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Sem palavras? A Geração Z está a deixar as conversas difíceis para a IA

CNN , Asuka Koda
26 abr, 18:00
Inteligência Artificial (CNN)

Especialistas alertam que a utilização da IA ​​para conduzir interações sociais pode estar a prejudicar o desenvolvimento emocional, deixando a Geração Z, já isolada desde a pandemia, ainda menos preparada para as complexidades das ligações humanas

Eram quase 02:00 da manhã de uma segunda-feira quando Emily recebeu uma mensagem de um colega, Patrick, com quem tinha saído num encontro às cegas dois dias antes. Os dois são alunos do terceiro ano da Universidade de Yale e foram apresentados por amigos comuns. Ambos aceitaram falar com a CNN sob condição de anonimato, pelo que os seus nomes são fictícios para proteger a sua privacidade.

“Olá, Emily! Espero que a tua meia maratona tenha corrido bem — tenho a certeza que arrasaste”, escreveu Patrick com um emoji a piscar o olho.  “Ok, tem paciência comigo — não sou muito bom nisto, mas vamos lá.”

Numa mensagem de seis parágrafos, Patrick disse que gostaria de “sair mais” vezes com Emily. “Seja só como amigos ou o que quer que tenhamos sido este fim de semana”, sublinhou, acrescentando que não estava “à procura de nada muito sério agora”.

Inicialmente, Emily não viu nada fora do normal na mensagem de Patrick. "Parecia muito formal, e eu sabia que ele era um tipo porreiro. Por isso, pensei: 'Talvez seja assim que ele envia mensagens'." Mas, depois de partilhar a mensagem com duas amigas, que a analisaram com um detetor de inteligência artificial, teve a resposta: "99% da mensagem foi escrita por IA."

E tinha razão.

Patrick admitiu ter utilizado o ChatGPT para escrever a sua mensagem. Disse que não tinha muita experiência em escrever mensagens de rejeição: "O que é que eu faço? É a primeira vez que saio com alguém desde a minha namorada do secundário, por isso é que estava tão nervoso e queria uma segunda opinião."

"Tentei escrever os meus pensamentos, mas não tinha a certeza de como formatar isto de uma forma que não ficasse muito mal, por isso recorri ao Chat", explicou. Patrick descreveu a situação, os seus pensamentos e emoções ao ChatGPT, que lhe gerou uma mensagem.

Patrick está longe de ser o único a recorrer à IA para abordar temas sérios. Investigadores indicam que há cada vez mais jovens a recorrer à Inteligência Artificial (IA) para lidar com situações sociais — seja para escrever mensagens de rejeição, descodificar sinais contraditórios ou simular conversas difíceis.

Os especialistas alertam que este hábito pode estar a prejudicar o desenvolvimento emocional, deixando uma geração já isolada, pois atingiu a maioridade durante a pandemia, ainda menos preparada para a complexidade das relações humanas.

Patrick trocou mensagens com o chatbot e “ajustou algumas frases aqui e ali, mas foi basicamente copiar e colar” do ChatGPT. “Adicionei um emoji e tentei dar-lhe um tom mais humano”, confessa.

“Senti-me melhor ao enviar isto porque queria ser muito claro e direto. Não queria ser vago, caso ela interpretasse mal. Sabia que se o fizesse sozinho, seria vago”, admite Patrick, que compara esta ação como uma consulta a um especialista.

Emily não considerou a mensagem clara e isso só tornou as intenções de Patrick ainda mais confusas. Emily confessa que não conseguiu perceber pela linguagem da IA ​​se Patrick queria ser seu amigo ou não.

"A minha principal intenção era ser claro sobre como me estava a sentir e o que estava pensar sobre a situação", conta Patrick. "Pensando bem, foi uma atitude muito má da minha parte. Acho que ter demorado tanto tempo a perceber foi a razão de ter recorrido ao chat."

"Acho que ele [Patrick] estava a pensar demais", considera Emily. "Definitivamente não precisa de usar IA; é uma pessoa emocionalmente equilibrada."

Descreveu a interação como estranha, mas disse que muitos dos seus amigos também já recorreram à inteligência artificial para escrever mensagens para amigos ou parceiros, ou para analisar situações sociais — por vezes colando conversas inteiras num chatbot para decifrar o que alguém poderia estar a pensar.

“A ideia de o meu irmão mais novo recorrer à IA para acabar com a namorada preocupa-me. Porque agora ele vem ter comigo, mas quando é que vai recorrer à IA?”, reflete Emily, que diz estar preocupada com o facto de a Geração Z ter dificuldade em “lidar com os seus próprios sentimentos”.

Emily também está preocupada com a capacidade de socialização da sua geração, e alguns especialistas concordam que há motivos para preocupação.

"Descarregamento social”

A experiência de Emily faz parte de um padrão mais vasto que preocupa os investigadores.

Michael Robb, que lidera o departamento de investigação da Common Sense Media, descreve o uso da IA para lidar com situações pessoais como um "descarregamento social", e sublinha que este fenómeno não se limita à Geração Z. Robb também observa o mesmo fenómeno na Geração Alfa (nascidos entre 2010 e 2024) e em alguns millennials (nascidos entre 1981 e 1996).

Um terço dos adolescentes prefere ter conversas sérias com assistentes virtuais do que com humanos, segundo um inquérito de 2025 realizado pela Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que ajuda as famílias a escolherem meios adequados à sua idade.

"Se utiliza a IA para escrever as suas mensagens para amigos ou parceiros românticos, está a externalizar o próprio ato comunicativo", afirma Robb.

