O barato chinês está a sair caro aos EUA: o DeepSeek custa menos de 6.000.000€ e está tudo pasmado

CNN , Allison Morrow
28 jan 2025, 10:33
Deepseek
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O DeepSeek é um modelo de Inteligência Artificial chinês que está a impressionar os peritos por ser muito bom e muito mais barato que os modelos caríssimos desenvolvidos nos EUA. E provocou uma queda histórica na bolsa - perguntem à Nvidia sobre isso

O DeepSeek R1 acabou de rebentar com a narrativa da indústria da Inteligência Artificial de que é preciso mais dinheiro e poder

análise de Allison Morrow, CNN

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A história da IA na década de 2020 foi mais ou menos assim:

Sam Altman (CEO da empresa que desenvolveu o ChatGPT): Olha, um brinquedo que pode fazer coisas incríveis.
Ventura Capital: Isto vai resolver tudo!
Pessimistas: Isto vai arruinar tudo.
Sector tecnológico: Precisamos de dinheiro!
Toda a gente: Será que não podemos destruir o ambiente por causa disto?
Sector tecnológico: Precisamos de dinheiro!
Wall Street: Onde é que está o nosso retorno?
Sector tecnológico: Mais energia! Mais poder! Mais poder!

E eis que no ano de 2025 surge a DeepSeek para dar cabo de toda a narrativa da indústria sobre o apetite sem limites da Inteligência Artificial (IA) por poder e, potencialmente, quebrar o feitiço que mantinha Wall Street a canalizar dinheiro para qualquer pessoa com as palavras “aproveitar a IA” na sua apresentação.

A DeepSeek lançou uma bomba conhecida como DeepSeek R1 que deixou todo Sillicon Valley e grande parte de Wall Street em alvoroço.

O modelo de linguagem de grande dimensão da empresa chinesa é basicamente um ChatGPT mais barato e mais eficiente, construído com uma fração do orçamento da OpenAI e utilizando muito menos chips do que qualquer outro chatbot relevante.

“Trata-se de um grande terramoto no sector da IA”, diz Gil Luria, diretor de investigação tecnológica do grupo de investimento D.A. Davidson. “Toda a gente está a olhar para isto e a dizer 'não pensávamos que isto fosse possível - e uma vez que é, então temos de repensar tudo o que temos vindo a planear'.”

De repente, todo o dinheiro e poder de computação que os Sam Altmans, Mark Zuckerbergs e Elon Musks têm dito serem cruciais para os seus projectos de IA - e, portanto, para a liderança contínua dos Estados Unidos na indústria - podem acabar por ser extremamente exagerados.

A DeepSeek, cuja aplicação de IA subiu para o primeiro lugar na loja de aplicações da Apple, afirma ter construído o seu modelo de base por menos de 6 milhões de euros (contra os mais de 100 milhões que Altman disse que foi o custo para construir o GPT-4).

A DeepSeek também afirma ter usado apenas 2.000 chips da Nvidia, que obteve antes de as restrições à exportação dos EUA serem implementadas (a OpenAI diz que usou 25.000 dos mais poderosos chips Nvidia H100 para construir o GPT-4).

É um momento estranho para a administração Trump, que na semana passada anunciou um investimento de meio bilião no setor privado para construir mais centros de dados e manter os Estados Unidos à frente da China na corrida da IA. (Oops!)

E são notícias incrivelmente más para a Nvidia, o fabricante americano de chips que está a impulsionar a corrida ao ouro da IA. As ações da Nvidia caíram 17% na segunda-feira, perdendo 600 mil milhões de dólares em capitalização bolsista numa única sessão - a maior perda de um dia para uma única ação na história. Alphabet (dona da Google), Microsoft, Oracle, TSMC e muitos outros afundaram - e como as ações de tecnologia são tão dominantes, isso também arrastou o mercado de ações mais amplo para baixo.

O Nasdaq, com grande peso tecnológico, caiu 3% e o S&P 500 caiu 1,5% (0 Dow, impulsionado por empresas de saúde e consumo, terminou o dia com alta de menos de 1%).

A IA acabou, viva a IA

É claro que um dia mau em Wall Street não faz um apocalipse (Isso fica para mais tarde, quando um desses laboratórios de IA criar bots assassinos superinteligentes. Estou a brincar! Mais ou menos.)

Mas o DeepSeek está a obrigar os investidores a dar um passo em frente e a questionar os pressupostos das empresas de tecnologia. Segundo o raciocínio do sector nos EUA, a indústria de IA precisava de continuar a aumentar a “computação” (ou poder computacional), o que significava comprar dezenas de milhares de chips de última geração da Nvidia e construir centros de dados gigantescos.

“A DeepSeek deixa muito claro que a trajetória atual de expansão dos data centers é altamente improvável que seja económica para os clientes da Nvidia”, sublinha Luria.

A indústria de IA, e a OpenAI em particular, tem seguido dois caminhos ao mesmo tempo.

Há o negócio de conceber modelos de IA com melhores algoritmos e um raciocínio mais sólido - o tipo de coisas que requerem “delicadeza, em oposição à força bruta”, diz Luria. E depois há o caminho do Stargate, de investimentos gigantescos em energia.

A primeira tarefa ainda é “válida e importante”, enquanto o segundo caminho parece “ridículo”, considera Luria. “A DeepSeek deixa claro que essa escala e esse gasto seriam, no mínimo, um desperdício.”

Por outras palavras, a IA não está morta. Mas a paisagem está a mudar mais rapidamente do que qualquer pessoa, talvez acima de tudo a Nvidia, esperava.

Picaretas e pás

A Nvidia tornou-se a derradeira jogada de “picaretas e pás” em Wall Street, transformando-a numa empresa de 3 mil milhões de euros no espaço de alguns anos. Até agora, a procura de chips da Nvidia parecia não ter limites - as empresas tecnológicas iam continuar a devorá-los mais depressa do que a Nvidia os conseguia produzir.

Mas se a DeepSeek conseguiu realmente construir um concorrente do ChatGPT utilizando uma mão-cheia de processadores antigos, então talvez os clientes tecnológicos da Nvidia não precisem em breve de tantos como pensavam. Muitos em Wall Street pareciam pensar assim esta segunda-feira, quando as ações entraram em queda livre (por seu lado, a Nvidia pareceu encolher os ombros à venda numa declaração à Bloomberg, chamando ao modelo da DeepSeek um “excelente avanço da IA” que “ilustra como podem ser criados novos modelos”).

Também é bom ter em mente que Wall Street é propensa a birras, que é como alguns investidores em tecnologia classificaram o que aconteceu esta segunda-feira.

“No final do dia há apenas uma empresa de chips no mundo a lançar produtos autónomos, robóticos e de IA mais amplos - é a Nvidia”, escreveram analistas da Wedbush numa carta enviada aos clientes. “Lançar um modelo LLM competitivo para casos de uso do consumidor é uma coisa, lançar uma infraestrutura de IA mais ampla é um jogo totalmente diferente - e nada na DeepSeek nos faz acreditar em algo diferente.”

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