O curso do mundo começa a desviar-se de um modo irremediavelmente assustador: a proliferação da IA é hoje tão veloz que está a tornar-se o motor silencioso de reconfiguração do poder internacional
Entrámos em fevereiro distraídos com alertas meteorológicos, tempestades fora de época e imagens de casas modulares a voar. Seguimos o nosso curso habitual: ruído mediático, confortável ilusão de normalidade. Assim corre Portugal e assim vamos vivendo, já quase esquecidos dos acontecimentos do final de dezembro de 2025. Distraídos pelo consumo e pelo ruído sazonal natalício, temos uma tendência perigosa: fechamos os olhos enquanto o curso do mundo começa a desviar-se. E de um modo irremediavelmente assustador.
Mesmo já passado o primeiro mês do ano, a memória transporta-nos para o dia 3 de janeiro de 2026. Chegou a notícia de magnitude brutal: Trump anunciava, em segundos, a captura de Maduro. Poucos dias antes, a 29 de dezembro de 2025, outra notícia com impacto silencioso, mas global: a Meta comprava a Manus, um dos agentes de IA mais poderosos do mundo.
O grande problema do século XXI está a acontecer diante dos nossos olhos, e só não o vemos se quisermos ignorar. Uma geração poderosa de tecnologia está a conduzir a humanidade para resultados potencialmente distópicos. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a tecnologia teve um papel crucial a favor de Kiev: a junção de drones com sistemas de IA permitiu respostas rápidas em combate e colmatou falhas militares iniciais. Muito disto foi impulsionado por engenheiros de software, consultores e até amadores voluntários. A IA conseguiu, em tempo recorde, lidar com um problema estratégico.
No dia 3 de janeiro de 2026, a tecnologia volta a mostrar o seu poder na captura de Maduro: uma operação na escuridão e sem fricção. Há poucos anos isto não seria exequível da mesma forma, mas a proliferação da IA é hoje tão veloz que está a tornar-se o motor silencioso de reconfiguração do poder internacional. A IA promete sempre mais, melhor e mais barato. Tem a capacidade de deslocar o eixo do poder a favor de quem souber fazer o uso mais eficiente dela. Em teoria, deveria servir-nos e servir o planeta; na prática, está a tornar-se mais acessível e, ao mesmo tempo, mais desequilibrada na forma como se espalha e é controlada.
Há um ano, já não questionávamos se o poder da IA seria aproveitado, mas por quem e como. No início de 2026, é difícil negar que estamos num marco histórico: a IA está a ser usada pelos americanos como instrumento de controlo de poder, com vista ao que talvez seja o nosso maior medo enquanto espécie: quem vai controlar a tecnologia mais contida (e mais perigosa) da história, que são as armas nucleares. A Meta acaba de comprar, cerca de seis dias antes da captura de Maduro, um dos maiores agentes de IA da atualidade: a Manus, nascida com raízes chinesas e sede em Singapura. Tínhamos Estados Unidos versus China a disputar a liderança em IA; agora, mais uma peça relevante desta competição passou para a órbita americana.
Quanto mais todos nós, fora da nacionalidade americana, usarmos IA sem perceber como funciona e sem qualquer cautela crítica, mais caminhamos para uma forma de opressão amplificada e silenciosa." Maria Rita Melo
A capacidade de a IA se tornar um mau agente é tão simples quanto a possibilidade de se tornar o melhor aliado que já tivemos enquanto sociedade. A IA vai coexistir em modelos centralizados e descentralizados, e deixar-nos sem boas opções seria um fracasso da tecnologia. Mas deixar-nos com uma única opção – um controlo quase total, concentrado num poder inflexível dominado por um único Estado-nação – é o início do dilúvio. Muitos especialistas temiam que essa possibilidade estivesse apenas na ponta do icebergue; em 2026, parece que se está a abrir o limbo da troca da liberdade pela segurança.
Quanto mais todos nós, fora da nacionalidade americana, usarmos IA sem perceber como funciona e sem qualquer cautela crítica, mais caminhamos para uma forma de opressão amplificada e silenciosa. A resposta da IA, nesse cenário, será inevitavelmente catastrófica, não por ser “má” em si, mas porque refletirá, à escala, os interesses de quem a controla. Agora, mais do que nunca, é altura de aprender a usá-la para o bem. Os Estados precisam de perceber que capturas, compras tecnológicas e propaganda de uso gratuito não são gestos inocentes, mas movimentos taticamente planeados para moldar o futuro da humanidade.
Para nossa sanidade mental, e para reconstruirmos relações interpessoais mais autênticas, talvez seja altura de nos sentarmos frente a frente, conversar e usar a nossa inteligência humana: observar o passado, prever cenários plausíveis de futuro e agir de forma sensata a partir dessas previsões. No meio de tudo isto, confesso: o meu museu preferido passou a ser o MoMA no final de 2025 e, ironicamente, porque a “Singapore Pinacothèque de Paris” pertence agora apenas à memória (fechou em 2016), tal como alguns futuros possíveis que estamos lentamente a deixar escapar.
No final, não é só a tecnologia que muda: somos nós que escolhemos, todos os dias, se entregamos o nosso juízo aos algoritmos ou se o reclamamos de volta. Na medicina, o dado mais perigoso não é o que a IA já consegue ler, mas aquilo que deixamos de questionar só porque um modelo o confirmou.