O problema tem duas dimensões, diz. Por um lado, cria uma "discrepância de expectativas", uma vez que quem recebe as mensagens está a "responder a uma versão melhorada pela IA do seu amigo e não à pessoa real". Por outro lado, continua o investigador, o uso repetido pode minar a confiança dos utilizadores nas suas próprias vozes, impedindo os jovens adultos de desenvolverem competências essenciais, tais como interpretar intenções sociais, inferir as emoções dos outros e tolerar a ambiguidade nas interações sociais.

“Isto tem implicações ao nível do sentido de identidade, na capacidade de expressar sentimentos e emoções e na formação da identidade”, que são fundamentais para o desenvolvimento social, sublinha Robb. “Se cada texto complicado ou difícil for mediado pela IA, isso pode incutir nos utilizadores a ideia de que as suas próprias palavras e instintos nunca são suficientemente bons”.

Michelle DiBlasi, psiquiatra e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Tufts, observa a mesma tendência.

“Tenho visto jovens, adolescentes e jovens adultos, a utilizar a IA para socializar, e muitas vezes usam-na como forma de compensar o facto de não saberem realmente como interagir com os outros”, afirma DiBlasi. “Somos seres sociais, e muitos dos nossos sentimentos de autoestima e ligação estão realmente relacionados com as nossas interações com os outros.”

A médica psiquiatra diz que o uso da IA ​​nas interações sociais prejudica o desenvolvimento emocional e pode perpetuar sentimentos de solidão e isolamento. Além disso, pode também limitar a capacidade das pessoas de captar sinais sociais, reconstruir relações e conectar-se com os outros.

O impacto da pandemia nas ligações sociais

Afinal, porque é que a Geração Z está a ter dificuldades com a socialização? Os investigadores dizem que a resposta está numa combinação da cultura digital e da pandemia.

Russell Fulmer, professor da Universidade Estadual do Kansas que estuda inteligência artificial e ciências comportamentais, diz que estas duas forças criaram a "tempestade perfeita" para a integração da IA ​​na interação social.

A adolescência — aproximadamente dos 10 aos 19 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde — é o período crítico para o desenvolvimento da autoconfiança, de um sentido de identidade estável e da regulação emocional. Se os adolescentes não desenvolverem plenamente as suas competências sociais durante este período, podem tornar-se "mais propensos à falta de confiança, mais propensos ao escapismo ou à evitação, e talvez apresentem falta de resiliência", argumenta Fulmer.

DiBlasi afirma que a pandemia atingiu a Geração Z num momento particularmente vulnerável. "Quando [a covid] surgiu, estes jovens estavam na fase em que o lobo frontal do cérebro estava a começar a formar-se", explica a psiquiatra. Geralmente, é nesta fase que os adolescentes aprendem a construir relações, a captar sinais sociais e a desenvolver a mentalização — "a capacidade de compreender o estado mental de outra pessoa, o que está a pensar e como se sente".

Esta falta de interação leva a "uma profunda sensação de isolamento, a sensação de que os outros não os compreendem, ou que não compreendem os outros", o que leva muitos a recorrer à IA em busca de companhia, acrescenta DiBlasi. Mas Fulmer alerta que os chatbots podem criar um "ciclo de solidão", oferecendo uma "aparência de ligação" que, em última análise, se revela insatisfatória e pode aprofundar o isolamento.

Nos casos mais graves, DiBlasi reparou que os seus doentes com pensamentos suicidas recorreriam à IA para os ajudar a expressar o que estavam a sentir quando não conseguiam encontrar as palavras para dizer aos outros.

“Acho que isto pode ser muito, muito prejudicial, porque é importante que as pessoas expressem algumas destas emoções de forma muito honesta com familiares ou amigos, para que possam realmente lidar com isto de forma autêntica”, explica a psiquiatra.

Ainda não é tarde para quebrar o ciclo

Embora alguns jovens da Geração Z possam ter perdido uma janela de oportunidade crucial para desenvolver competências interpessoais, DiBlasi salienta que nunca é tarde para aprender e encoraja as pessoas a recorrerem a amigos e familiares em vez da inteligência artificial quando têm dificuldade em expressar emoções complexas.

“São competências que, com a prática, podem realmente melhorar”, assegura. “Percebo que as pessoas tenham medo ou que não queiram dizer algo errado. Mas acho mesmo que isso impede qualquer compreensão do que se está realmente a sentir e elimina a ligação e a reparação necessárias nestas relações.”

A inteligência artificial é um substituto inadequado para a complexidade da interação humana real, dizem os especialistas, e essa complexidade é precisamente o que caracteriza as interações humanas.

“As relações e as conversas podem ser complexas e provavelmente devem ser, e isso faz parte do que te torna mais socialmente competente a longo prazo”, explica Robb. O investigador acrescenta que os assistentes virtuais de IA são “projetados para serem muito acolhedores e agradáveis”, pelo que o seu feedback não reflete a fricção que faz parte da forma como as pessoas reagem em relações reais.

Os utilizadores de IA também não devem esperar uma leitura objetiva das situações sociais, acrescenta Fulmer. “Os contextos sociais muitas vezes não são totalmente objetivos. São contextuais, relacionais e, portanto, cheios de nuances.” Por mais confiante que um chatbot possa parecer, está a procurar um padrão em algo que pode não o ter.

Robb recomenda que os pais estejam mais atentos a sinais de alerta nos seus filhos, como o isolamento social, a queda do rendimento escolar ou uma crescente preferência pela IA em detrimento da interação humana. Os pais podem responder com conversas leves e sem pressão, como perguntar para que é que os seus filhos usam a IA, como os faz sentir e o que acham que ganham com ela.

O objetivo é fazer com que as crianças reflitam criticamente sobre os pontos fortes e as limitações da IA, explica Robb, que sugere que as famílias considerem limites para a utilização da IA, semelhantes às regras de tempo de ecrã.

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