimas décadas. Estas duas ambições entram em conflito. 

O próprio enquadramento europeu — em particular o novo Regulamento da IA — é reconhecido como pesado, sobretudo para PMEs e startups. E não é por acaso que os dados globais mostram um fenómeno revelador: uma parte significativa da aceleração recente da adoção vem de plataformas abertas, baratas e com baixíssima fricção de entrada. Quando a tecnologia é acessível e fácil de experimentar, a adoção explode. Quando é cara, complexa ou juridicamente opaca, a adoção arrasta-se.

A Europa está a tentar governar a IA como se estivesse a regular uma indústria madura. Mas estamos ainda numa fase de exploração, recombinação e tentativa-erro. Para quem já está na frente, regular cedo é uma forma de proteger posição. Para quem está atrás, regular primeiro é uma forma muito eficaz de cristalizar o atraso.

Isto não significa que não devamos regular. Significa que a sequência importa.

Se Portugal quiser apanhar esta onda tecnológica com exatamente as mesmas regras, ritmos e fricções dos países que já lideram, vai falhar. Não por falta de talento, mas por excesso de cautela institucional.

O país não precisa de mais uma estratégia. Precisa da primeira que sobreviva ao contacto com a realidade. Isso exige menos fetiche tecnológico, menos culto do piloto, menos ilusão estatística — e muito mais obsessão com execução, processos e resultados medidos onde realmente importa.

A janela de oportunidade existe, mas não vai esperar que resolvamos primeiro todos os dilemas regulatórios, administrativos e políticos. Temos de usar a IA para nos tornarmos estruturalmente mais produtivos, e não acabar por ser mais uma boa intenção que nos faz permanecer onde estamos.

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